{"id":15723,"date":"2022-01-31T18:53:00","date_gmt":"2022-01-31T21:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15723"},"modified":"2022-02-02T19:02:11","modified_gmt":"2022-02-02T22:02:11","slug":"nina-mala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/nina-mala\/","title":{"rendered":"Ni\u00f1a mala"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>(\u2026) ainda \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s entender que nem toda forma de esquecimento \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o, nem toda forma de recupera\u00e7\u00e3o do passado \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o reflexiva que permitiria o redimensionamento da a\u00e7\u00e3o e de suas causas. H\u00e1 um esquecimento que \u00e9 a for\u00e7a de desfazer o acontecido, que \u00e9 confian\u00e7a no que vir\u00e1<\/em>.<br>\u2013&nbsp;Vladimir&nbsp;Safatle&nbsp;\u2013&nbsp;<em>.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">Entra ano, sai ano e a Covid n\u00e3o cede, surge e ressurge sob as mais diversas formas. Laborat\u00f3rios e institutos de ci\u00eancia internacionais s\u00e3o verdadeiros cart\u00f3rios onde se batizam essas vari\u00e2ncias mediante emprego do alfabeto grego \u2013 nossas A, B, C, e D escaparam, restritas a permanecer em derredor da cidade de S\u00e3o Paulo, vizinhas por assim dizer complicadas, uma vez que expandem e agravam o caos urbano.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">Entra d\u00e9cada, sai d\u00e9cada e o pessoal da Su\u00e9cia n\u00e3o cede, a academia continua ignorando solenemente o Brasil na escolha do Pr\u00eamio Nobel. Admita-se que F\u00edsica, Qu\u00edmica, Medicina e, v\u00e1 l\u00e1, Economia consistem em ramos nos quais ainda estar\u00edamos verdes, na acep\u00e7\u00e3o n\u00e3o ecol\u00f3gica e n\u00e3o partid\u00e1ria. Mas candidatos(as) ao da Paz temos muita gente boa e n\u00e3o poucas entidades merecedoras da distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15714\" width=\"271\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel-300x300.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel-150x150.jpg 150w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel-768x768.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/345_nobel.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 271px) 100vw, 271px\" \/><figcaption>https:\/\/danvizi.wordpress.com\/2017\/03\/21\/o-que-saber-sobre-o-premio-nobel-de-literatura\/<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">Da Literatura, nem se fala. Cad\u00ea justificativa para, no \u00e2mbito da Am\u00e9rica do Sul, n\u00e3o terem sido contemplados os brasileiros Guimar\u00e3es Rosa, Drummond, Pedro Nava, \u00c9rico Ver\u00edssimo e a ucraniana brasileira Clarice Lispector, que se posicionam \u00e0 altura da nobelizada\u00a0Gabriela Mistral (Chile) e dos colegas de pr\u00eamio Miguel \u00c1ngel Asturias (Guatemala), Pablo Neruda (Chile), Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Col\u00f4mbia) e Mario Vargas Llosa (Peru).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">Picoto a lista e salvo o \u00faltimo nominado para destacar uma das fascinantes obras desse artista imerso nas letras sem jamais abandonar a pol\u00edtica.\u00a0 Me refiro ao\u00a0Travessuras da Menina M\u00e1, livro no qual o festejado escritor peruano faz um apanhado da Am\u00e9rica Latina e suas lutas libertadoras entremostradas pela via da disseca\u00e7\u00e3o de um relacionamento amoroso. Cr\u00edticos liter\u00e1rios apontam que o namoro err\u00e1tico do personagem principal, o tradutor\/int\u00e9rprete Ricardo Somocurcio, com a\u00a0Ni\u00f1a mala\u00a0metaforiza processo que eles denominam de transcultura\u00e7\u00e3o. Nenhum dos sucessivos parceiros conjugais da Menina m\u00e1 \u2013 falsa chilena; peruana \u2013 era latino-americano, distribu\u00edam-se pelas nacionalidades inglesa, francesa e japonesa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">Desconsiderarei os demais aspectos da obra, me circunscrevendo ao caso amoroso da dupla de protagonistas. E na empreitada sublinharei os rompimentos, digamos, conjugais deflagrados pela Ni\u00f1a mala, que, mesmo previs\u00edveis, reiterados, surpreendiam o companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color has-text-align-left wp-block-paragraph\">A primeira separa\u00e7\u00e3o \u2013 se bem que n\u00e3o provocada pela Menina m\u00e1, \u00e0 \u00e9poca travestida de camarada Arlette, a militante despachada para &nbsp;treinamento em Cuba:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cO curso durava poucos meses. Desde o primeiro momento, ela precisava mostrar uma incapacidade total para a vida guerrilheira, simulando desmaios e coisa e tal. Enquanto isso, eu, aqui em Paris, encontraria trabalho, alugaria um apartamentinho, ficaria \u00e0 sua espera\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- J\u00e1 sei, voc\u00ea vai chorar, morrer de saudades, pensar em mim dia e noite \u2013 interrompeu com um gesto impaciente, os olhos duros, a voz g\u00e9lida. Bem, j\u00e1 vi que n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda. A gente se v\u00ea em tr\u00eas meses, Ricardito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cPassei v\u00e1rios dias como uma alma penada, me recriminando dia e noite por n\u00e3o ter tido coragem suficiente para dizer \u00e0 camarada Arlette que apesar da proibi\u00e7\u00e3o de Pa\u00fal, ficasse comigo em Paris, em vez de aconselh\u00e1-la a prosseguir naquela aventura que s\u00f3 Deus sabe como terminaria.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Estava apenas come\u00e7ando o supl\u00edcio do tradutor Ricardo pela chilena (que era peruana) na primeira etapa da saga mergulhada na clandestinidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(\u2026) tentei imaginar a chilenita transformada em namorada do comandante Chac\u00f3n, vestida de guerrilheira, de pistola na cintura, boina azul e botas, conversando com Fidel e Ra\u00fal Castro nas grandes passeatas e manifesta\u00e7\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o, fazendo trabalho volunt\u00e1rio nos fins de semana e dando duro nos canaviais com suas m\u00e3ozinhas de dedos delicados pelejando para segurar o fac\u00e3o, e talvez com aquela facilidade para a metamorfose fon\u00e9tica que eu j\u00e1 conhecia, falando com a musicalidade demorada e sensual dos caribenhos. Na verdade, eu n\u00e3o conseguia imagin\u00e1-la no seu novo papel: sua figurinha escorria entre os meus dedos como se fosse l\u00edquida. Teria se apaixonado pelo tal comandante? Ou ele era apenas um instrumento para participar mais tarde da guerra revolucion\u00e1ria no Peru?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">O leitor e a leitora da obra poderiam razoavelmente supor que nosso her\u00f3i destrinchador das letras estrangeiras acomodava-se no seu abandono j\u00e1 de meses e meses malgrado o enrosco com outra mulher, a espanhola Carmencita (houve outras). Mas as trapa\u00e7as da sorte aprontaram naquele pr\u00e9dio da Unesco, em Paris.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Puxa, puxa, como este mundo \u00e9 pequeno \u2013 disse, aproximando-se e oferecendo a bochecha. O que faz por aqui, bom menino?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Trabalho aqui, como tradutor \u2013 consegui balbuciar, totalmente desconcertado pela surpresa, e muito consciente do aroma de ess\u00eancia de lavanda que me entrou pelo nariz ao beij\u00e1-la. Era ela, mas foi necess\u00e1rio um grande esfor\u00e7o para reconhecer, naquela cara t\u00e3o bem maquiada, naqueles l\u00e1bios vermelhos, naquelas sobrancelhas depiladas, naquelas pestanas sedosas e curvas que sombreavam os olhos travessos que o l\u00e1pis negro havia alongado e aprofundado, e naquelas m\u00e3os de unhas compridas que pareciam rec\u00e9m-sa\u00eddas da manicure a camarada Arlette.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Como voc\u00ea est\u00e1 mudada \u2013 disse eu, examinando-a de cima a baixo. \u2013 Faz uns tr\u00eas anos, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Mudei para melhor ou para pior? \u2013 perguntou, totalmente dona de si mesma, dando uma meia-volta de modelo, no mesmo lugar, com as m\u00e3os na cintura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Para melhor \u2013 reconheci, ainda sem me recuperar do choque. \u2013 Na verdade, est\u00e1 bel\u00edssima. Imagino que n\u00e3o posso mais cham\u00e1-la de Lily, a chilenita, nem de camarada Arlette, a guerrilheira. Como diabos se chama agora?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cEla riu, mostrando-me a alian\u00e7a de ouro na m\u00e3o direita:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Agora, uso o nome do meu marido, como se faz na Fran\u00e7a:&nbsp;<\/em>madame<em>&nbsp;Robert Arnoux.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">E os dois, Ricardo e Arlette, continuaram amantes. Se danasse o esposo, o tal do monsieur Robert, que no entanto, tempos depois, desabafou com o tradutor Ricardo, rival n\u00e3o sabido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o sabe \u2013 murmurou, secamente. \u2013 Ou est\u00e1 fazendo uma gracinha?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cDesconcertado, eu n\u00e3o tinha o que responder.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Toda a Unesco j\u00e1 sabe \u2013 acrescentou baixinho, com ironia. \u2013 Sou o buf\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Minha mulher foi embora, e eu nem sei com quem. Pensei que fosse com voc\u00ea, senhor Somocurcio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cA voz se cortou antes de terminar de dizer o meu sobrenome. Seu queixo estava tremendo e achei que os dentes batiam (\u2026).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cA surpresa e o desgosto que me assaltaram foram t\u00e3o grandes que senti n\u00e1useas no elevador e, no banheiro do corredor, vomitei. Com quem ela estava? Continuaria morando em Paris com o amante? Um pensamento me acompanhou nos dias seguintes: aquele fim de semana que ela me deu de presente fora uma despedida(\u2026).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cGra\u00e7as \u00e0 rotina do trabalho da Unesco, fui saindo pouco a pouco da crise em que o desaparecimento da ex-chilenita, ex-guerriheira, ex-madame Arnoux me deixara. Como se chamaria agora? Que personalidade, que nome, que hist\u00f3ria havia adotado nessa nova etapa de sua vida. (\u2026) Ela me avisara claramente naquela \u00faltima manh\u00e3. \u2018Eu s\u00f3 ficaria para sempre com um homem que fosse muito rico e poderoso.\u2019 Com toda certeza, dessa vez eu n\u00e3o a veria nunca mais. Voc\u00ea precisa se levantar e esquecer essa peruanita de mil caras, pensar que ela n\u00e3o passou de um pesadelo, bom menino.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Quatro anos voaram e o imponder\u00e1vel ponderavelmente se apresentou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(\u2026) assim que entramos na suntuosa mans\u00e3o do&nbsp;<\/em>signor<em>&nbsp;Ariosti, senti que minha garganta ficava seca de repente e do\u00edam as unhas das m\u00e3os e dos p\u00e9s. L\u00e1 estava ela, a menos de dez metros, sentada no bra\u00e7o de um sof\u00e1 com uma ta\u00e7a na m\u00e3o. Olhou para mim como se nunca me tivesse visto na vida. Antes que eu pudesse lhe dirigir a palavra ou me aproximar para beijar seu rosto, estendeu uma m\u00e3o desinteressada e me cumprimentou em ingl\u00eas como um perfeito estrangeiro: \u2018<\/em>How do you do?\u2019<em>. E, sem me dar tempo de responder, virou as costas e mergulhou de novo no bate-papo com as pessoas que estavam \u00e0 sua volta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(\u2026) N\u00e3o havia mudado muito naqueles quatro anos. Tinha o mesmo porte esbelto, bem formado, com cintura estreita, pernas magrinhas mas bem torneadas e tornozelos finos e quebradi\u00e7os de boneca. Parecia mais segura de si mesma e mais desembara\u00e7ada que antes, e balan\u00e7ava a cabe\u00e7a ao final de cada frase com uma displic\u00eancia estudada (\u2026). Divisei uma alian\u00e7a no anular de sua m\u00e3o esquerda, \u00e0 maneira protestante. Teria se convertido na religi\u00e3o anglicana tamb\u00e9m?&nbsp;<\/em>Mr<em>&nbsp;Richardson, a quem Juan me apresentou na sala cont\u00edgua, era um sessent\u00e3o exuberante, com uma camisa amarelo-el\u00e9trico e um len\u00e7o da mesma cor que se derramava sobre seu elegant\u00edssimo terno azul. \u00c9brio e euf\u00f3rico, contava piadas sobre suas aventuras no Jap\u00e3o que divertiam muito o c\u00edrculo de convidados que o rodeava (\u2026). Juan me contou que ele era um homem muito rico e passava parte do ano fazendo neg\u00f3cios na \u00c1sia, mas que o centro de sua vida era a paix\u00e3o aristocr\u00e1tica por excel\u00eancia: os cavalos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c(\u2026) Apesar dos meus esfor\u00e7os, n\u00e3o consegui trocar uma palavra com Mrs. Richardison no decorrer daquela longa noite. Cada vez que, mantendo as apar\u00eancias, eu me aproximava dela, imediatamente se afastava com o pretexto de cumprimentar algu\u00e9m, ir ao buf\u00ea ou ao bar, ou ent\u00e3o come\u00e7ava a cochichar com uma amiga.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">A agonia continuava, passam-se mais alguns anos, a Menina m\u00e1 liga nesse interregno para o Ricardo, o antigo amante ainda na sua Paris incoopt\u00e1vel, mas nem cogita de encontr\u00e1-lo, desalentando nosso protagonista, j\u00e1 ent\u00e3o envolvido num di\u00e1logo com colega seu nestes termos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201cEst\u00e1vamos tomando cerveja num bistr\u00f4 da&nbsp;<\/em>avenue<em>&nbsp;Sufren depois de um dia de trabalho na Unesco (\u2026). Eu, num impulso confidencial, acabava de lhe contar, sem detalhes nem nomes, que estava apaixonado havia muitos anos por uma mulher que aparecia e desaparecia da minha vida como um fogo-f\u00e1tuo, incendiando-a de felicidade durante curtos per\u00edodos e depois deixando-a seca, est\u00e9ril, vacinada contra qualquer outro entusiasmo ou amor.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>\u201c- Pois se apaixonar \u00e9 um erro -sentenciou Salom\u00f3n Toledano (\u2026). A mulher tem de ser apanhada pelo cabelo, dominada e jogada no colch\u00e3o. Precisa ver todas as estrelas do firmamento num piscar de olhos. Esta \u00e9 a teoria correta. Eu n\u00e3o posso pratic\u00e1-la, por causa da minha fraqueza f\u00edsica,&nbsp;<\/em>h\u00e9la<em>s. Uma vez tentei bancar o mach\u00e3o com uma f\u00eamea brava e ela me amassou a cara com um bofet\u00e3o. Por isso, apesar da minha tese eu trato as damas, principalmente as rameiras, como verdadeiras rainhas.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">At\u00e9 aqui, a Menina m\u00e1 j\u00e1 houvera despejado o franc\u00eas (\u2026..), o ingl\u00eas do haras j\u00e1 se encontrava na rampa do pirata (acabou de ser lan\u00e7ado ao mar) e a vol\u00favel se inseria na vida de misterioso japon\u00eas, personagem que bem poderia haver sa\u00eddo dum filme de James Bond, integrante da turma dos grandes bandidos antagonistas do espi\u00e3o a servi\u00e7o de Sua Majestade. E em Tokyo, depois de alguns telefonemas trocados, a Menina m\u00e1, apelidada pelas novas amizades orientais de Kuriko, vai ao encontro do tradutor ainda, e para sempre, apaixonado, tendo de ouvir dela que n\u00e3o tinha amor pelo Fukuda (o nome do Dr. No), sen\u00e3o que uma doen\u00e7a, um v\u00edcio, possu\u00edda demoniacamente por aquele neomarido que lhe houvera confessado que dormia com diferentes mulheres . Aguardemos mais incurs\u00f5es da Ni\u00f1a mala. Vai come\u00e7ar tudo de novo\u00a0<em>(\u201cN\u00f3s \u00edamos conversar, mais uma vez eu me renderia ao poder que ela sempre teve sobre mim, viver\u00edamos um breve e falso id\u00edlio, eu criaria todo tipo de ilus\u00f5es e, na hora menos esperada, ela ia desaparecer e eu, machucado e zonzo, ficaria lambendo minhas feridas\u2026\u201d)<\/em>,\u00a0o que nos obriga a saltar dezenas de p\u00e1ginas e nos aproximar do final do livro, um pecado porque iremos abdicar da literatura do Mario Vargas Llosa, tendo contudo o benef\u00edcio de n\u00e3o mais deparar com trechos interpostos por este blogueiro presun\u00e7oso.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">N\u00e3o sem antes anotar que, diversamente dos bicudos dados pela Menina m\u00e1 em seus maridos e consoante aventado por um dos personagens amigos do Ricardo tradutor, o Japa a dispensara<em>\u00a0\u201cdepois que foi presa pela pol\u00edcia de Lagos, numa de suas viagens \u00e0 \u00c1frica para ajud\u00e1-lo nos seus tr\u00e1ficos. E que a estupraram. Que pegou chato e um cancro. E que, depois, num hospital de \u00faltima categoria, quase acabam com ela. Pode ser verdade. Pode ser mentira. N\u00e3o sei. Diz que Fukuda a largou por medo de que a Interpol a tivesse fichado e os negros, lhe transmitido Aids\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Da\u00ed me ocorrer a frase empregada pelo grande ator brasileiro Fl\u00e1vio Migliaccio antes de suicidar-se: \u201cDaqui para frente, s\u00f3 piora.\u201d Do ataque \u00e0 pr\u00f3pria vida, provocado por mais uma separa\u00e7\u00e3o da Arlette, o Ricardito, cinquent\u00e3o, salvou-se merc\u00ea da atitude firme de um mendigo que o impedira de se jogar de uma ponte parisiense. Desde ent\u00e3o, os dois vieram a se casar formalmente para livr\u00e1-la de complica\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, certo que depois disso, ainda com a sa\u00fade fr\u00e1gil, ela se foi mais uma vez dizendo que n\u00e3o iria pedir nada do que tinha direito pela condi\u00e7\u00e3o de ex-mulher. No seu \u00faltimo e derradeiro retorno, foi morrer ap\u00f3s transcorridos trinta e sete dias,\u00a0\u201cdurante os quais se comportou como uma esposa modelo. Pelo menos, enquanto as dores terr\u00edveis n\u00e3o a mantinham na cama, sedada com morfina\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#0023a2\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Finaliza-se a hist\u00f3ria com as palavras da enferma outrora evadida:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(\u2026) &nbsp;voc\u00ea sempre quis ser escritor, e nunca teve coragem. Agora que vai ficar sozinho, pode aproveitar, assim esquece a saudade. Pelo menos, confesse que lhe dei um bom material para escrever um romance. N\u00e3o foi, bom menino?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\" class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/na01.safelinks.protection.outlook.com\/?url=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Fcolunas%2Fvladimirsafatle%2F&amp;data=04%7C01%7C%7Ce658a4243cda440c19a008d9e689ad58%7C84df9e7fe9f640afb435aaaaaaaaaaaa%7C1%7C0%7C637794301266827189%7CUnknown%7CTWFpbGZsb3d8eyJWIjoiMC4wLjAwMDAiLCJQIjoiV2luMzIiLCJBTiI6Ik1haWwiLCJXVCI6Mn0%3D%7C3000&amp;sdata=NaAF5w%2FTmTlWipvMJHtKavRYjByxrDsPh94WBSmemQY%3D&amp;reserved=0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">#Vladimir&nbsp;Safatle<br><\/a><a href=\"https:\/\/na01.safelinks.protection.outlook.com\/?url=https%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FTravessuras_da_Menina_M%25C3%25A1&amp;data=04%7C01%7C%7Ce658a4243cda440c19a008d9e689ad58%7C84df9e7fe9f640afb435aaaaaaaaaaaa%7C1%7C0%7C637794301266983410%7CUnknown%7CTWFpbGZsb3d8eyJWIjoiMC4wLjAwMDAiLCJQIjoiV2luMzIiLCJBTiI6Ik1haWwiLCJXVCI6Mn0%3D%7C3000&amp;sdata=1Atft11v3b9iTX0RpTOZMaBbnvn3Iwl2TIkDZnYz690%3D&amp;reserved=0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">#Travessuras da menina m\u00e1<\/a><br><a href=\"https:\/\/na01.safelinks.protection.outlook.com\/?url=https%3A%2F%2Fpt.wikipedia.org%2Fwiki%2FMario_Vargas_Llosa&amp;data=04%7C01%7C%7Ce658a4243cda440c19a008d9e689ad58%7C84df9e7fe9f640afb435aaaaaaaaaaaa%7C1%7C0%7C637794301266983410%7CUnknown%7CTWFpbGZsb3d8eyJWIjoiMC4wLjAwMDAiLCJQIjoiV2luMzIiLCJBTiI6Ik1haWwiLCJXVCI6Mn0%3D%7C3000&amp;sdata=xLOJOuhNnyVeAHbHZw7EQFHW3vCpVKWNluCtrH5e5Ws%3D&amp;reserved=0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">#Mario Vargas Llosa<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">31\/01\/2022<br>(345)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(\u2026) ainda \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s entender que nem toda forma de esquecimento \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o, nem toda forma de recupera\u00e7\u00e3o do passado \u00e9 uma apropria\u00e7\u00e3o reflexiva que permitiria o redimensionamento da a\u00e7\u00e3o e de suas causas. H\u00e1 um esquecimento que \u00e9 a for\u00e7a de desfazer o acontecido, que \u00e9 confian\u00e7a no que vir\u00e1.\u2013&nbsp;Vladimir&nbsp;Safatle&nbsp;\u2013&nbsp;.&nbsp; Entra ano, sai ano e a Covid n\u00e3o cede, surge e ressurge sob as mais diversas formas. Laborat\u00f3rios e institutos de ci\u00eancia internacionais s\u00e3o verdadeiros cart\u00f3rios onde se batizam essas vari\u00e2ncias mediante emprego do alfabeto grego \u2013 nossas A, B, C, e D escaparam, restritas a permanecer em derredor da cidade de S\u00e3o Paulo, vizinhas por assim dizer complicadas, uma vez que expandem e agravam o caos urbano. Entra d\u00e9cada, sai d\u00e9cada e o pessoal da Su\u00e9cia n\u00e3o cede, a academia continua ignorando solenemente o Brasil na escolha do Pr\u00eamio Nobel. Admita-se que F\u00edsica, Qu\u00edmica, Medicina e, v\u00e1 l\u00e1, Economia consistem em ramos nos quais ainda estar\u00edamos verdes, na acep\u00e7\u00e3o n\u00e3o ecol\u00f3gica e n\u00e3o partid\u00e1ria. Mas candidatos(as) ao da Paz temos muita gente boa e n\u00e3o poucas entidades merecedoras da distin\u00e7\u00e3o. Da Literatura, nem se fala. Cad\u00ea justificativa para, no \u00e2mbito da Am\u00e9rica do Sul, n\u00e3o terem sido contemplados os brasileiros Guimar\u00e3es Rosa, Drummond, Pedro Nava, \u00c9rico Ver\u00edssimo e a ucraniana brasileira Clarice Lispector, que se posicionam \u00e0 altura da nobelizada\u00a0Gabriela Mistral (Chile) e dos colegas de pr\u00eamio Miguel \u00c1ngel Asturias (Guatemala), Pablo Neruda (Chile), Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Col\u00f4mbia) e Mario Vargas Llosa (Peru). Picoto a lista e salvo o \u00faltimo nominado para destacar uma das fascinantes obras desse artista imerso nas letras sem jamais abandonar a pol\u00edtica.\u00a0 Me refiro ao\u00a0Travessuras da Menina M\u00e1, livro no qual o festejado escritor peruano faz um apanhado da Am\u00e9rica Latina e suas lutas libertadoras entremostradas pela via da disseca\u00e7\u00e3o de um relacionamento amoroso. Cr\u00edticos liter\u00e1rios apontam que o namoro err\u00e1tico do personagem principal, o tradutor\/int\u00e9rprete Ricardo Somocurcio, com a\u00a0Ni\u00f1a mala\u00a0metaforiza processo que eles denominam de transcultura\u00e7\u00e3o. Nenhum dos sucessivos parceiros conjugais da Menina m\u00e1 \u2013 falsa chilena; peruana \u2013 era latino-americano, distribu\u00edam-se pelas nacionalidades inglesa, francesa e japonesa.\u00a0 Desconsiderarei os demais aspectos da obra, me circunscrevendo ao caso amoroso da dupla de protagonistas. E na empreitada sublinharei os rompimentos, digamos, conjugais deflagrados pela Ni\u00f1a mala, que, mesmo previs\u00edveis, reiterados, surpreendiam o companheiro. A primeira separa\u00e7\u00e3o \u2013 se bem que n\u00e3o provocada pela Menina m\u00e1, \u00e0 \u00e9poca travestida de camarada Arlette, a militante despachada para &nbsp;treinamento em Cuba: \u201cO curso durava poucos meses. Desde o primeiro momento, ela precisava mostrar uma incapacidade total para a vida guerrilheira, simulando desmaios e coisa e tal. Enquanto isso, eu, aqui em Paris, encontraria trabalho, alugaria um apartamentinho, ficaria \u00e0 sua espera\u2026 \u201c- J\u00e1 sei, voc\u00ea vai chorar, morrer de saudades, pensar em mim dia e noite \u2013 interrompeu com um gesto impaciente, os olhos duros, a voz g\u00e9lida. Bem, j\u00e1 vi que n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda. A gente se v\u00ea em tr\u00eas meses, Ricardito. \u201cPassei v\u00e1rios dias como uma alma penada, me recriminando dia e noite por n\u00e3o ter tido coragem suficiente para dizer \u00e0 camarada Arlette que apesar da proibi\u00e7\u00e3o de Pa\u00fal, ficasse comigo em Paris, em vez de aconselh\u00e1-la a prosseguir naquela aventura que s\u00f3 Deus sabe como terminaria.\u201d Estava apenas come\u00e7ando o supl\u00edcio do tradutor Ricardo pela chilena (que era peruana) na primeira etapa da saga mergulhada na clandestinidade. \u201c(\u2026) tentei imaginar a chilenita transformada em namorada do comandante Chac\u00f3n, vestida de guerrilheira, de pistola na cintura, boina azul e botas, conversando com Fidel e Ra\u00fal Castro nas grandes passeatas e manifesta\u00e7\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o, fazendo trabalho volunt\u00e1rio nos fins de semana e dando duro nos canaviais com suas m\u00e3ozinhas de dedos delicados pelejando para segurar o fac\u00e3o, e talvez com aquela facilidade para a metamorfose fon\u00e9tica que eu j\u00e1 conhecia, falando com a musicalidade demorada e sensual dos caribenhos. Na verdade, eu n\u00e3o conseguia imagin\u00e1-la no seu novo papel: sua figurinha escorria entre os meus dedos como se fosse l\u00edquida. Teria se apaixonado pelo tal comandante? Ou ele era apenas um instrumento para participar mais tarde da guerra revolucion\u00e1ria no Peru?\u201d O leitor e a leitora da obra poderiam razoavelmente supor que nosso her\u00f3i destrinchador das letras estrangeiras acomodava-se no seu abandono j\u00e1 de meses e meses malgrado o enrosco com outra mulher, a espanhola Carmencita (houve outras). Mas as trapa\u00e7as da sorte aprontaram naquele pr\u00e9dio da Unesco, em Paris. \u201c- Puxa, puxa, como este mundo \u00e9 pequeno \u2013 disse, aproximando-se e oferecendo a bochecha. O que faz por aqui, bom menino? \u201c- Trabalho aqui, como tradutor \u2013 consegui balbuciar, totalmente desconcertado pela surpresa, e muito consciente do aroma de ess\u00eancia de lavanda que me entrou pelo nariz ao beij\u00e1-la. Era ela, mas foi necess\u00e1rio um grande esfor\u00e7o para reconhecer, naquela cara t\u00e3o bem maquiada, naqueles l\u00e1bios vermelhos, naquelas sobrancelhas depiladas, naquelas pestanas sedosas e curvas que sombreavam os olhos travessos que o l\u00e1pis negro havia alongado e aprofundado, e naquelas m\u00e3os de unhas compridas que pareciam rec\u00e9m-sa\u00eddas da manicure a camarada Arlette. \u201c- Como voc\u00ea est\u00e1 mudada \u2013 disse eu, examinando-a de cima a baixo. \u2013 Faz uns tr\u00eas anos, n\u00e3o \u00e9? \u201c- Mudei para melhor ou para pior? \u2013 perguntou, totalmente dona de si mesma, dando uma meia-volta de modelo, no mesmo lugar, com as m\u00e3os na cintura. \u201c- Para melhor \u2013 reconheci, ainda sem me recuperar do choque. \u2013 Na verdade, est\u00e1 bel\u00edssima. Imagino que n\u00e3o posso mais cham\u00e1-la de Lily, a chilenita, nem de camarada Arlette, a guerrilheira. Como diabos se chama agora? \u201cEla riu, mostrando-me a alian\u00e7a de ouro na m\u00e3o direita: \u201c- Agora, uso o nome do meu marido, como se faz na Fran\u00e7a:&nbsp;madame&nbsp;Robert Arnoux.\u201d E os dois, Ricardo e Arlette, continuaram amantes. Se danasse o esposo, o tal do monsieur Robert, que no entanto, tempos depois, desabafou com o tradutor Ricardo, rival n\u00e3o sabido. \u201c- Ent\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o sabe \u2013 murmurou, secamente. \u2013 Ou est\u00e1 fazendo uma gracinha? \u201cDesconcertado, eu n\u00e3o tinha o que responder. \u201c- Toda a Unesco j\u00e1 sabe \u2013 acrescentou baixinho, com ironia. \u2013 Sou o buf\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Minha mulher foi embora, e eu nem sei com quem. Pensei que fosse com voc\u00ea, senhor Somocurcio. \u201cA voz se cortou antes de terminar de dizer o meu sobrenome. Seu queixo estava tremendo e achei que os dentes batiam (\u2026). \u201cA surpresa e o desgosto que me assaltaram foram t\u00e3o grandes que senti n\u00e1useas no elevador e, no banheiro do corredor, vomitei. Com quem ela estava? Continuaria morando em Paris com o amante? Um pensamento me acompanhou nos dias seguintes: aquele fim de semana que ela me deu de presente fora uma despedida(\u2026). \u201cGra\u00e7as \u00e0 rotina do trabalho da Unesco, fui saindo pouco a pouco da crise em que o desaparecimento da ex-chilenita, ex-guerriheira, ex-madame Arnoux me deixara. Como se chamaria agora? Que personalidade, que nome, que hist\u00f3ria havia adotado nessa nova etapa de sua vida. (\u2026) Ela me avisara claramente naquela \u00faltima manh\u00e3. \u2018Eu s\u00f3 ficaria para sempre com um homem que fosse muito rico e poderoso.\u2019 Com toda certeza, dessa vez eu n\u00e3o a veria nunca mais. Voc\u00ea precisa se levantar e esquecer essa peruanita de mil caras, pensar que ela n\u00e3o passou de um pesadelo, bom menino.\u201d Quatro anos voaram e o imponder\u00e1vel ponderavelmente se apresentou. \u201c(\u2026) assim que entramos na suntuosa mans\u00e3o do&nbsp;signor&nbsp;Ariosti, senti que minha garganta ficava seca de repente e do\u00edam as unhas das m\u00e3os e dos p\u00e9s. L\u00e1 estava ela, a menos de dez metros, sentada no bra\u00e7o de um sof\u00e1 com uma ta\u00e7a na m\u00e3o. Olhou para mim como se nunca me tivesse visto na vida. Antes que eu pudesse lhe dirigir a palavra ou me aproximar para beijar seu rosto, estendeu uma m\u00e3o desinteressada e me cumprimentou em ingl\u00eas como um perfeito estrangeiro: \u2018How do you do?\u2019. E, sem me dar tempo de responder, virou as costas e mergulhou de novo no bate-papo com as pessoas que estavam \u00e0 sua volta. \u201c(\u2026) N\u00e3o havia mudado muito naqueles quatro anos. Tinha o mesmo porte esbelto, bem formado, com cintura estreita, pernas magrinhas mas bem torneadas e tornozelos finos e quebradi\u00e7os de boneca. Parecia mais segura de si mesma e mais desembara\u00e7ada que antes, e balan\u00e7ava a cabe\u00e7a ao final de cada frase com uma displic\u00eancia estudada (\u2026). Divisei uma alian\u00e7a no anular de sua m\u00e3o esquerda, \u00e0 maneira protestante. Teria se convertido na religi\u00e3o anglicana tamb\u00e9m?&nbsp;Mr&nbsp;Richardson, a quem Juan me apresentou na sala cont\u00edgua, era um sessent\u00e3o exuberante, com uma camisa amarelo-el\u00e9trico e um len\u00e7o da mesma cor que se derramava sobre seu elegant\u00edssimo terno azul. \u00c9brio e euf\u00f3rico, contava piadas sobre suas aventuras no Jap\u00e3o que divertiam muito o c\u00edrculo de convidados que o rodeava (\u2026). Juan me contou que ele era um homem muito rico e passava parte do ano fazendo neg\u00f3cios na \u00c1sia, mas que o centro de sua vida era a paix\u00e3o aristocr\u00e1tica por excel\u00eancia: os cavalos. \u201c(\u2026) Apesar dos meus esfor\u00e7os, n\u00e3o consegui trocar uma palavra com Mrs. Richardison no decorrer daquela longa noite. Cada vez que, mantendo as apar\u00eancias, eu me aproximava dela, imediatamente se afastava com o pretexto de cumprimentar algu\u00e9m, ir ao buf\u00ea ou ao bar, ou ent\u00e3o come\u00e7ava a cochichar com uma amiga.\u201d A agonia continuava, passam-se mais alguns anos, a Menina m\u00e1 liga nesse interregno para o Ricardo, o antigo amante ainda na sua Paris incoopt\u00e1vel, mas nem cogita de encontr\u00e1-lo, desalentando nosso protagonista, j\u00e1 ent\u00e3o envolvido num di\u00e1logo com colega seu nestes termos. \u201cEst\u00e1vamos tomando cerveja num bistr\u00f4 da&nbsp;avenue&nbsp;Sufren depois de um dia de trabalho na Unesco (\u2026). Eu, num impulso confidencial, acabava de lhe contar, sem detalhes nem nomes, que estava apaixonado havia muitos anos por uma mulher que aparecia e desaparecia da minha vida como um fogo-f\u00e1tuo, incendiando-a de felicidade durante curtos per\u00edodos e depois deixando-a seca, est\u00e9ril, vacinada contra qualquer outro entusiasmo ou amor. \u201c- Pois se apaixonar \u00e9 um erro -sentenciou Salom\u00f3n Toledano (\u2026). A mulher tem de ser apanhada pelo cabelo, dominada e jogada no colch\u00e3o. Precisa ver todas as estrelas do firmamento num piscar de olhos. Esta \u00e9 a teoria correta. Eu n\u00e3o posso pratic\u00e1-la, por causa da minha fraqueza f\u00edsica,&nbsp;h\u00e9las. Uma vez tentei bancar o mach\u00e3o com uma f\u00eamea brava e ela me amassou a cara com um bofet\u00e3o. Por isso, apesar da minha tese eu trato as damas, principalmente as rameiras, como verdadeiras rainhas.\u201d At\u00e9 aqui, a Menina m\u00e1 j\u00e1 houvera despejado o franc\u00eas (\u2026..), o ingl\u00eas do haras j\u00e1 se encontrava na rampa do pirata (acabou de ser lan\u00e7ado ao mar) e a vol\u00favel se inseria na vida de misterioso japon\u00eas, personagem que bem poderia haver sa\u00eddo dum filme de James Bond, integrante da turma dos grandes bandidos antagonistas do espi\u00e3o a servi\u00e7o de Sua Majestade. E em Tokyo, depois de alguns telefonemas trocados, a Menina m\u00e1, apelidada pelas novas amizades orientais de Kuriko, vai ao encontro do tradutor ainda, e para sempre, apaixonado, tendo de ouvir dela que n\u00e3o tinha amor pelo Fukuda (o nome do Dr. No), sen\u00e3o que uma doen\u00e7a, um v\u00edcio, possu\u00edda demoniacamente por aquele neomarido que lhe houvera confessado que dormia com diferentes mulheres . Aguardemos mais incurs\u00f5es da Ni\u00f1a mala. Vai come\u00e7ar tudo de novo\u00a0(\u201cN\u00f3s \u00edamos conversar, mais uma vez eu me renderia ao poder que ela sempre teve sobre mim, viver\u00edamos um breve e falso id\u00edlio, eu criaria todo tipo de ilus\u00f5es e, na hora menos esperada, ela ia desaparecer e eu, machucado e zonzo, ficaria lambendo minhas feridas\u2026\u201d),\u00a0o que nos obriga a saltar dezenas de p\u00e1ginas e nos aproximar do final do livro, um pecado porque iremos abdicar da literatura do Mario Vargas Llosa, tendo contudo o benef\u00edcio de n\u00e3o mais deparar com trechos interpostos por este blogueiro presun\u00e7oso. N\u00e3o sem antes anotar que, diversamente dos bicudos dados pela Menina m\u00e1 em seus maridos e consoante aventado por um dos personagens amigos do Ricardo tradutor, o Japa a dispensara\u00a0\u201cdepois que foi presa pela pol\u00edcia de Lagos, numa de suas viagens \u00e0 \u00c1frica para ajud\u00e1-lo nos seus tr\u00e1ficos. E que a estupraram. 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