{"id":15630,"date":"2021-09-19T15:19:07","date_gmt":"2021-09-19T18:19:07","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15630"},"modified":"2021-09-19T15:29:12","modified_gmt":"2021-09-19T18:29:12","slug":"prezado-amigo-afonsinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/prezado-amigo-afonsinho\/","title":{"rendered":"Prezado amigo Afonsinho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Sem termos acesso \u00e0 linguagem do passado, viveremos literalmente na inconsci\u00eancia. At\u00e9 acordarmos um dia e, como o personagem Winston, sentirmos apenas a mem\u00f3ria difusa e ancestral de que houve um tempo de liberdade em que as coisas eram diferentes.<\/em><br> <em>&#8211; Jo\u00e3o Pereira Coutinho &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p>V\u00eania pelo gilgilbertiano&nbsp;<em>prezado<\/em>, n\u00e3o conhe\u00e7o voc\u00ea pessoalmente, ainda por cima (ainda por baixo) sou vasca\u00edno, nunca fui \u00e0 rua Bariri, no bairro suburbano de Olaria, o mesmo nome do time, entre outros, cuja camisa voc\u00ea valorizou e honrou. \u00c9 fake afetar confian\u00e7as, Paquet\u00e1 \u00e9 ilha n\u00e3o visitada por este modesto blogueiro, carioca de nascen\u00e7a &#8211; evadido da Guanabara, candango transmutado no Planalto Central.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas minhas d\u00e9cadas de pseudoentendido em futebol, quando o assunto no bar (quase n\u00e3o bebo) girava em torno do rude esporte bret\u00e3o (h\u00e1 mais dois temas, n\u00e9?) l\u00e1 ia eu defender minha tese: chutar com o esquerdo e chutar com o direito milhares de jogadores o conseguem, \u00e0s vezes at\u00e9 com id\u00eantica pot\u00eancia e precis\u00e3o no chute. Quero ver \u00e9 conduzir a bola, jogar com os dois p\u00e9s. Nesse passo (sem trocadilho) a plateia de bebuns fez cara de paisagem, sem que qualquer um revelasse, admitisse n\u00e3o saber do que se tratava \u2013 quem frequenta p\u00e9 sujo se acha onisciente e infal\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogar com os dois p\u00e9s \u00e9 acacianamente um p\u00e9 emular o outro, o que o p\u00e9 direito faz o p\u00e9 esquerdo tamb\u00e9m faz, e vice-versa. Somente tr\u00eas jogadores no Brasil foram capazes de tal proeza, craca\u00e7os a seu tempo. Retroagindo: Ronaldo Fen\u00f4meno, Leandro e&#8230; Afonsinho. V\u00e9spera do jogo, plantel ainda no vesti\u00e1rio, pode perfeitamente o t\u00e9cnico chegar para qualquer dos tr\u00eas e dar o comando: jogue o primeiro tempo exclusivamente com o p\u00e9 esquerdo; no segundo tempo, utilize apenas o p\u00e9 direito. Pronto, nos primeiros quarenta e cinco minutos, o comandado faz tudo com a canhota, tudo mesmo, dribla, lan\u00e7a de trivela, chuta com o peito do p\u00e9, bate corner e faz gol de letra. No segundo tempo, tudo igualzinho, dessa feita se valendo apenas do p\u00e9 direito. E cada um dos pisantes termina sua empreitada muito bem, bola de ouro.<\/p>\n\n\n\n<p>Afonsinho, grande m\u00e9dico, nosso artista das quatro linhas que abomina desvarios inconstitucionais, lutou na Justi\u00e7a e conquistou o direito ao passe livre &#8211; verdadeira aboli\u00e7\u00e3o da escravatura imposta pelos clubes -, deveria em consequ\u00eancia ser permanentemente homenageado por todo o mundo do futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu gostaria de falar agora de alvinegro, de branco e preto, nada de Botafogo de Futebol e Regatas, sen\u00e3o que de linguagem, de desconstru\u00e7\u00e3o da linguagem..<\/p>\n\n\n\n<p>No seu artigo da \u00faltima Carta Capital, intitulado&nbsp;<em>Dicion\u00e1rio paraol\u00edmpico<\/em>, voc\u00ea evoca mat\u00e9ria jornal\u00edstica de Bruna Campos e de Gabi Lo aduzindo que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c(&#8230;) as duas entrevistaram destacados atletas brasileiros da Paralimp\u00edada e os colocaram para falar sobre o preconceito \u2018estrutural\u2019, que pode ser visto, inclusive, na linguagem que a m\u00eddia utiliza para se referir aos atletas com defici\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cE o resultado da reportagem \u00e9 espetacular. Todos os esportistas abordam o assunto com tranquilidade, embora com veem\u00eancia, e desmontam, pedra por pedra, o universo simb\u00f3lico da linguagem do preconceito. O movimento est\u00e1 em sintonia com todos os demais processos de desconstru\u00e7\u00e3o da linguagem, digam eles respeito ao machismo, ao racismo ou \u00e0 homofobia. Tem sentido, neste caso, a sabedoria popular que costuma dizer que \u2018a palavra tem for\u00e7a\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Contrito, d\u00e1 sequ\u00eancia ao seu articulado.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/338_daniel_dias_ouro_rio_2016.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15634\" width=\"519\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/338_daniel_dias_ouro_rio_2016.jpg 740w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/338_daniel_dias_ouro_rio_2016-300x273.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 519px) 100vw, 519px\" \/><figcaption>Daniel Dias \/ foto: agenciabrasil.ebc.com.br<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMuito incomodado com as express\u00f5es usadas para falar sobre as pessoas com defici\u00eancia \u2013 essa palavra ainda me incomoda \u2013, arrisquei, na semana que passou, recorrer ao termo \u201cespecial\u201d. Achei que fosse uma boa op\u00e7\u00e3o. Mas ca\u00ed do cavalo. Fui logo de cara derrubado pelo nadador Daniel Dias, o recordista de medalhas entre os atletas paral\u00edmpicos brasileiros. Daniel me ensinou, em sua fala, que essa \u00e9 uma palavra inadequada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cJ\u00e1 o judoca Ant\u00f4nio Ten\u00f3rio estabeleceu, na entrevista, a diferen\u00e7a entre doen\u00e7a e defici\u00eancia. Ten\u00f3rio tamb\u00e9m fez quest\u00e3o de ressaltar que n\u00e3o devemos usar, jamais, express\u00f5es como \u201c(fulano) sofre disso, padece daquilo\u201d. Ningu\u00e9m \u00e9 coitadinho, ele bem sabe. Sempre tive em conta que d\u00f3 \u2013 ou pena \u2013 \u00e9 um dos piores, se n\u00e3o o pior, sentimento que podemos carregar.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cBastante firme e enf\u00e1tica, Ra\u00edssa Machado, prata no lan\u00e7amento de dardo, abordou o uso de uma express\u00e3o comum, adotada na tentativa, talvez, de suavizar o tratamento \u201cpessoa portadora de defici\u00eancia\u201d. Ra\u00edssa entrou de sola. Ela disse que ningu\u00e9m porta uma defici\u00eancia. \u201cVoc\u00ea porta um objeto, uma coisa qualquer, a defici\u00eancia existe e n\u00e3o \u00e9 preciso esconder\u201d, ensinou, antes de arrematar com uma pergunta. \u2018O que vem antes? A defici\u00eancia ou a pessoa? A pessoa.\u2019<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cSua leitura pode ser estendida a outras express\u00f5es de natureza semelhante, como \u201cpessoas com necessidades especiais\u201d. \u00c9 tudo eufemismo. Os atletas paral\u00edmpicos adotam, pura e simplesmente, o termo \u2018pessoas com defici\u00eancia\u2019\u201d.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que o prezado colega Afonsinho (notem que fiquei menos enxerido, rebaixado de amigo para colega) namora linguagem politicamente incorreta sem o perceber. Assertivo e doutrinado, declara:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201c<strong>Claro&nbsp;<\/strong>e simples, como deve ser a vida<strong>.<\/strong>\u201d<\/em><strong><em><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E recalcitra:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201c<em>o nadador Phelipe Rodrigues ajudou a&nbsp;<strong>esclarecer<\/strong>&nbsp;o sentido da nova palavra \u2018capacista\u2019. O sentido que ela carrega, explica Rodrigues, n\u00e3o \u00e9 nada bom, uma vez que, indiretamente, passa a imagem de que as pessoas com defici\u00eancia s\u00e3o menos capazes. A brilhante Edenia Garcia, sua companheira de piscinas, arrematou: \u2018N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, vamos al\u00e9m. Eu tamb\u00e9m sou capacista em desconstru\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Negritei (racismo) as duas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9 ali, no \u201cClaro\u201d e no \u201cesclarecer\u201d que mora o pecado (in)volunt\u00e1rio. Afirmo isso porque apanhei, e muito, por haver usado express\u00f5es que, eu n\u00e3o avaliava, constitu\u00edam racismo, na medida em que fica mais compreens\u00edvel quando tudo se torna&nbsp;<strong>claro<\/strong>, quando tudo \u00e9&nbsp;<strong>esclarecido&nbsp;<\/strong>e se p\u00f5e termo \u00e0 escurid\u00e3o. Meu procedimento nunca foi doloso, a partir todavia desse ponto desconstru\u00ed, abandonei tais maneiras de referenciar e passei a me valer do termo&nbsp;<strong>elucidar<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tor\u00e7o para que voc\u00ea deixe uma c\u00f3pia desta postagem no seu criado-mudo. Ou melhor, na sua mesinha de cabeceira.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\" class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Afonso_Celso_Garcia_Reis\">#Afonsinho<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jogos_Paraol%C3%ADmpicos\">#Paralimp\u00edada<\/a><br><a href=\"https:\/\/aracajumagazine.com.br\/conteudo\/tema-livre\/controlando-certas-palavras-e-abolindo-outras-sera-possivel-refundar-a-natureza-humana\">#Jo\u00e3o Pereira Coutinho<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">19\/09\/2021<br>(338)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem termos acesso \u00e0 linguagem do passado, viveremos literalmente na inconsci\u00eancia. 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Nas minhas d\u00e9cadas de pseudoentendido em futebol, quando o assunto no bar (quase n\u00e3o bebo) girava em torno do rude esporte bret\u00e3o (h\u00e1 mais dois temas, n\u00e9?) l\u00e1 ia eu defender minha tese: chutar com o esquerdo e chutar com o direito milhares de jogadores o conseguem, \u00e0s vezes at\u00e9 com id\u00eantica pot\u00eancia e precis\u00e3o no chute. Quero ver \u00e9 conduzir a bola, jogar com os dois p\u00e9s. Nesse passo (sem trocadilho) a plateia de bebuns fez cara de paisagem, sem que qualquer um revelasse, admitisse n\u00e3o saber do que se tratava \u2013 quem frequenta p\u00e9 sujo se acha onisciente e infal\u00edvel. Jogar com os dois p\u00e9s \u00e9 acacianamente um p\u00e9 emular o outro, o que o p\u00e9 direito faz o p\u00e9 esquerdo tamb\u00e9m faz, e vice-versa. Somente tr\u00eas jogadores no Brasil foram capazes de tal proeza, craca\u00e7os a seu tempo. Retroagindo: Ronaldo Fen\u00f4meno, Leandro e&#8230; Afonsinho. 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O movimento est\u00e1 em sintonia com todos os demais processos de desconstru\u00e7\u00e3o da linguagem, digam eles respeito ao machismo, ao racismo ou \u00e0 homofobia. Tem sentido, neste caso, a sabedoria popular que costuma dizer que \u2018a palavra tem for\u00e7a\u201d. Contrito, d\u00e1 sequ\u00eancia ao seu articulado. \u201cMuito incomodado com as express\u00f5es usadas para falar sobre as pessoas com defici\u00eancia \u2013 essa palavra ainda me incomoda \u2013, arrisquei, na semana que passou, recorrer ao termo \u201cespecial\u201d. Achei que fosse uma boa op\u00e7\u00e3o. Mas ca\u00ed do cavalo. Fui logo de cara derrubado pelo nadador Daniel Dias, o recordista de medalhas entre os atletas paral\u00edmpicos brasileiros. Daniel me ensinou, em sua fala, que essa \u00e9 uma palavra inadequada. \u201cJ\u00e1 o judoca Ant\u00f4nio Ten\u00f3rio estabeleceu, na entrevista, a diferen\u00e7a entre doen\u00e7a e defici\u00eancia. 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Ou melhor, na sua mesinha de cabeceira. #Afonsinho#Paralimp\u00edada#Jo\u00e3o Pereira Coutinho 19\/09\/2021(338)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15633,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15630"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15637,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15630\/revisions\/15637"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}