{"id":15680,"date":"2021-12-29T20:17:00","date_gmt":"2021-12-29T23:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15680"},"modified":"2021-12-30T11:19:14","modified_gmt":"2021-12-30T14:19:14","slug":"memorias-memorialistas-lxxiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxiv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXIV)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>O dito popular \u201cquanto mais conhe\u00e7o os humanos mais gosto dos animais\u201d expressa o desencanto com o ser humano, os animais n\u00e3o melhoraram, sempre foram \u00f3timos, somos n\u00f3s que estamos piorando. A ofensa de \u201canimal\u201d n\u00e3o cabe mais, tantas as animalidades feitas pelos racionais. H\u00e1 toda uma nova cultura de respeito \u00e0 natureza e aos bichos e ao que eles ensinam, que cresce, vende, d\u00e1 e tira votos.<\/em><br> &#8211; Nelson Motta &#8211; <\/p>\n\n\n\n<p>Quem superou a agonia descrita na postagem imediatamente anterior est\u00e1 mais preparado(a) para enfrentar o que estampado adiante.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c(&#8230;) O Juca puxou a trave que fechava o \u2018tronco\u2019 e o animal, sentindo espa\u00e7o livre atr\u00e1s, p\u00f4s-se a retroceder seguido pelo amansador, que passou, r\u00e1pido, por baixo da cerca e, firme na outra ponta do la\u00e7o, o seguia com aten\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cQuando o cavalo, saindo do funil formado pela entrada do tronco, se viu no curral largo, desembestou numa carreira furiosa, acompanhado, por\u00e9m, do pe\u00e3o, sempre seguro \u00e0 extremidade do la\u00e7o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\"><em>\u201cAp\u00f3s correr assim alguns passos, o Jer\u00f4nimo estacou de repente e, dando a jeito, com o cabo j\u00e1 esticado, um s\u00fabito repel\u00e3o para tr\u00e1s, obrigou o animal, com o choque, a executar um movimento girat\u00f3rio que quase o tombou.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com as posturas de hoje mais ligadas \u00e0 suaviza\u00e7\u00e3o no trato com os bichos, dom\u00e9sticos ou n\u00e3o, adensa-se a revolta contra aquilo que era tido por natural e at\u00e9 necess\u00e1rio: objetivando comodidades do ser humano e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ilimitada, dobrar, subjugar os animais atrav\u00e9s n\u00e3o raro de m\u00e9todos violentos e impiedosos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cEsta opera\u00e7\u00e3o, a que chamou \u2018quebrar\u2019, foi feita por diversas vezes com o fim de amolecer o queixo e o cavalo n\u00e3o ficar \u2018desbocado\u2019.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\"><em>&#8211; Agora \u00e9 chega no t\u00f4co, falou o pe\u00e3o, cansado de tanto quebrar o cavalo. Unindo a palavra \u00e0 a\u00e7\u00e3o, guiou com o la\u00e7o o potro at\u00e9 o meio da arena, onde havia um grosso esteio solidamente enterrado no solo. Firmando-se ent\u00e3o com o p\u00e9 ao toco, o pe\u00e3o deu nele uma volta brusca com o la\u00e7o. Um dos campeiros, nesse momento, espantou o cavalo para mais perto do esteio, opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 esperada pelo caboclo, o qual puxou a corda que correu pelo esteio como uma roldana, encurtando-a dessa forma para o lado do cavalo e encompridando-a para o lado do domador.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cDepois da repeti\u00e7\u00e3o do manejo por mais duas vezes, achava-se o animal com a argola do barbicacho e o focinho encostados ao esteio que resistia estalando aos fortes empux\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO Jer\u00f4nimo aproximou-se do poste, sempre com o bra\u00e7o firme ao la\u00e7o esticado, amarrou-o o mais forte poss\u00edvel dando ainda uma volta \u00e0 argola do barbicacho e ao poste, para maior seguran\u00e7a.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO cavalo, ao debater-se furiosamente, gemia de dor e com todo o corpo a tremer, enquanto pela boca semi-aberta deslizava, vagaroso, um fio de baba sangrenta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cJer\u00f4nimo, agora, j\u00e1 com as m\u00e3os livres, deu-lhe um formid\u00e1vel sopapo, ao passo que berrava triunfante:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; A\u00ed diabo! comigo \u00e9 nove! Quero v\u00ea agora cont\u00e1 prosa!&#8230; Eh! s\u00f4 Bernardino, tr\u00e1is<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>o arreio c\u00e1 pra perto, pr\u00e1 m\u00f3de vesti o bicho!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cBernardino arrastou, de uma s\u00f3 vez, os arreios que foram atirados para perto de Jer\u00f4nimo. O ru\u00eddo fez o cavalo assustar-se e promover outra s\u00e9rie de furiosos pinotes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Fica quieto, danado! Gritou o caboclo aplicando-lhe uma chicotada no focinho, provocando novo debater com f\u00faria e desespero.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cQuando o animal se acalmou outra vez, devagar, com jeito, p\u00f4s-lhe sobre os olhos um peda\u00e7o de pano a fim de o impedir ver as manobras que se seguiriam. Tomou duas grossas mantas de aniagem, luzentes de suor de cavalo e colocou-as lentamente sobre o dorso do pangar\u00e9. Este, que continuava a tremer com intensidade, encolheu-se todo, mas sem recome\u00e7ar os pulos. Com as mesmas precau\u00e7\u00f5es, sobre a manta foram assentados o baixeiro e a velha carona. Quando por\u00e9m, em cima desta \u00faltima, procurava colocar o lombilho leve e pr\u00f3prio ao amanso dos animais chucros&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tomo f\u00f4lego e com prazer registro que nosso her\u00f3i n\u00e3o se intimidaria f\u00e1cil, partindo para a devida rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c&#8230; o cavalo, como revoltado por mais essa ignom\u00ednia, p\u00f4s-se de novo aos pinotes, raivoso, levantando uma nuvem de poeira colorida pelo alegre sol da clara manh\u00e3.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cTudo o que sobre o lombo da montaria houvera sido posto, foi arremessado para os lados com impetuosidade e pisados pelas patas fren\u00e9ticas. O esteio, verdadeiro pelourinho do supl\u00edcio, estralejava amiudadas vezes, rangia, aiava mas n\u00e3o cedia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cTodos estes movimentos de revolta contra o ultraje \u00e0 liberdade, tinham por seguimento uma chuva de estrepitantes lategadas sobre o dorso tr\u00eamulo da v\u00edtima, acompanhada por uma onda de pragas. Regime ditatorial. E, pertinaz, obstinado, teimoso, recome\u00e7ou o pe\u00e3o, com a fleugma da certeza da vit\u00f3ria estampada no rosto tenso, todo o trabalho. Cuidadoso, com uma diplomacia de armadilha, foi repondo tudo outra vez sobre o dorso do animal, nervoso e encolhido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/343_cavalo-1024x908.jpg\" alt=\"foto: Lum3n PEXELS\n\" class=\"wp-image-15683\" width=\"672\" height=\"594\" \/><figcaption>foto: Lum3n PEXELS<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cMais feliz desta vez, sobre a cavalgadura viu logo assentados, suadouro, baixeiro, carona, lombilho. Somente faltava apertar a barrigueira, a algema do supl\u00edcio. Essa que era port\u00e1til, foi passada por cima dos arreios, ficando as pontas a baloi\u00e7ar, uma de cada lado. Com minuciosas precau\u00e7\u00f5es, Jer\u00f4nimo, esticando o bra\u00e7o por debaixo da barriga do animal, tomando a ponta do lado contr\u00e1rio, enfiou-a pela fivela da outra extremidade e num brusco pux\u00e3o, apertou-a fortemente num ranger de couro espremido. O cavalo deu dois impetuosos saltos e depois, num prolongado gemido, tombou pesadamente ao ch\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Eh! Diabo, pula agora! Chasqueou o Bernardino pondo-lhe \u00e0s ancas um caut\u00e9rio de a\u00e7oites, a fim de faz\u00ea-lo reerguer. Era imposs\u00edvel. O focinho preso rente ao poste, impedia qualquer movimento nesse sentido.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Espera, que eu j\u00e1 te arrumo, disse o caboclo. S\u00f4 Bernardino, me ajude desachoch\u00e1 um pouco o la\u00e7o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO campeiro foi bambeando pouco a pouco o la\u00e7o, enquanto o Jer\u00f4nimo insens\u00edvel, chicoteava o poldro que, cruciado, num esbravejar desesperado, conseguiu p\u00f4r-se de p\u00e9, enquanto o \u201cBernardino, acompanhando todos os movimentos, apertava novamente o la\u00e7o h\u00e1 pouco relaxado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Cuidado, s\u00f4 Bernardino! N\u00e3o vai lace\u00e1 mais, n\u00e3o! Berrou o pe\u00e3o, pulando para um lado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 perigo, berrou o outro, sempre com o riso rasgado de vermelho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Agora, vai o resto do enfeite, gracejou o pe\u00e3o, tomando o rabicho das m\u00e3os do companheiro. E, enquanto falava, ia puxando com o bra\u00e7o estendido a cauda do animal, para a al\u00e7a do rabicho, at\u00e9 em cima, afivelando depois a ponta da nova pe\u00e7a em uma pequena argola, na parte posterior do lombilho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Cad\u00ea o peitor\u00e1?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Pronto, s\u00f4 Jeromo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cE o Bernardino p\u00f4s o peitoral nas m\u00e3os do caboclo que o passou pela parte inferior do pesco\u00e7o do cavalo, prendendo-o pelas extremidades numa fivela, abra\u00e7ando o lombilho por tr\u00e1s do santo-ant\u00f4nio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Falta alguma coisa? Perguntou o Bernardino, vendo o domador lan\u00e7ar uma olhadela para os lados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Falta amunt\u00e1!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>&#8211; Arreda pessoal, gritou o Bernardino. E, dirigindo-se a um dos moleques: Antonio! arreia o Pica-pau pr\u00e1 mode servi de madrinha.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cEncarapitamo-nos ent\u00e3o sobre as t\u00e1buas da cerca para melhor ver o que ia desenrolar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO pe\u00e3o, tendo soltado o cavalo do poste, quebrou-o ainda por v\u00e1rias vezes, ap\u00f3s um escoicear impetuoso do animal que se acalmou, como entregue.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:14px\" class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cEnfim, ajudado pelo Bernardino e outros camaradas, todos bem seguros no la\u00e7o, se foi aproximando devagarinho do animal que, de olhos esbugalhados, um tanto atordoado, j\u00e1 n\u00e3o reagia com o ardor de h\u00e1 minutos.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 quase acabando. Todavia, para um desfecho mais ilustrativo da hist\u00f3ria, determinante \u00e9 trabalhar na moviola. \u00c0 terceira e \u00faltima postagem.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\" class=\"has-text-align-center\"> <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/cultura\/bibliotecas\/bibliotecas_bairro\/bibliotecas_m_z\/pauloduarte\/index.php?p=193\">#Paulo Duarte<\/a><br><a href=\"https:\/\/produto.mercadolivre.com.br\/MLB-800527019-memorias-vol-iii-selva-oscura-paulo-duarte-_JM\">#Selva oscura<\/a><br><a href=\"https:\/\/twitter.com\/siganelsonmotta?ref_src=twsrc%5Egoogle%7Ctwcamp%5Eserp%7Ctwgr%5Eauthor\">#Nelson Motta <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">29\/12\/2021<br>(343)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dito popular \u201cquanto mais conhe\u00e7o os humanos mais gosto dos animais\u201d expressa o desencanto com o ser humano, os animais n\u00e3o melhoraram, sempre foram \u00f3timos, somos n\u00f3s que estamos piorando. 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H\u00e1 toda uma nova cultura de respeito \u00e0 natureza e aos bichos e ao que eles ensinam, que cresce, vende, d\u00e1 e tira votos. &#8211; Nelson Motta &#8211; Quem superou a agonia descrita na postagem imediatamente anterior est\u00e1 mais preparado(a) para enfrentar o que estampado adiante. \u201c(&#8230;) O Juca puxou a trave que fechava o \u2018tronco\u2019 e o animal, sentindo espa\u00e7o livre atr\u00e1s, p\u00f4s-se a retroceder seguido pelo amansador, que passou, r\u00e1pido, por baixo da cerca e, firme na outra ponta do la\u00e7o, o seguia com aten\u00e7\u00e3o. \u201cQuando o cavalo, saindo do funil formado pela entrada do tronco, se viu no curral largo, desembestou numa carreira furiosa, acompanhado, por\u00e9m, do pe\u00e3o, sempre seguro \u00e0 extremidade do la\u00e7o. \u201cAp\u00f3s correr assim alguns passos, o Jer\u00f4nimo estacou de repente e, dando a jeito, com o cabo j\u00e1 esticado, um s\u00fabito repel\u00e3o para tr\u00e1s, obrigou o animal, com o choque, a executar um movimento girat\u00f3rio que quase o tombou.\u201d Com as posturas de hoje mais ligadas \u00e0 suaviza\u00e7\u00e3o no trato com os bichos, dom\u00e9sticos ou n\u00e3o, adensa-se a revolta contra aquilo que era tido por natural e at\u00e9 necess\u00e1rio: objetivando comodidades do ser humano e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ilimitada, dobrar, subjugar os animais atrav\u00e9s n\u00e3o raro de m\u00e9todos violentos e impiedosos. \u201cEsta opera\u00e7\u00e3o, a que chamou \u2018quebrar\u2019, foi feita por diversas vezes com o fim de amolecer o queixo e o cavalo n\u00e3o ficar \u2018desbocado\u2019. &#8211; Agora \u00e9 chega no t\u00f4co, falou o pe\u00e3o, cansado de tanto quebrar o cavalo. 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Um dos campeiros, nesse momento, espantou o cavalo para mais perto do esteio, opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 esperada pelo caboclo, o qual puxou a corda que correu pelo esteio como uma roldana, encurtando-a dessa forma para o lado do cavalo e encompridando-a para o lado do domador.\u201d \u201cDepois da repeti\u00e7\u00e3o do manejo por mais duas vezes, achava-se o animal com a argola do barbicacho e o focinho encostados ao esteio que resistia estalando aos fortes empux\u00f5es. \u201cO Jer\u00f4nimo aproximou-se do poste, sempre com o bra\u00e7o firme ao la\u00e7o esticado, amarrou-o o mais forte poss\u00edvel dando ainda uma volta \u00e0 argola do barbicacho e ao poste, para maior seguran\u00e7a. \u201cO cavalo, ao debater-se furiosamente, gemia de dor e com todo o corpo a tremer, enquanto pela boca semi-aberta deslizava, vagaroso, um fio de baba sangrenta. \u201cJer\u00f4nimo, agora, j\u00e1 com as m\u00e3os livres, deu-lhe um formid\u00e1vel sopapo, ao passo que berrava triunfante: &#8211; A\u00ed diabo! comigo \u00e9 nove! Quero v\u00ea agora cont\u00e1 prosa!&#8230; Eh! s\u00f4 Bernardino, tr\u00e1is o arreio c\u00e1 pra perto, pr\u00e1 m\u00f3de vesti o bicho! \u201cBernardino arrastou, de uma s\u00f3 vez, os arreios que foram atirados para perto de Jer\u00f4nimo. O ru\u00eddo fez o cavalo assustar-se e promover outra s\u00e9rie de furiosos pinotes. &#8211; Fica quieto, danado! Gritou o caboclo aplicando-lhe uma chicotada no focinho, provocando novo debater com f\u00faria e desespero. \u201cQuando o animal se acalmou outra vez, devagar, com jeito, p\u00f4s-lhe sobre os olhos um peda\u00e7o de pano a fim de o impedir ver as manobras que se seguiriam. Tomou duas grossas mantas de aniagem, luzentes de suor de cavalo e colocou-as lentamente sobre o dorso do pangar\u00e9. Este, que continuava a tremer com intensidade, encolheu-se todo, mas sem recome\u00e7ar os pulos. Com as mesmas precau\u00e7\u00f5es, sobre a manta foram assentados o baixeiro e a velha carona. 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E, pertinaz, obstinado, teimoso, recome\u00e7ou o pe\u00e3o, com a fleugma da certeza da vit\u00f3ria estampada no rosto tenso, todo o trabalho. Cuidadoso, com uma diplomacia de armadilha, foi repondo tudo outra vez sobre o dorso do animal, nervoso e encolhido. \u201cMais feliz desta vez, sobre a cavalgadura viu logo assentados, suadouro, baixeiro, carona, lombilho. Somente faltava apertar a barrigueira, a algema do supl\u00edcio. Essa que era port\u00e1til, foi passada por cima dos arreios, ficando as pontas a baloi\u00e7ar, uma de cada lado. Com minuciosas precau\u00e7\u00f5es, Jer\u00f4nimo, esticando o bra\u00e7o por debaixo da barriga do animal, tomando a ponta do lado contr\u00e1rio, enfiou-a pela fivela da outra extremidade e num brusco pux\u00e3o, apertou-a fortemente num ranger de couro espremido. O cavalo deu dois impetuosos saltos e depois, num prolongado gemido, tombou pesadamente ao ch\u00e3o. &#8211; Eh! Diabo, pula agora! Chasqueou o Bernardino pondo-lhe \u00e0s ancas um caut\u00e9rio de a\u00e7oites, a fim de faz\u00ea-lo reerguer. Era imposs\u00edvel. O focinho preso rente ao poste, impedia qualquer movimento nesse sentido. &#8211; Espera, que eu j\u00e1 te arrumo, disse o caboclo. S\u00f4 Bernardino, me ajude desachoch\u00e1 um pouco o la\u00e7o. \u201cO campeiro foi bambeando pouco a pouco o la\u00e7o, enquanto o Jer\u00f4nimo insens\u00edvel, chicoteava o poldro que, cruciado, num esbravejar desesperado, conseguiu p\u00f4r-se de p\u00e9, enquanto o \u201cBernardino, acompanhando todos os movimentos, apertava novamente o la\u00e7o h\u00e1 pouco relaxado. &#8211; Cuidado, s\u00f4 Bernardino! N\u00e3o vai lace\u00e1 mais, n\u00e3o! Berrou o pe\u00e3o, pulando para um lado. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 perigo, berrou o outro, sempre com o riso rasgado de vermelho. &#8211; Agora, vai o resto do enfeite, gracejou o pe\u00e3o, tomando o rabicho das m\u00e3os do companheiro. E, enquanto falava, ia puxando com o bra\u00e7o estendido a cauda do animal, para a al\u00e7a do rabicho, at\u00e9 em cima, afivelando depois a ponta da nova pe\u00e7a em uma pequena argola, na parte posterior do lombilho. &#8211; Cad\u00ea o peitor\u00e1? &#8211; Pronto, s\u00f4 Jeromo. \u201cE o Bernardino p\u00f4s o peitoral nas m\u00e3os do caboclo que o passou pela parte inferior do pesco\u00e7o do cavalo, prendendo-o pelas extremidades numa fivela, abra\u00e7ando o lombilho por tr\u00e1s do santo-ant\u00f4nio. &#8211; Falta alguma coisa? Perguntou o Bernardino, vendo o domador lan\u00e7ar uma olhadela para os lados. &#8211; Falta amunt\u00e1! &#8211; Arreda pessoal, gritou o Bernardino. E, dirigindo-se a um dos moleques: Antonio! arreia o Pica-pau pr\u00e1 mode servi de madrinha.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEncarapitamo-nos ent\u00e3o sobre as t\u00e1buas da cerca para melhor ver o que ia desenrolar. \u201cO pe\u00e3o, tendo soltado o cavalo do poste, quebrou-o ainda por v\u00e1rias vezes, ap\u00f3s um escoicear impetuoso do animal que se acalmou, como entregue. \u201cEnfim, ajudado pelo Bernardino e outros camaradas, todos bem seguros no la\u00e7o, se foi aproximando devagarinho do animal que, de olhos esbugalhados, um tanto atordoado, j\u00e1 n\u00e3o reagia com o ardor de h\u00e1 minutos.\u201d A hist\u00f3ria est\u00e1 quase acabando. Todavia, para um desfecho mais ilustrativo da hist\u00f3ria, determinante \u00e9 trabalhar na moviola. \u00c0 terceira e \u00faltima postagem. #Paulo Duarte#Selva oscura#Nelson Motta 29\/12\/2021(343)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15684,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15680","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15680"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15703,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15680\/revisions\/15703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15684"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}