{"id":15618,"date":"2021-08-31T23:44:53","date_gmt":"2021-09-01T02:44:53","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15618"},"modified":"2021-09-01T09:08:03","modified_gmt":"2021-09-01T12:08:03","slug":"memorias-memorialistas-lxx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxx\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXX)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Ao contr\u00e1rio do of\u00edcio do ator e do m\u00fasico, o trabalho do escritor se d\u00e1 em dois tempos: o momento da escrita, quando estamos sozinhos com nossos personagens, ideias e ang\u00fastias, e o momento em que as hist\u00f3rias chegam ao leitor e se completam, fechando um ciclo.<\/em><br> <em>&#8211; Raphael Montes &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p>Foram in\u00fameras e justas as mat\u00e9rias difundidas na imprensa sobre o passamento do Tarc\u00edsio Meira, padecente de comorbidades que se aliaram \u00e0 Covid-19 para, enfim (\u00e9 o fim?), afast\u00e1-lo da Gloria Menezes. Em todas as pautas, sobressa\u00edram as refer\u00eancias \u00e0s performances do ator na pele de&nbsp;<em>Um certo capit\u00e3o Rodrigo<\/em>&nbsp;&#8211; Rodrigo Cambar\u00e1 e a parceira Bibiana (ela dizia: ser boazinha \u00e9 f\u00e1cil, quase todo mundo o \u00e9; dif\u00edcil \u00e9 ser m\u00e1), casal protagonista duma hist\u00f3ria encartada no&nbsp;<em>O Tempo e o Vento<\/em>&nbsp;mas que assumiu&nbsp;<em>status<\/em>&nbsp;de cria\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e independente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15624\" width=\"433\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a-1024x1024.png 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a-300x300.png 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a-150x150.png 150w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a-768x768.png 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Blog337a.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><figcaption>https:\/\/blogdoschiavoni.wordpress.com\/2009\/12\/04\/o-tempo-e-o-vento\/<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Pois bem. Como soltar o Erico Ver\u00edssimo deste&nbsp;<em>blog<\/em>, iniciadas as respectivas postagens em agosto de 2020?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem nenhum talento para o palco, cofundei o&nbsp;<em>Teatro Mapati<\/em>&nbsp;no long\u00ednquo 1991, tendo convivido nesses trinta anos com centenas de artistas das artes c\u00eanicas, prova de que n\u00e3o se aprende por osmose a ser ator e atriz. N\u00e3o obstante, enceno despedida do pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo \u2013 largo na mesinha, lido, relido, ouvido e reouvido o&nbsp;<em>Solo de Clarineta<\/em>, primeiro volume de suas mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Transcorridos uns instantes, j\u00e1 sofrendo as dores da abstin\u00eancia, o canastr\u00e3o aqui negaceia, revoga sua decis\u00e3o e por consequ\u00eancia se deixa seduzir pela audi\u00eancia do volume 2 do&nbsp;<em>Solo de Clarineta<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201c<em>Caminhando sozinho aquela noite pela praia deserta, fiz algumas reflex\u00f5es sobre a morte. Desde que completara cinquenta anos eu come\u00e7ara a pensar com mais frequ\u00eancia \u2013 mas n\u00e3o obsessivamente \u2013 na possibilidade de cessar de ser, dum segundo para outro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cHavia menos de duas horas carregara nos bra\u00e7os um cad\u00e1ver&nbsp;<\/em>(era de um vizinho do escritor ga\u00facho, enfarte fulminante)<em>. Aqueles p\u00e9s brancos e frios pareciam conter uma terr\u00edvel advert\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cParei diante do mar. As ondas rolavam para a praia, soltando um gemido que parecia vir amea\u00e7ador das profundezas, mas que acabava desfeito em suspiros de espumas sobre as areias. No c\u00e9u sem lua as estrelas cintilavam. O vento do largo me batia, morno, na cara.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos monumentais tomos de&nbsp;<em>O Tempo e o Vento&nbsp;<\/em>(O Continente 1 e 2; O Retrato 1 e 2 e O Arquip\u00e9lago 1, 2 e 3), o t\u00edtulo da obra ficcional j\u00e1 indica, al\u00e9m do transcurso do tempo, o ar em movimento. Com efeito, pairando nos sete livros, uma locomotiva \u00e9pica a puxar seis vag\u00f5es, assinala-se&#8230; o vento. Sinistro. Pren\u00fancio de afli\u00e7\u00f5es, intemp\u00e9ries, desgra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0s divaga\u00e7\u00f5es do Erico memorialista:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSeguindo um h\u00e1bito que me vem da inf\u00e2ncia, comecei a conversar comigo mesmo em voz alta. Vieram-me \u00e0 mente trechos dum livro do te\u00f3logo existencialista Paul Tilich, que eu acabara de ler. Meu intelecto ent\u00e3o come\u00e7ou a doutrinar o corpo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u2018\u00c9 necess\u00e1rio que te conven\u00e7as de que o n\u00e3o-ser \u00e9 parte do nosso pr\u00f3prio ser. O n\u00e3o-ser depende do ser que ele nega. Deste modo, meu amigo, o ser tem uma prioridade ontol\u00f3gica sobre o n\u00e3o-ser. N\u00e3o poderia haver nega\u00e7\u00e3o se n\u00e3o houvesse uma afirma\u00e7\u00e3o precedente a ser negada.\u2019<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMeu cora\u00e7\u00e3o escutava, sem comprometer-se. No alto de um dos tr\u00eas rochedos de basalto, ao longo da praia, o pequeno farol cumpria o seu dever, mandando de instante a instante uma mensagem luminosa aos navegantes da noite.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cRepeti uma frase de Tillich:&nbsp;<\/em>O ser \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da noite primordial do nada<em>. E meu corpo quis saber como era essa noite. Expliquei que se trata de algo imposs\u00edvel de verbalizar.<\/em>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p>Era terap\u00eautico findar aqui, ningu\u00e9m nesta pandemia anda muito forte para encarar crises existencialistas. Mesmo as supersti\u00e7\u00f5es, botafoguenses ou n\u00e3o, devem ser canceladas nos moldes do que ocorre na internet. Por\u00e9m, estamos perante Erico Ver\u00edssimo, impens\u00e1vel dispensar companhia t\u00e3o erudita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cContinuei a caminhar pela beira do mar, pisando em conchas, algas e medusas. \u2018Mas quem ganha a batalha final \u00e9 o nada\u2019 \u2013 queixou-se o meu corpo. Sacudi a cabe\u00e7a negativamente. \u2018H\u00e1 um limite para essa vit\u00f3ria. Se sentimos o n\u00e3o ser como um vencedor, o ato de sentir pressup\u00f5e o ser!\u2019<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMas era melhor pensar em coisas positivas. Dentro de menos de dois meses Mafalda e eu ganhar\u00edamos nosso primeiro neto. Essa id\u00e9ia me encheu o peito duma doce alegria, espantando de minha cabe\u00e7a os pensamentos de morte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cUm caranguejo da areia, renda clara e m\u00f3vel na praia morena, passou na minha frente, rumo dos c\u00f4moros. Encaminhei-me para o autom\u00f3vel, sentei-me atr\u00e1s do volante e pus o motor em movimento. Meus p\u00e9s sentiram um corpo estranho perto do acelerador. Acendi a luz para ver do que se tratava. Eram as chinelas do defunto.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-normal-font-size\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/%C3%89rico_Ver%C3%ADssimo\">#Erico Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"#Solo de Clarineta\">#Solo de Clarineta<\/a><br><a href=\"#O Tempo e o Vento\">#O Tempo e o Vento<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Um_Certo_Capit%C3%A3o_Rodrigo\">#Capit\u00e3o Rodrigo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paul_Tillich\">#Paul Tilich <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">31\/08\/2021<br>(337) <br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do of\u00edcio do ator e do m\u00fasico, o trabalho do escritor se d\u00e1 em dois tempos: o momento da escrita, quando estamos sozinhos com nossos personagens, ideias e ang\u00fastias, e o momento em que as hist\u00f3rias chegam ao leitor e se completam, fechando um ciclo. &#8211; Raphael Montes &#8211; Foram in\u00fameras e justas as mat\u00e9rias difundidas na imprensa sobre o passamento do Tarc\u00edsio Meira, padecente de comorbidades que se aliaram \u00e0 Covid-19 para, enfim (\u00e9 o fim?), afast\u00e1-lo da Gloria Menezes. Em todas as pautas, sobressa\u00edram as refer\u00eancias \u00e0s performances do ator na pele de&nbsp;Um certo capit\u00e3o Rodrigo&nbsp;&#8211; Rodrigo Cambar\u00e1 e a parceira Bibiana (ela dizia: ser boazinha \u00e9 f\u00e1cil, quase todo mundo o \u00e9; dif\u00edcil \u00e9 ser m\u00e1), casal protagonista duma hist\u00f3ria encartada no&nbsp;O Tempo e o Vento&nbsp;mas que assumiu&nbsp;status&nbsp;de cria\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e independente. Pois bem. Como soltar o Erico Ver\u00edssimo deste&nbsp;blog, iniciadas as respectivas postagens em agosto de 2020? Sem nenhum talento para o palco, cofundei o&nbsp;Teatro Mapati&nbsp;no long\u00ednquo 1991, tendo convivido nesses trinta anos com centenas de artistas das artes c\u00eanicas, prova de que n\u00e3o se aprende por osmose a ser ator e atriz. N\u00e3o obstante, enceno despedida do pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo \u2013 largo na mesinha, lido, relido, ouvido e reouvido o&nbsp;Solo de Clarineta, primeiro volume de suas mem\u00f3rias. Transcorridos uns instantes, j\u00e1 sofrendo as dores da abstin\u00eancia, o canastr\u00e3o aqui negaceia, revoga sua decis\u00e3o e por consequ\u00eancia se deixa seduzir pela audi\u00eancia do volume 2 do&nbsp;Solo de Clarineta.&nbsp; \u201cCaminhando sozinho aquela noite pela praia deserta, fiz algumas reflex\u00f5es sobre a morte. Desde que completara cinquenta anos eu come\u00e7ara a pensar com mais frequ\u00eancia \u2013 mas n\u00e3o obsessivamente \u2013 na possibilidade de cessar de ser, dum segundo para outro. \u201cHavia menos de duas horas carregara nos bra\u00e7os um cad\u00e1ver&nbsp;(era de um vizinho do escritor ga\u00facho, enfarte fulminante). Aqueles p\u00e9s brancos e frios pareciam conter uma terr\u00edvel advert\u00eancia. \u201cParei diante do mar. As ondas rolavam para a praia, soltando um gemido que parecia vir amea\u00e7ador das profundezas, mas que acabava desfeito em suspiros de espumas sobre as areias. No c\u00e9u sem lua as estrelas cintilavam. O vento do largo me batia, morno, na cara.\u201d Nos monumentais tomos de&nbsp;O Tempo e o Vento&nbsp;(O Continente 1 e 2; O Retrato 1 e 2 e O Arquip\u00e9lago 1, 2 e 3), o t\u00edtulo da obra ficcional j\u00e1 indica, al\u00e9m do transcurso do tempo, o ar em movimento. Com efeito, pairando nos sete livros, uma locomotiva \u00e9pica a puxar seis vag\u00f5es, assinala-se&#8230; o vento. Sinistro. Pren\u00fancio de afli\u00e7\u00f5es, intemp\u00e9ries, desgra\u00e7as. De volta \u00e0s divaga\u00e7\u00f5es do Erico memorialista: \u201cSeguindo um h\u00e1bito que me vem da inf\u00e2ncia, comecei a conversar comigo mesmo em voz alta. Vieram-me \u00e0 mente trechos dum livro do te\u00f3logo existencialista Paul Tilich, que eu acabara de ler. Meu intelecto ent\u00e3o come\u00e7ou a doutrinar o corpo. \u2018\u00c9 necess\u00e1rio que te conven\u00e7as de que o n\u00e3o-ser \u00e9 parte do nosso pr\u00f3prio ser. O n\u00e3o-ser depende do ser que ele nega. Deste modo, meu amigo, o ser tem uma prioridade ontol\u00f3gica sobre o n\u00e3o-ser. N\u00e3o poderia haver nega\u00e7\u00e3o se n\u00e3o houvesse uma afirma\u00e7\u00e3o precedente a ser negada.\u2019 \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o escutava, sem comprometer-se. No alto de um dos tr\u00eas rochedos de basalto, ao longo da praia, o pequeno farol cumpria o seu dever, mandando de instante a instante uma mensagem luminosa aos navegantes da noite. \u201cRepeti uma frase de Tillich:&nbsp;O ser \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o da noite primordial do nada. E meu corpo quis saber como era essa noite. Expliquei que se trata de algo imposs\u00edvel de verbalizar.&#8220; Era terap\u00eautico findar aqui, ningu\u00e9m nesta pandemia anda muito forte para encarar crises existencialistas. Mesmo as supersti\u00e7\u00f5es, botafoguenses ou n\u00e3o, devem ser canceladas nos moldes do que ocorre na internet. Por\u00e9m, estamos perante Erico Ver\u00edssimo, impens\u00e1vel dispensar companhia t\u00e3o erudita. \u201cContinuei a caminhar pela beira do mar, pisando em conchas, algas e medusas. \u2018Mas quem ganha a batalha final \u00e9 o nada\u2019 \u2013 queixou-se o meu corpo. Sacudi a cabe\u00e7a negativamente. \u2018H\u00e1 um limite para essa vit\u00f3ria. Se sentimos o n\u00e3o ser como um vencedor, o ato de sentir pressup\u00f5e o ser!\u2019 \u201cMas era melhor pensar em coisas positivas. Dentro de menos de dois meses Mafalda e eu ganhar\u00edamos nosso primeiro neto. Essa id\u00e9ia me encheu o peito duma doce alegria, espantando de minha cabe\u00e7a os pensamentos de morte. \u201cUm caranguejo da areia, renda clara e m\u00f3vel na praia morena, passou na minha frente, rumo dos c\u00f4moros. Encaminhei-me para o autom\u00f3vel, sentei-me atr\u00e1s do volante e pus o motor em movimento. Meus p\u00e9s sentiram um corpo estranho perto do acelerador. Acendi a luz para ver do que se tratava. 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