{"id":15673,"date":"2021-12-29T20:15:00","date_gmt":"2021-12-29T23:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15673"},"modified":"2021-12-29T20:29:03","modified_gmt":"2021-12-29T23:29:03","slug":"memorias-memorialistas-lxxiii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxiii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXIII)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o covardes como algu\u00e9m maltratando um animal. Por nada, pelo prazer de v\u00ea-lo sofrer. E, principalmente, porque \u00e9 menor e mais fraco. S\u00e3o valent\u00f5es de araque que se borram diante de qualquer advers\u00e1rio \u00e0 sua altura.<\/em><br> &#8211; Nelson Motta &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p>No&nbsp;<em>Ataque dos C\u00e3es<\/em>, filme carregado de sutilezas, met\u00e1foras e candidato ao Oscar, h\u00e1 uma passagem, curt\u00edssima mas de causar desconforto &#8211; o protagonista, cowboy fora da padronagem, maltrata o cavalo dele, que se mostrava rebelde.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/342_ataque-dos-caes.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15677\" width=\"456\" height=\"682\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/342_ataque-dos-caes.jpg 482w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/342_ataque-dos-caes-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 456px) 100vw, 456px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ainda com essa tocante imagem na minha mente, tive como que uma surpresa. Na releitura das fenomenais mem\u00f3rias do Paulo Duarte (n\u00e3o se pode esquecer, um dos grandes respons\u00e1veis pela funda\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o de cultura do estado de S\u00e3o Paulo), reencontrei texto em que a cena mostrada na fita se apresenta riqu\u00edssima no&nbsp;<em>Selva Oscura,<\/em>&nbsp;volume III, desmembrada quase que num cap\u00edtulo inteiro do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Atentem para a narra\u00e7\u00e3o inicial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c(&#8230;)\u201dEm geral, o trabalho come\u00e7a de manh\u00e3zinha e segue pelo tempo que der, ainda que o dia inteiro. E a maneira de domar os animais chucros \u00e9 ou era completamente diferente num e noutro pa\u00eds. O amansador norte-americano objetiva transformar o cavalo num amigo de todos os dias, num companheiro, um colaborador do seu trabalho di\u00e1rio, ao passo que o&nbsp;<\/em>pe\u00e3o<em>&nbsp;brasileiro, o seu fim \u00e9 diferente, \u00e9 transformar o cavalo num escravo, do qual se exige tudo e muito pouco se lhe d\u00e1. O&nbsp;<\/em>cow-boy<em>&nbsp;norte americano alimenta bem o seu cavalo com carinho inclusive, ao passo que o brasileiro o tem como um instrumento de trabalho, mas um instrumento que se atira no pasto, depois de us\u00e1-lo com pouco ou sem o menor cuidado, como se fazia com os escravos antigamente.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cPelo menos assim era, em geral, nos meus tempos de menino ou de adolescente, porque a mania brasileira de arremedar \u00e9 como as muta\u00e7\u00f5es em gen\u00e9tica, raramente para melhorar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cIsso eu s\u00f3 aprendi muitos anos depois, \u00e0quele momento em que fui passar minhas f\u00e9rias na Franca, depois de uma aus\u00eancia de quatro anos, o rodeio que nos era anunciado continuava esse mesmo que eu sabia, j\u00e1 desde a nossa vida em Cristais.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos d\u00e1 ideia de quanto o Paulo Duarte, posicionado na condi\u00e7\u00e3o de escritor nos anos de 1970 por\u00e9m com os olhos voltados para os anos de 1920, repudiava o tratamento dom\u00e9stico infligido pelos pe\u00f5es brasileiros a animais da zona rural (paulista) h\u00e1 coisa de um s\u00e9culo. H\u00e1 de ver a descri\u00e7\u00e3o dos personagens, o que me fascina na literatura.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>(&#8230;) Ao lado de um grosso tronco estendido sob o telheiro fomos encontrar o tio Isaac em palestra com um caboclo magro, de barba falhada um tanto crescida, chupando vagarosamente um toco de cigarro de palha que apagou depois, guardando-o por detr\u00e1s de uma orelha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cEra um homem espigado, vestido com simplicidade e pobreza. Dependurado no pulso direito, um grosso rabo-de-tatu com que, \u00e0s vezes batia na perna, enquanto conversava. Estava descal\u00e7o. Afivelada ao calcanhar de um p\u00e9, uma espora de enorme roseta, que tilintava ao andar do dono. A cal\u00e7a enrolada na perna at\u00e9 um pouco abaixo do joelho, suja de lama e remendada em v\u00e1rios pontos era presa \u00e0 cintura por uma correia estreita, dela dependurada uma faca de cabo de chifre, enfiada numa bainha de couro amarelo. N\u00e3o vestia palet\u00f3. A camisa desbotada, aberta, deixava ver um peito ossudo de cor de folha seca, cheio de pelos. O cabelo um tanto encaracolado cobrindo parte das orelhas, cujo interior vomitava um punhado escuro de pelos, h\u00e1 muito n\u00e3o enxergava a sobra de uma tesoura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cEstivemos ali conversando durante algum tempo, at\u00e9 que os campeiros, abrindo a porteira, despejaram pelo curral a dentro um grupo de animais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Olha l\u00e1 o cavalinho, indicou com o dedo o tio Isaac, ali, aquele atr\u00e1s do cocho. E gritando a um dos camaradas:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Toca, Jo\u00e3o, toca pr\u00f4 curral do tronco, pr\u00e1 pegar; depressa, lerdo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>E dirigindo-se ao pe\u00e3o:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; \u00c9 bonito ou n\u00e3o!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Superior! Respondeu pausadamente o caboclo, com um meneio de cabe\u00e7a. Cheg\u00f4 m\u00eamo no ponto de leva espora. T\u00e1 ali que t\u00e1 pedino arreio na cacunda&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>Meio avermelhado, n\u00e3o de grande estatura e de formas redondas, p\u00ealo liso e brilhante, denunciando uma longa estadia em farta invernada, apresentava o cavalo um lindo aspecto de animal novo bem tratado, mais evidente ainda pelo andar elegante e majestoso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; V\u00e3o ajudar os homens, gritou-nos t\u2019Isaac, passando ele tamb\u00e9m para o outro curral na cola dos animais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>Os campeiros ajudados ou desajudados por n\u00f3s, apartaram o cavalo do resto da tropa, fazendo-o penetrar no estreito corredor do \u2018tronco\u2019.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O supl\u00edcio em todos os seus contornos ainda estava por vir. Curioso e sintom\u00e1tico \u00e9 que em nenhum momento o Paulo Duarte, no descrever o acontecimento, emprega anim\u00e1lia, possivelmente porque, se o fizesse, adotaria o termo em refer\u00eancia aos domadores. Entram novos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO Bernardino, o velho campeiro da fazenda, um mulato magro, de meia-idade, cheio de baz\u00f3fia, mais medroso do que uma menina rom\u00e2ntica, sempre a rir, mostrando as gengivas vermelhas e completamente nuas, correu por fora da cerca de t\u00e1buas com uma grossa trave nas m\u00e3os, que, ligeiro, atravessou-a entre o animal e dois esteios fronteiros, no sentido da largura do corredor, tapando-lhe a sa\u00edda e impedindo desse modo que o cavalo, impedido de virar pelo estreito da pris\u00e3o, retrogradasse um s\u00f3 passo. Ficava assim imobilizado, \u00e0 merc\u00ea do domador.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO Jer\u00f4nimo pe\u00e3o, deixando nesse momento o animal preso, veio at\u00e9 a parede do dep\u00f3sito que separava os dois currais e, tirando dentre um monte de arreios no ch\u00e3o, uma correia de couro cru tendo presa a um dos extremos da dobra costurada, uma forte argola de metal, voltou ao \u2018tronco\u2019 passou por baixo da cerca, frente a frente ao cavalo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Vanc\u00ea pode me ajuda a p\u00f4 o barbicacho no bicho? Interrogou ao Bernardino.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; \u00c9 pra j\u00e1, disse o mulato no seu riso vermelho e arreganhado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO cavalo, nervoso e assustado, escarvava o ch\u00e3o, sacudindo a cabe\u00e7a violentamente todas as vezes em que os dois homens tentavam adaptar nela um cabresto de couro tran\u00e7ado. Afinal, ap\u00f3s algumas baldadas tentativas, conseguiram vagarosamente, aproveitando alguns momentos r\u00e1pidos de atonia, vestir-lhe a cabe\u00e7a com a escravizante touca.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO animal tornou a reagir com arrebatamento, cabe\u00e7adas a torto e a direito, com fortes encontr\u00f5es nas vigas indiferentes do \u2018tronco\u2019, acabando afinal por conformar-se com o grosso cabresto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO Bernardino, ajudado por outro camarada e pelo Juca, puxou-o com toda a for\u00e7a para a frente, obrigando o cavalo, a madeira, apesar da rea\u00e7\u00e3o oposta pelo animal, resistindo com o pesco\u00e7o alongado, as pernas dianteiras esticadas e firmes ao solo, as ancas abaixadas, nas traseiras quase horizontais, p\u00e9s sumidos no ch\u00e3o, mostrando a disposi\u00e7\u00e3o de resistir ao manejo. O Jer\u00f4nimo, aproveitando uma oportunidade, passou a tira de couro cru por dentro da boca do animal e, ap\u00f3s com ela descerrar-lhe os compridos e largos dentes, volteou-a pelo maxilar inferior, firmou uma extremidade na outra por meio da argola, constituindo desse modo uma esp\u00e9cie de freio que abrangia grande parte da queixada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; O barbicacho t\u00e1 pronto! exclamou triunfante. Agora \u00e9 p\u00f4 o la\u00e7o mais a r\u00e9dea e depois quebr\u00e1 o bruto. \u00d3 menino, gritou a um dos moleques, tr\u00e1is a\u00ed dos arreios, a r\u00e9dea e o la\u00e7o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO moleque foi lesto e o pe\u00e3o tomando o par de grossas r\u00e9deas, passou com precau\u00e7\u00e3o pelo pesco\u00e7o do cavalo e, com uma pequena correia, amarrou-as por baixo do pesco\u00e7o, para evitar que as r\u00e9deas sa\u00edssem pela frente com os movimentos bruscos do animal antes de ser montado. E, tomando em seguida uma das pontas do comprido la\u00e7o, amarrou-a fortemente \u00e0 argola do barbicacho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAgora tira a prancha pr\u00e1 ele afast\u00e1, que eu quero mostra por onde a cutia d\u00e1 o assovio.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Paro aqui.<\/p>\n\n\n\n<p> Como estamos em dezembro, m\u00eas de 13\u00ba sal\u00e1rio, segue-se uma nova postagem, a religar o assunto. <\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\" class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paulo_Junqueira_Duarte\">#Paulo Duarte<\/a><br><a href=\"https:\/\/produto.mercadolivre.com.br\/MLB-800527019-memorias-vol-iii-selva-oscura-paulo-duarte-_JM\">#Selva Oscura<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Nelson_Motta\">#Nelson Motta<\/a><br><a href=\"https:\/\/observatoriodocinema.uol.com.br\/filmes\/2021\/12\/ataque-dos-caes-final-do-elogiado-filme-da-netflix-e-explicado\">#Ataque dos C\u00e3es<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">29\/12\/2021<br>(342)<br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas coisas s\u00e3o t\u00e3o covardes como algu\u00e9m maltratando um animal. Por nada, pelo prazer de v\u00ea-lo sofrer. E, principalmente, porque \u00e9 menor e mais fraco. S\u00e3o valent\u00f5es de araque que se borram diante de qualquer advers\u00e1rio \u00e0 sua altura. &#8211; Nelson Motta &#8211; No&nbsp;Ataque dos C\u00e3es, filme carregado de sutilezas, met\u00e1foras e candidato ao Oscar, h\u00e1 uma passagem, curt\u00edssima mas de causar desconforto &#8211; o protagonista, cowboy fora da padronagem, maltrata o cavalo dele, que se mostrava rebelde. Ainda com essa tocante imagem na minha mente, tive como que uma surpresa. Na releitura das fenomenais mem\u00f3rias do Paulo Duarte (n\u00e3o se pode esquecer, um dos grandes respons\u00e1veis pela funda\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o de cultura do estado de S\u00e3o Paulo), reencontrei texto em que a cena mostrada na fita se apresenta riqu\u00edssima no&nbsp;Selva Oscura,&nbsp;volume III, desmembrada quase que num cap\u00edtulo inteiro do livro. Atentem para a narra\u00e7\u00e3o inicial.&nbsp; \u201c(&#8230;)\u201dEm geral, o trabalho come\u00e7a de manh\u00e3zinha e segue pelo tempo que der, ainda que o dia inteiro. E a maneira de domar os animais chucros \u00e9 ou era completamente diferente num e noutro pa\u00eds. O amansador norte-americano objetiva transformar o cavalo num amigo de todos os dias, num companheiro, um colaborador do seu trabalho di\u00e1rio, ao passo que o&nbsp;pe\u00e3o&nbsp;brasileiro, o seu fim \u00e9 diferente, \u00e9 transformar o cavalo num escravo, do qual se exige tudo e muito pouco se lhe d\u00e1. O&nbsp;cow-boy&nbsp;norte americano alimenta bem o seu cavalo com carinho inclusive, ao passo que o brasileiro o tem como um instrumento de trabalho, mas um instrumento que se atira no pasto, depois de us\u00e1-lo com pouco ou sem o menor cuidado, como se fazia com os escravos antigamente. \u201cPelo menos assim era, em geral, nos meus tempos de menino ou de adolescente, porque a mania brasileira de arremedar \u00e9 como as muta\u00e7\u00f5es em gen\u00e9tica, raramente para melhorar. \u201cIsso eu s\u00f3 aprendi muitos anos depois, \u00e0quele momento em que fui passar minhas f\u00e9rias na Franca, depois de uma aus\u00eancia de quatro anos, o rodeio que nos era anunciado continuava esse mesmo que eu sabia, j\u00e1 desde a nossa vida em Cristais.\u201d A introdu\u00e7\u00e3o j\u00e1 nos d\u00e1 ideia de quanto o Paulo Duarte, posicionado na condi\u00e7\u00e3o de escritor nos anos de 1970 por\u00e9m com os olhos voltados para os anos de 1920, repudiava o tratamento dom\u00e9stico infligido pelos pe\u00f5es brasileiros a animais da zona rural (paulista) h\u00e1 coisa de um s\u00e9culo. H\u00e1 de ver a descri\u00e7\u00e3o dos personagens, o que me fascina na literatura.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (&#8230;) Ao lado de um grosso tronco estendido sob o telheiro fomos encontrar o tio Isaac em palestra com um caboclo magro, de barba falhada um tanto crescida, chupando vagarosamente um toco de cigarro de palha que apagou depois, guardando-o por detr\u00e1s de uma orelha. \u201cEra um homem espigado, vestido com simplicidade e pobreza. Dependurado no pulso direito, um grosso rabo-de-tatu com que, \u00e0s vezes batia na perna, enquanto conversava. Estava descal\u00e7o. Afivelada ao calcanhar de um p\u00e9, uma espora de enorme roseta, que tilintava ao andar do dono. A cal\u00e7a enrolada na perna at\u00e9 um pouco abaixo do joelho, suja de lama e remendada em v\u00e1rios pontos era presa \u00e0 cintura por uma correia estreita, dela dependurada uma faca de cabo de chifre, enfiada numa bainha de couro amarelo. N\u00e3o vestia palet\u00f3. A camisa desbotada, aberta, deixava ver um peito ossudo de cor de folha seca, cheio de pelos. O cabelo um tanto encaracolado cobrindo parte das orelhas, cujo interior vomitava um punhado escuro de pelos, h\u00e1 muito n\u00e3o enxergava a sobra de uma tesoura. \u201cEstivemos ali conversando durante algum tempo, at\u00e9 que os campeiros, abrindo a porteira, despejaram pelo curral a dentro um grupo de animais. &#8211; Olha l\u00e1 o cavalinho, indicou com o dedo o tio Isaac, ali, aquele atr\u00e1s do cocho. E gritando a um dos camaradas: &#8211; Toca, Jo\u00e3o, toca pr\u00f4 curral do tronco, pr\u00e1 pegar; depressa, lerdo. E dirigindo-se ao pe\u00e3o: &#8211; \u00c9 bonito ou n\u00e3o! &#8211; Superior! Respondeu pausadamente o caboclo, com um meneio de cabe\u00e7a. Cheg\u00f4 m\u00eamo no ponto de leva espora. T\u00e1 ali que t\u00e1 pedino arreio na cacunda&#8230; Meio avermelhado, n\u00e3o de grande estatura e de formas redondas, p\u00ealo liso e brilhante, denunciando uma longa estadia em farta invernada, apresentava o cavalo um lindo aspecto de animal novo bem tratado, mais evidente ainda pelo andar elegante e majestoso. &#8211; V\u00e3o ajudar os homens, gritou-nos t\u2019Isaac, passando ele tamb\u00e9m para o outro curral na cola dos animais. Os campeiros ajudados ou desajudados por n\u00f3s, apartaram o cavalo do resto da tropa, fazendo-o penetrar no estreito corredor do \u2018tronco\u2019.\u201d O supl\u00edcio em todos os seus contornos ainda estava por vir. Curioso e sintom\u00e1tico \u00e9 que em nenhum momento o Paulo Duarte, no descrever o acontecimento, emprega anim\u00e1lia, possivelmente porque, se o fizesse, adotaria o termo em refer\u00eancia aos domadores. Entram novos participantes. \u201cO Bernardino, o velho campeiro da fazenda, um mulato magro, de meia-idade, cheio de baz\u00f3fia, mais medroso do que uma menina rom\u00e2ntica, sempre a rir, mostrando as gengivas vermelhas e completamente nuas, correu por fora da cerca de t\u00e1buas com uma grossa trave nas m\u00e3os, que, ligeiro, atravessou-a entre o animal e dois esteios fronteiros, no sentido da largura do corredor, tapando-lhe a sa\u00edda e impedindo desse modo que o cavalo, impedido de virar pelo estreito da pris\u00e3o, retrogradasse um s\u00f3 passo. Ficava assim imobilizado, \u00e0 merc\u00ea do domador. \u201cO Jer\u00f4nimo pe\u00e3o, deixando nesse momento o animal preso, veio at\u00e9 a parede do dep\u00f3sito que separava os dois currais e, tirando dentre um monte de arreios no ch\u00e3o, uma correia de couro cru tendo presa a um dos extremos da dobra costurada, uma forte argola de metal, voltou ao \u2018tronco\u2019 passou por baixo da cerca, frente a frente ao cavalo. &#8211; Vanc\u00ea pode me ajuda a p\u00f4 o barbicacho no bicho? Interrogou ao Bernardino. &#8211; \u00c9 pra j\u00e1, disse o mulato no seu riso vermelho e arreganhado. \u201cO cavalo, nervoso e assustado, escarvava o ch\u00e3o, sacudindo a cabe\u00e7a violentamente todas as vezes em que os dois homens tentavam adaptar nela um cabresto de couro tran\u00e7ado. Afinal, ap\u00f3s algumas baldadas tentativas, conseguiram vagarosamente, aproveitando alguns momentos r\u00e1pidos de atonia, vestir-lhe a cabe\u00e7a com a escravizante touca. \u201cO animal tornou a reagir com arrebatamento, cabe\u00e7adas a torto e a direito, com fortes encontr\u00f5es nas vigas indiferentes do \u2018tronco\u2019, acabando afinal por conformar-se com o grosso cabresto. \u201cO Bernardino, ajudado por outro camarada e pelo Juca, puxou-o com toda a for\u00e7a para a frente, obrigando o cavalo, a madeira, apesar da rea\u00e7\u00e3o oposta pelo animal, resistindo com o pesco\u00e7o alongado, as pernas dianteiras esticadas e firmes ao solo, as ancas abaixadas, nas traseiras quase horizontais, p\u00e9s sumidos no ch\u00e3o, mostrando a disposi\u00e7\u00e3o de resistir ao manejo. O Jer\u00f4nimo, aproveitando uma oportunidade, passou a tira de couro cru por dentro da boca do animal e, ap\u00f3s com ela descerrar-lhe os compridos e largos dentes, volteou-a pelo maxilar inferior, firmou uma extremidade na outra por meio da argola, constituindo desse modo uma esp\u00e9cie de freio que abrangia grande parte da queixada. &#8211; O barbicacho t\u00e1 pronto! exclamou triunfante. Agora \u00e9 p\u00f4 o la\u00e7o mais a r\u00e9dea e depois quebr\u00e1 o bruto. \u00d3 menino, gritou a um dos moleques, tr\u00e1is a\u00ed dos arreios, a r\u00e9dea e o la\u00e7o. \u201cO moleque foi lesto e o pe\u00e3o tomando o par de grossas r\u00e9deas, passou com precau\u00e7\u00e3o pelo pesco\u00e7o do cavalo e, com uma pequena correia, amarrou-as por baixo do pesco\u00e7o, para evitar que as r\u00e9deas sa\u00edssem pela frente com os movimentos bruscos do animal antes de ser montado. E, tomando em seguida uma das pontas do comprido la\u00e7o, amarrou-a fortemente \u00e0 argola do barbicacho. \u201cAgora tira a prancha pr\u00e1 ele afast\u00e1, que eu quero mostra por onde a cutia d\u00e1 o assovio.\u201d Paro aqui. Como estamos em dezembro, m\u00eas de 13\u00ba sal\u00e1rio, segue-se uma nova postagem, a religar o assunto. #Paulo Duarte#Selva Oscura#Nelson Motta#Ataque dos C\u00e3es 29\/12\/2021(342) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15678,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15673"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15702,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15673\/revisions\/15702"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15678"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}