{"id":15661,"date":"2021-11-28T20:43:31","date_gmt":"2021-11-28T23:43:31","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15661"},"modified":"2021-11-28T21:28:21","modified_gmt":"2021-11-29T00:28:21","slug":"memorias-memorialistas-lxxii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXII)"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>A mem\u00f3ria \u00e9 uma voz submersa, um jogo perverso entre lembran\u00e7a e esquecimento.<\/em><br> &#8211; O lugar mais sombrio, de Milton Hatoum \u2013 <\/p>\n\n\n\n<p>Reconfortante haver tomado as tr\u00eas doses da vacina \u2013 pedi m\u00fasica no Fant\u00e1stico, o que foi liminarmente indeferido, seja porque n\u00e3o encontraram nenhuma tatuagem no meu corpo, seja porque minha escolha sonora n\u00e3o provinha do mundo sertanejo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o aguentamos mais falar, ver, discutir, sofrer as intemp\u00e9ries da pandemia de Covid. Quando a gente achava que tudo estava \u201cnos conformes\u201d, l\u00e1 vem a televis\u00e3o difundir que alguns pa\u00edses europeus reingressaram na fase de isolamento e tome novas reportagens sobre a situa\u00e7\u00e3o de UTIs. Cad\u00ea o oxig\u00eanio?<\/p>\n\n\n\n<p>Se o tema voltou \u00e0 baila, cumpre tirar do prelo outra postagem para mais rever\u00eancias ao nosso Pedro Nava, motivo pelo qual o 4\u00ba tomo de suas mem\u00f3rias,&nbsp;<em>Beira-Mar<\/em>, resultar\u00e1 aberto. Eminencio Marcelo dos Santos Lib\u00e2nio, caroneando Zoroastro Viana Passos, que, consoante an\u00fancio anterior (340), deveria ser o personagem deste registro.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341__p043_1_00.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15667\" width=\"304\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341__p043_1_00.png 340w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341__p043_1_00-190x300.png 190w\" sizes=\"(max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><figcaption>Laennec listening to the chest of a patient Autor: Ernest Board A\u00f1o: 1910\n<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>\u201c(&#8230;) O professor de Cl\u00ednica Proped\u00eautica M\u00e9dica era tamb\u00e9m um mo\u00e7o. Tinha trinta e seis anos. Dava a impress\u00e3o de mais velho por sua fadiga e lentid\u00e3o nos menores gestos. Andava devagar, movia-se devagar, falava devagar, opinava devagar. Chamado a ver caso dif\u00edcil ouvia um por um, mantinha-se calado ou reticente, examinava lentamente o doente dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, se urgido por uma pergunta, recome\u00e7ava os exames com sua conhecida virtuosidade semiol\u00f3gica, demorava-se na escuta do pulm\u00e3o, eternizava-se na do cora\u00e7\u00e3o (ouvindo diretamente sem estetosc\u00f3pio e \u00e0s vezes sem toalha) aplicando sobre a pele seu ouvido dito&nbsp;<\/em>\u201cde navalha\u201d<em>.&nbsp;Perguntava pelos exames de laborat\u00f3rio, lia-os com aten\u00e7\u00e3o, recomendava repetir esse ou aquele na filial de Manguinhos, entrava na famosa&nbsp;<\/em>encruzilhada dos talvezes<em>, sugeria esperar o quadro ficar mais claro, voltava para sua cadeira e ali espichado alagava-se de caf\u00e9. Reanimava, tirava o avental e sa\u00eda no seu passo lento.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 ocioso ressaltar que o livro&nbsp;<em>Beira-Mar<\/em>&nbsp;fora lan\u00e7ado pela editora em 1978. O Nava nessas passagens circulava pelos anos de 1920. Hoje, mais de um s\u00e9culo transcorrido, tomado por um resfriado chatinho, voc\u00ea entra no consult\u00f3rio particular, ap\u00f3s hora e meia de espera, e o m\u00e9dico (ou a m\u00e9dica) mal levanta os olhos do&nbsp;<em>note<\/em>&nbsp;e d\u00e1 por iniciada a etapa de pedir dezenas e dezenas de exames, inclusive um tal de&nbsp;<em>pet scan<\/em>. Op\u00e7\u00e3o mais econ\u00f4mica e barata, continuemos com o v\u00eddeo do Dr. Lib\u00e2nio, que viria a ter um ilustre xar\u00e1 poucas d\u00e9cadas depois, Frei Betto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>\u201cEsse homem avaro de opini\u00f5es recebia as alheias sempre com argumenta\u00e7\u00e3o adversa ou num sil\u00eancio onde o sorriso triste era duma gelada ironia. \u00c9 preciso n\u00e3o ter pressa, dizia ele. A natureza nos mostra inevitavelmente do que se trata um dia ou outro. E o que n\u00e3o descobrimos, a aut\u00f3psia o desvenda \u2013 acrescentava com sua pitada de humor negro. O que temos \u00e9 de colher os sinais com paci\u00eancia e esperar. E isto ele fazia como ningu\u00e9m. Raramente tenho visto examinar um doente como ele. Ia \u00e0 exaust\u00e3o. Do paciente que quando era largado ca\u00eda semimorto sobre os travesseiros. Dele pr\u00f3prio que terminada sua inspec\u00e7\u00e3o, palpa\u00e7\u00e3o, ausculta \u2013 tinha de se arrastar para sua cadeira, inundar-se de caf\u00e9, at\u00e9 ter \u00e2nimo de levantar e sair. Fisicamente o Marcelo era magro, de meia altura, olhos muito grandes \u00e0 flor da face e tinha um nariz posto de lado como o dos boxeurs \u2013 o que inseria sempre um perfil no seu rosto olhado de frente \u2013 como acontece em certas figuras das fases finais de Picasso.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num apanhado das dificuldades do exerc\u00edcio da medicina naquela \u00e9poca, os trechos adiante permitem inferir o porqu\u00ea de haverem durado tanto tempo os m\u00e9dicos de fam\u00edlia. Se travestiam de cl\u00ednicos gerais, n\u00e3o raro imiscu\u00eddos em especialidades in\u00fameras para em bases seguras diagnosticar e tratar seus doentes, merc\u00ea de uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se sustentava em cifras apenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>\u201cQuando eu me iniciei no estudo da cl\u00ednica h\u00e1 cinq\u00fcenta e tr\u00eas anos, o aux\u00edlio do laborat\u00f3rio e dos raios X era incipiente de modo que nossa simiologia f\u00edsica tinha de ser levado&nbsp;<\/em>(sic)<em>&nbsp;\u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. T\u00ednhamos de aprender a conversar bem com o doente, a olh\u00e1-lo melhor, a palp\u00e1-lo, percuti-lo e auscult\u00e1-lo com um capricho que as gera\u00e7\u00f5es atuais desprezam ou ignoram. Marcelo Lib\u00e2nio preferia distribuir essa tarefa de ensino aos seus assistentes, dando uma ou outra aula pr\u00e1tica e raramente prele\u00e7\u00f5es de anfiteatro. Lembro duma destas. Impressionaram-me sua voz alta e gemente como a dum supliciado e seu esp\u00edrito de detalhe. A quantidade de mat\u00e9ria em salmigondis que o professor queria que met\u00eassemos cabe\u00e7a a dentro. Foi aula te\u00f3rica sobre a ausculta de pulm\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15665\" width=\"461\" height=\"461\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-300x300.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-150x150.jpg 150w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-768x768.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/341___AdobeStock_48306018_2-2048x2048.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><figcaption>homo vitruvianus, der vitruvianische Mensch mit Muskelanatomie<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>E, nestes sufocantes trechos que p\u00f5em termo a esta postagem, vai-se notar a import\u00e2ncia de o m\u00e9dico conhecer as rea\u00e7\u00f5es, os sintomas revelados pelo doente. Profissionais daqueles tempos duros era carentes de ultrassom, de resson\u00e2ncia, de tomografia computadorizada, por isso que, \u00e0 semelhan\u00e7a do animal que sabe da floresta, recorria o doutor ao expediente de auscultar de forma detida o padecente, a algaravia era tida como parceira do avaliador. O Nava, entretanto, se julgava incompetente para obter e amealhar todos os dados cl\u00ednicos emanados do paciente, inobstante ter ponderado, na l\u00edngua francesa como era de seu costume, que estrada coalhada de placas informativas mais confunde que orienta o viajor. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\"><em>\u201cRecordo seus ensinamentos sobre os ru\u00eddos da respira\u00e7\u00e3o normal, os aumentados ou diminu\u00eddos, as diferen\u00e7as notadas na crian\u00e7a, no adulto ou no velho. O valor da expira\u00e7\u00e3o prolongada, do sopro tub\u00e1rio, da respira\u00e7\u00e3o rude, do sopro cavernoso, da pectoril\u00f3quia da tosse. Do sinal da moeda. Quando o homem entrou nos estertores eu perdi o p\u00e9 completamente. Entendi erradamente que cada um tinha valor patognom\u00f4nico e duvidei que me fosse poss\u00edvel aprender a distinguir com minhas incultas orelhas tudo que foi mencionado. Era demais, era como nadar nos planisf\u00e9rios celestes catando estrelas. Como me achar? dentro daquela tempestade de estertores vibrantes, bolhosos, secos, de dura\u00e7\u00e3o curta, tonalidade vari\u00e1vel, dura\u00e7\u00e3o longa, regulares, irregulares, numerosos, raros; de finos, m\u00e9dios e largos br\u00f4nquios, da traqu\u00e9ia, do&nbsp;<\/em>(sic)<em>&nbsp;laringe, do \u00e1pice, da base, do l\u00f3bulo m\u00e9dio; secos, \u00famidos, sonoros, surdos, estridulosos, graves, agudos, sibilantes, rocantes, piantes, bolhosos, baixos, finos, muito finos, volumosos, crepitantes, de retorno, em tafet\u00e1, cavernulosos, estalidantes, gargarejantes, discretos, disseminados, localizados, constantes, inconstantes, sim\u00e9tricos, assim\u00e9tricos, ampulares, vesiculares, consonantes; de grossas, m\u00e9dias e finas bolhas; granulosos e mais outros misterios\u00edssimos \u2013 o estertor n\u00e3o classificado e o insonoro de Beau! Durante tempos apliquei-me em v\u00e3o para distinguir esses sons uns dos outros. Fiquei nessa confus\u00e3o at\u00e9 dia em que me caiu nas m\u00e3os um estudo de Mestre Clementino Fraga que foi verdadeiro&nbsp;<\/em>fiat luz<em>.&nbsp;Ele ensinava que era preciso aprender a distinguir o atrito pleural do estertor crepitante. Depois a diferen\u00e7ar os estertores secos \u2013 pios, sibilos e roncos. Isto feito colocar o resto dentro do grupo dos subcrepitantes desde o cirro traqueal aos que estralidam nos fin\u00edssimos br\u00f4nquios. Ali\u00e1s eram os \u00fanicos que eu distinguia. O resto era tapume.&nbsp;<\/em>Trop de poteaux indicateurs&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:19px\" class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pedro_Nava\">#Pedro Nava<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Beira-Mar_(livro)\">#Beira-Mar<\/a><br><a href=\"https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/noticias\/o-futuro-da-literatura-e-o-seu-passado-afirma-milton-hatoum\">#O lugar mais sombrio<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Milton_Hatoum\">#Milton Hatoum<\/a><br><a href=\"http:\/\/www.acadmedmg.org.br\/ocupante\/cadeira-50-patrono-marcelo-libanio\/\">#Marcelo dos Santos Lib\u00e2nio <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>28\/12\/2021<br>(341)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria \u00e9 uma voz submersa, um jogo perverso entre lembran\u00e7a e esquecimento. &#8211; O lugar mais sombrio, de Milton Hatoum \u2013 Reconfortante haver tomado as tr\u00eas doses da vacina \u2013 pedi m\u00fasica no Fant\u00e1stico, o que foi liminarmente indeferido, seja porque n\u00e3o encontraram nenhuma tatuagem no meu corpo, seja porque minha escolha sonora n\u00e3o provinha do mundo sertanejo. N\u00e3o aguentamos mais falar, ver, discutir, sofrer as intemp\u00e9ries da pandemia de Covid. Quando a gente achava que tudo estava \u201cnos conformes\u201d, l\u00e1 vem a televis\u00e3o difundir que alguns pa\u00edses europeus reingressaram na fase de isolamento e tome novas reportagens sobre a situa\u00e7\u00e3o de UTIs. Cad\u00ea o oxig\u00eanio? Se o tema voltou \u00e0 baila, cumpre tirar do prelo outra postagem para mais rever\u00eancias ao nosso Pedro Nava, motivo pelo qual o 4\u00ba tomo de suas mem\u00f3rias,&nbsp;Beira-Mar, resultar\u00e1 aberto. Eminencio Marcelo dos Santos Lib\u00e2nio, caroneando Zoroastro Viana Passos, que, consoante an\u00fancio anterior (340), deveria ser o personagem deste registro. \u201c(&#8230;) O professor de Cl\u00ednica Proped\u00eautica M\u00e9dica era tamb\u00e9m um mo\u00e7o. Tinha trinta e seis anos. Dava a impress\u00e3o de mais velho por sua fadiga e lentid\u00e3o nos menores gestos. Andava devagar, movia-se devagar, falava devagar, opinava devagar. Chamado a ver caso dif\u00edcil ouvia um por um, mantinha-se calado ou reticente, examinava lentamente o doente dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, se urgido por uma pergunta, recome\u00e7ava os exames com sua conhecida virtuosidade semiol\u00f3gica, demorava-se na escuta do pulm\u00e3o, eternizava-se na do cora\u00e7\u00e3o (ouvindo diretamente sem estetosc\u00f3pio e \u00e0s vezes sem toalha) aplicando sobre a pele seu ouvido dito&nbsp;\u201cde navalha\u201d.&nbsp;Perguntava pelos exames de laborat\u00f3rio, lia-os com aten\u00e7\u00e3o, recomendava repetir esse ou aquele na filial de Manguinhos, entrava na famosa&nbsp;encruzilhada dos talvezes, sugeria esperar o quadro ficar mais claro, voltava para sua cadeira e ali espichado alagava-se de caf\u00e9. Reanimava, tirava o avental e sa\u00eda no seu passo lento.\u201d N\u00e3o \u00e9 ocioso ressaltar que o livro&nbsp;Beira-Mar&nbsp;fora lan\u00e7ado pela editora em 1978. O Nava nessas passagens circulava pelos anos de 1920. Hoje, mais de um s\u00e9culo transcorrido, tomado por um resfriado chatinho, voc\u00ea entra no consult\u00f3rio particular, ap\u00f3s hora e meia de espera, e o m\u00e9dico (ou a m\u00e9dica) mal levanta os olhos do&nbsp;note&nbsp;e d\u00e1 por iniciada a etapa de pedir dezenas e dezenas de exames, inclusive um tal de&nbsp;pet scan. Op\u00e7\u00e3o mais econ\u00f4mica e barata, continuemos com o v\u00eddeo do Dr. Lib\u00e2nio, que viria a ter um ilustre xar\u00e1 poucas d\u00e9cadas depois, Frei Betto. \u201cEsse homem avaro de opini\u00f5es recebia as alheias sempre com argumenta\u00e7\u00e3o adversa ou num sil\u00eancio onde o sorriso triste era duma gelada ironia. \u00c9 preciso n\u00e3o ter pressa, dizia ele. A natureza nos mostra inevitavelmente do que se trata um dia ou outro. E o que n\u00e3o descobrimos, a aut\u00f3psia o desvenda \u2013 acrescentava com sua pitada de humor negro. O que temos \u00e9 de colher os sinais com paci\u00eancia e esperar. E isto ele fazia como ningu\u00e9m. Raramente tenho visto examinar um doente como ele. Ia \u00e0 exaust\u00e3o. Do paciente que quando era largado ca\u00eda semimorto sobre os travesseiros. Dele pr\u00f3prio que terminada sua inspec\u00e7\u00e3o, palpa\u00e7\u00e3o, ausculta \u2013 tinha de se arrastar para sua cadeira, inundar-se de caf\u00e9, at\u00e9 ter \u00e2nimo de levantar e sair. Fisicamente o Marcelo era magro, de meia altura, olhos muito grandes \u00e0 flor da face e tinha um nariz posto de lado como o dos boxeurs \u2013 o que inseria sempre um perfil no seu rosto olhado de frente \u2013 como acontece em certas figuras das fases finais de Picasso.\u201d &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num apanhado das dificuldades do exerc\u00edcio da medicina naquela \u00e9poca, os trechos adiante permitem inferir o porqu\u00ea de haverem durado tanto tempo os m\u00e9dicos de fam\u00edlia. Se travestiam de cl\u00ednicos gerais, n\u00e3o raro imiscu\u00eddos em especialidades in\u00fameras para em bases seguras diagnosticar e tratar seus doentes, merc\u00ea de uma rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se sustentava em cifras apenas. \u201cQuando eu me iniciei no estudo da cl\u00ednica h\u00e1 cinq\u00fcenta e tr\u00eas anos, o aux\u00edlio do laborat\u00f3rio e dos raios X era incipiente de modo que nossa simiologia f\u00edsica tinha de ser levado&nbsp;(sic)&nbsp;\u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. T\u00ednhamos de aprender a conversar bem com o doente, a olh\u00e1-lo melhor, a palp\u00e1-lo, percuti-lo e auscult\u00e1-lo com um capricho que as gera\u00e7\u00f5es atuais desprezam ou ignoram. Marcelo Lib\u00e2nio preferia distribuir essa tarefa de ensino aos seus assistentes, dando uma ou outra aula pr\u00e1tica e raramente prele\u00e7\u00f5es de anfiteatro. Lembro duma destas. Impressionaram-me sua voz alta e gemente como a dum supliciado e seu esp\u00edrito de detalhe. A quantidade de mat\u00e9ria em salmigondis que o professor queria que met\u00eassemos cabe\u00e7a a dentro. Foi aula te\u00f3rica sobre a ausculta de pulm\u00f5es.\u201d E, nestes sufocantes trechos que p\u00f5em termo a esta postagem, vai-se notar a import\u00e2ncia de o m\u00e9dico conhecer as rea\u00e7\u00f5es, os sintomas revelados pelo doente. Profissionais daqueles tempos duros era carentes de ultrassom, de resson\u00e2ncia, de tomografia computadorizada, por isso que, \u00e0 semelhan\u00e7a do animal que sabe da floresta, recorria o doutor ao expediente de auscultar de forma detida o padecente, a algaravia era tida como parceira do avaliador. O Nava, entretanto, se julgava incompetente para obter e amealhar todos os dados cl\u00ednicos emanados do paciente, inobstante ter ponderado, na l\u00edngua francesa como era de seu costume, que estrada coalhada de placas informativas mais confunde que orienta o viajor. \u201cRecordo seus ensinamentos sobre os ru\u00eddos da respira\u00e7\u00e3o normal, os aumentados ou diminu\u00eddos, as diferen\u00e7as notadas na crian\u00e7a, no adulto ou no velho. O valor da expira\u00e7\u00e3o prolongada, do sopro tub\u00e1rio, da respira\u00e7\u00e3o rude, do sopro cavernoso, da pectoril\u00f3quia da tosse. Do sinal da moeda. Quando o homem entrou nos estertores eu perdi o p\u00e9 completamente. Entendi erradamente que cada um tinha valor patognom\u00f4nico e duvidei que me fosse poss\u00edvel aprender a distinguir com minhas incultas orelhas tudo que foi mencionado. Era demais, era como nadar nos planisf\u00e9rios celestes catando estrelas. Como me achar? dentro daquela tempestade de estertores vibrantes, bolhosos, secos, de dura\u00e7\u00e3o curta, tonalidade vari\u00e1vel, dura\u00e7\u00e3o longa, regulares, irregulares, numerosos, raros; de finos, m\u00e9dios e largos br\u00f4nquios, da traqu\u00e9ia, do&nbsp;(sic)&nbsp;laringe, do \u00e1pice, da base, do l\u00f3bulo m\u00e9dio; secos, \u00famidos, sonoros, surdos, estridulosos, graves, agudos, sibilantes, rocantes, piantes, bolhosos, baixos, finos, muito finos, volumosos, crepitantes, de retorno, em tafet\u00e1, cavernulosos, estalidantes, gargarejantes, discretos, disseminados, localizados, constantes, inconstantes, sim\u00e9tricos, assim\u00e9tricos, ampulares, vesiculares, consonantes; de grossas, m\u00e9dias e finas bolhas; granulosos e mais outros misterios\u00edssimos \u2013 o estertor n\u00e3o classificado e o insonoro de Beau! Durante tempos apliquei-me em v\u00e3o para distinguir esses sons uns dos outros. Fiquei nessa confus\u00e3o at\u00e9 dia em que me caiu nas m\u00e3os um estudo de Mestre Clementino Fraga que foi verdadeiro&nbsp;fiat luz.&nbsp;Ele ensinava que era preciso aprender a distinguir o atrito pleural do estertor crepitante. Depois a diferen\u00e7ar os estertores secos \u2013 pios, sibilos e roncos. Isto feito colocar o resto dentro do grupo dos subcrepitantes desde o cirro traqueal aos que estralidam nos fin\u00edssimos br\u00f4nquios. Ali\u00e1s eram os \u00fanicos que eu distinguia. O resto era tapume.&nbsp;Trop de poteaux indicateurs&#8230;\u201d #Pedro Nava#Beira-Mar#O lugar mais sombrio#Milton Hatoum#Marcelo dos Santos Lib\u00e2nio 28\/12\/2021(341)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15666,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15661","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15661"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15670,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15661\/revisions\/15670"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}