{"id":15584,"date":"2021-06-28T17:26:59","date_gmt":"2021-06-28T20:26:59","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15584"},"modified":"2021-07-26T17:03:37","modified_gmt":"2021-07-26T20:03:37","slug":"era-de-uma-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/era-de-uma-vez\/","title":{"rendered":"Era de uma vez"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>As palavras chegam como guardas. \u00c9 por meio delas que ficamos sabendo quando somos bem-vindos, corremos perigo ou somos inscientes. Como ensinou um fil\u00f3sofo, as palavras fazem coisas como juramentos, ofensas e promessas. Com elas travamos uma infinito combate contra a ignor\u00e2ncia.<\/em><br> &#8211; Roberto Damatta &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p>Dias desses me mandaram pelo&nbsp;<em>Whatsapp<\/em>&nbsp;um filmete, de outubro de 2019, em que a deputada estadual Isa Penna lia da tribuna da Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo o poema&nbsp;<em>Sou puta, sou mulher<\/em>, de Helena Ferreira, das Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um bafaf\u00e1 danado. Deputado (da extrema direita, pois n\u00e3o) pediu aos pares que se cassasse o mandato da deputada do PSOL por quebra de decoro. Cassa\u00e7\u00e3o n\u00e3o houve \u2013 em realidade, era um protesto feminista -, tanto que at\u00e9 hoje a parlamentar est\u00e1 a\u00ed, ou melhor, l\u00e1, no Pal\u00e1cio 9 de Julho, pelo visto j\u00e1 tendo superado (tomara) vergonhoso epis\u00f3dio, ocorrido no mesmo recinto um ano depois, quando foi assediada por um deputado cafajeste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Saio dos efl\u00favios da poeta Helena mineira para evocar poeta goiana. E que poeta. Uma tal de Cora Coralina, que por ocasi\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es do&nbsp;Ano Internacional da Mulher em 1975 lavrou&nbsp;<em>Mulher da vida, minha irm\u00e3<\/em>: \u201c(&#8230;)&nbsp;<em>No fim dos tempos<\/em>\/<em>No dia da Grande Justi\u00e7a\/do Grande Juiz. Ser\u00e1s remida e lavada\/de toda condena\u00e7\u00e3o.\/E o juiz da Grande Justi\u00e7a\/a vestir\u00e1 de branco em\/ novo batismo de purifica\u00e7\u00e3o.\/Limpar\u00e1 as m\u00e1culas de sua vida\/humilhada e sacrificada\/para que a Fam\u00edlia Humana\/possa subsistir sempre,\/estrutura s\u00f3lida e indestrut\u00edvel\/da sociedade,\/de todos os povos,\/de todos os tempos.\/Mulher da Vida,\/Minha irm\u00e3.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p> Num rigor esta postagem nada tem a ver exatamente com as prostitutas, dignas de todo o meu respeito incondicional. As observa\u00e7\u00f5es de in\u00edcio feitas servem apenas para chamar \u00e0 cena tr\u00eas mulheres de milit\u00e2ncia a mais elogi\u00e1vel. A primeira, pela autoria do poema; a segunda, por difundi-lo em plena casa dos fazedores de lei do maior estado brasileiro; e a terceira, de Goi\u00e1s Velho, pelo fato de ser respons\u00e1vel pela convoca\u00e7\u00e3o de mais duas mulheres, uma \u00e9 professora (Lu), a outra \u00e9 aluna (Antonia). Ou seria o inverso? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>ERA DE UMA VEZ\u2026 TUDO DE UMA VEZ!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">E, como diz meu sobrinho de 3 anos, &#8220;era de uma vez&#8221;, ia eu andando na rua e escuto:<br><br> \u2014 Professora!<br><br> Era dona Ant\u00f4nia, a faxineira da escola, me pegando no bra\u00e7o e dizendo:<br><br> \u2014 Voc\u00ea me ensina ler, professora? Eu queria aprender a ler mas nunca pude, s\u00f3 que t\u00f4 decidida. Se a senhora quiser me dar leitura, eu te pago 100 reais por m\u00eas! Eu vou pagar pelo meu estudo, todo m\u00eas a senhora ganha 100, eu n\u00e3o quero mais ser pessoa sem leitura. Meu sonho \u00e9 ir na lousa e ler jornal.<br><br> Dizendo isso me mostrava abanando a nota de 100 como um grande pr\u00eamio que por mim seria alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br> \u2014 Sabe, professora, a senhora ganha 100 e eu mudo muito a minha vida. Sorriso de sedu\u00e7\u00e3o, me perguntou:<br><br> \u2014 Tu topa?<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/335_Dona-Antonia-1024x581.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15586\" width=\"852\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/335_Dona-Antonia-1024x581.jpeg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/335_Dona-Antonia-300x170.jpeg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/335_Dona-Antonia-768x436.jpeg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/335_Dona-Antonia.jpeg 1080w\" sizes=\"(max-width: 852px) 100vw, 852px\" \/><figcaption><em>foto: Lumarialu<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">A aluna que escreveu o texto na minha lousa n\u00e3o mais aqui est\u00e1. Foi enterrada no s\u00e1bado.<br> Morreu da \u201cgripezinha\u201d. \u00c9 preciso dar nome e voz para quem chama at\u00e9 seus entes queridos por n\u00fameros.<br> Ela era uma senhora, se chamava Dona Ant\u00f4nia, tinha 67 anos e eu tenho orgulho, muito orgulho de dizer que eu a alfabetizei. Dona Ant\u00f4nia conheceu a hist\u00f3ria de Cora Coralina e, quando conseguiu, escreveu este pequeno texto da foto.<br>Olhou e me disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">\u2014 Professora, eu n\u00e3o sou mais qualquer uma, eu tenho leitura e sei at\u00e9 escrever meu nome, obrigada, professora!<br><br> Ela me dizia v\u00e1rias coisas e realizou tamb\u00e9m o seu sonho: &#8220;comprar o jornal e ler pra professora&#8221;, um jeito de provar &#8220;agora, eu tenho leitura!&#8221;.<br> Fica aqui a letra que ela aprendeu comigo e tanto tinha orgulho em perguntar se eu achava mesmo se estava bem bonita.  Registro aqui meu orgulho por tudo que ela me ensinou e fica aqui tamb\u00e9m o meu &#8220;Dona Ant\u00f4nia, Presente&#8221;!<br> Nunca vou esquecer seu abra\u00e7o e seu jeito empoderado de dizer:<br><br>  \u2014 Sabe, eu n\u00e3o assino mais com o ded\u00e3o, eu &#8220;seio&#8221; ler e a mo\u00e7a do INSS quando veio me dar o carimbo de tinta eu disse:<br><br>  \u2014 Me d\u00e1 a caneta, eu sei fazer meu nome!<br><br>  Onde voc\u00ea estiver que esteja em paz, que Deus e <strong>&#8220;Cola Colarina&#8221;<\/strong> lhe recebam. Descansa em paz, aluna querida!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\">&#8211; Lumarialu &#8211;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\" class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Isa_Penna\">#Isa Penna<\/a><br><a href=\"https:\/\/br.linkedin.com\/in\/helena-ferreira-61b871131\">#Helena Ferreira<br><\/a><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cora_Coralina\">#Cora Coralina<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Roberto_DaMatta\">#Roberto Damatta <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">28\/06\/2021<br> (335)<br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As palavras chegam como guardas. \u00c9 por meio delas que ficamos sabendo quando somos bem-vindos, corremos perigo ou somos inscientes. 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Saio dos efl\u00favios da poeta Helena mineira para evocar poeta goiana. E que poeta. Uma tal de Cora Coralina, que por ocasi\u00e3o das comemora\u00e7\u00f5es do&nbsp;Ano Internacional da Mulher em 1975 lavrou&nbsp;Mulher da vida, minha irm\u00e3: \u201c(&#8230;)&nbsp;No fim dos tempos\/No dia da Grande Justi\u00e7a\/do Grande Juiz. Ser\u00e1s remida e lavada\/de toda condena\u00e7\u00e3o.\/E o juiz da Grande Justi\u00e7a\/a vestir\u00e1 de branco em\/ novo batismo de purifica\u00e7\u00e3o.\/Limpar\u00e1 as m\u00e1culas de sua vida\/humilhada e sacrificada\/para que a Fam\u00edlia Humana\/possa subsistir sempre,\/estrutura s\u00f3lida e indestrut\u00edvel\/da sociedade,\/de todos os povos,\/de todos os tempos.\/Mulher da Vida,\/Minha irm\u00e3. Num rigor esta postagem nada tem a ver exatamente com as prostitutas, dignas de todo o meu respeito incondicional. As observa\u00e7\u00f5es de in\u00edcio feitas servem apenas para chamar \u00e0 cena tr\u00eas mulheres de milit\u00e2ncia a mais elogi\u00e1vel. A primeira, pela autoria do poema; a segunda, por difundi-lo em plena casa dos fazedores de lei do maior estado brasileiro; e a terceira, de Goi\u00e1s Velho, pelo fato de ser respons\u00e1vel pela convoca\u00e7\u00e3o de mais duas mulheres, uma \u00e9 professora (Lu), a outra \u00e9 aluna (Antonia). Ou seria o inverso? ERA DE UMA VEZ\u2026 TUDO DE UMA VEZ! E, como diz meu sobrinho de 3 anos, &#8220;era de uma vez&#8221;, ia eu andando na rua e escuto: \u2014 Professora! Era dona Ant\u00f4nia, a faxineira da escola, me pegando no bra\u00e7o e dizendo: \u2014 Voc\u00ea me ensina ler, professora? Eu queria aprender a ler mas nunca pude, s\u00f3 que t\u00f4 decidida. Se a senhora quiser me dar leitura, eu te pago 100 reais por m\u00eas! Eu vou pagar pelo meu estudo, todo m\u00eas a senhora ganha 100, eu n\u00e3o quero mais ser pessoa sem leitura. Meu sonho \u00e9 ir na lousa e ler jornal. Dizendo isso me mostrava abanando a nota de 100 como um grande pr\u00eamio que por mim seria alcan\u00e7ado. \u2014 Sabe, professora, a senhora ganha 100 e eu mudo muito a minha vida. Sorriso de sedu\u00e7\u00e3o, me perguntou: \u2014 Tu topa? A aluna que escreveu o texto na minha lousa n\u00e3o mais aqui est\u00e1. Foi enterrada no s\u00e1bado. Morreu da \u201cgripezinha\u201d. \u00c9 preciso dar nome e voz para quem chama at\u00e9 seus entes queridos por n\u00fameros. Ela era uma senhora, se chamava Dona Ant\u00f4nia, tinha 67 anos e eu tenho orgulho, muito orgulho de dizer que eu a alfabetizei. Dona Ant\u00f4nia conheceu a hist\u00f3ria de Cora Coralina e, quando conseguiu, escreveu este pequeno texto da foto.Olhou e me disse: \u2014 Professora, eu n\u00e3o sou mais qualquer uma, eu tenho leitura e sei at\u00e9 escrever meu nome, obrigada, professora! Ela me dizia v\u00e1rias coisas e realizou tamb\u00e9m o seu sonho: &#8220;comprar o jornal e ler pra professora&#8221;, um jeito de provar &#8220;agora, eu tenho leitura!&#8221;. Fica aqui a letra que ela aprendeu comigo e tanto tinha orgulho em perguntar se eu achava mesmo se estava bem bonita. Registro aqui meu orgulho por tudo que ela me ensinou e fica aqui tamb\u00e9m o meu &#8220;Dona Ant\u00f4nia, Presente&#8221;! Nunca vou esquecer seu abra\u00e7o e seu jeito empoderado de dizer: \u2014 Sabe, eu n\u00e3o assino mais com o ded\u00e3o, eu &#8220;seio&#8221; ler e a mo\u00e7a do INSS quando veio me dar o carimbo de tinta eu disse: \u2014 Me d\u00e1 a caneta, eu sei fazer meu nome! 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