{"id":15732,"date":"2022-02-27T19:51:44","date_gmt":"2022-02-27T22:51:44","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15732"},"modified":"2022-02-27T20:26:26","modified_gmt":"2022-02-27T23:26:26","slug":"memorias-memorialistas-lxxvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas LXXVI"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>O tempo \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do homem, diz meu pai (&#8230;). Eu vou al\u00e9m, creio que o tempo n\u00e3o exista, tudo ocorre em concomit\u00e2ncia sem nos darmos conta, s\u00f3 percebemos o \u00e1timo presente, imensur\u00e1vel, e j\u00e1 se tornou mem\u00f3ria, e a isto chama-se vida.<\/em><br> <em>&#8211; Mino Carta &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">Saudades do Ver\u00edssimo, o Luis Fernando. Dif\u00edcil contar os meses nos quais n\u00e3o saem not\u00edcias a respeito do estado de sa\u00fade do humorista oitent\u00e3o. Poderia aqui revisitar alguns trechos, alguns desenhos de sua consagrada obra do mais fino humor, mas este modest\u00edssimo&nbsp;<em>blog<\/em>&nbsp;vem incursionando pelas mem\u00f3rias do pai dele.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">Com efeito, a referencia\u00e7\u00e3o passou pelo volume um de suas mem\u00f3rias e j\u00e1 avan\u00e7ou no segundo (e \u00faltimo) tomo, o qual, \u00e0 semelhan\u00e7a do que o antecedera, tamb\u00e9m foi batizado de \u201cSolo de Clarineta\u201d e veio a p\u00fablico, no remoto ano de 1976, &nbsp;ap\u00f3s o falecimento do Erico Ver\u00edssimo, por isso que a Editora Globo contara com a participa\u00e7\u00e3o do professor da UFRGS Fl\u00e1vio Loureiro Chaves para organizar os escritos em sequ\u00eancia ao que o ficcionista j\u00e1 deixara elaborado, da\u00ed esse segundo volume haver sido dividido em duas partes, a primeira delas j\u00e1 impressa e revisada pelo autor travestido de memorialista.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">S\u00e3o narrados, no volume 2 em tela, casos in\u00fameros vividos, como s\u00f3i, pelo Erico Ver\u00edssimo; abordagens de assuntos os mais diversificados; relatos da experi\u00eancia profissional em Washington do artista das letras, designado para uma diretoria na OEA; an\u00e1lises, de conseguinte, pol\u00edticas e at\u00e9 sociol\u00f3gicas. Todavia, o que numa mirada mais detida me interessou foram as p\u00e1ginas sobre uma viagem \u00e0 Gr\u00e9cia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/346_solo-938x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15735\" width=\"753\" height=\"822\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/346_solo-938x1024.jpg 938w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/346_solo-275x300.jpg 275w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/346_solo-768x838.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/346_solo.jpg 1071w\" sizes=\"(max-width: 753px) 100vw, 753px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">Mem\u00f3rias costumam ser n\u00e3o ordenadas, aleat\u00f3rias, desobedientes \u00e0 cronologia &#8211; s\u00e3o portanto jogadas no papel de forma assistem\u00e1tica. O ga\u00facho que lavrara o romance \u201cO Senhor Embaixador\u201d, entre dezenas de outros livros aqui assinalados em anteriores postagens dentro desse t\u00f3pico de recorda\u00e7\u00f5es, achara por bem, no momento em que iria nos falar do azul turquesa das \u00e1guas circundantes \u00e0s ilhas gregas, prepor sincera confiss\u00e3o aos seus leitores e leitoras, que, feita nos dias presentes e tratada em sua literalidade, sem mitiga\u00e7\u00f5es, o condenaria sem d\u00favida ao cancelamento praticado nas redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cExistem no homem sentimentos naturais e respeit\u00e1veis que, no entanto, quando transpostos para a dimens\u00e3o da literatura, correm o risco de parecer piegas e at\u00e9 grotescos. Tenho uma certa m\u00e1 vontade para com qualquer obra de fic\u00e7\u00e3o \u2013 em livro, teatro ou cinema \u2013 que explore o tema do amor materno (ou paterno), o dos \u2018\u00f3rf\u00e3os da tempestade\u2019 ou ainda o do c\u00e3o fiel que se fina de tristeza quando a morte lhe rouba o dono. Tenho procurado descobrir honestamente a fonte dessa avers\u00e3o e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que ela est\u00e1, por mais rid\u00edculo que pare\u00e7a, no fato de meu superego ter escolhido para mim, como paradigma, a imagem do homem est\u00f3ico e imperturb\u00e1vel, num contraste com o que realmente sou, isto \u00e9, um sujeito vulner\u00e1vel, sens\u00edvel, que se comove com facilidade n\u00e3o s\u00f3 ante os aspectos tristes ou tr\u00e1gicos da vida, mas tamb\u00e9m diante de qualquer express\u00e3o de beleza ou bondade. (O satirista que tenho dentro de mim n\u00e3o ser\u00e1, acaso, um agente secreto do superego?)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA verdade \u00e9 que, quanto mais velho vou ficando, tanto maior \u00e9 a minha admira\u00e7\u00e3o pelas pessoas que t\u00eam a coragem de externar seus sentimentos, suas paix\u00f5es ou avers\u00f5es sem nenhum respeito humano. Numa \u00e9poca como a nossa, o sentimentalismo passou a ser o oitavo pecado mortal. Da\u00ed \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o de torturas policiais, campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio, \u00e9 s\u00f3 um passo. Um passo que um dos pa\u00edses supostamente mais civilizados do mundo j\u00e1 deu\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">O ga\u00facho inunda o livro com suas anota\u00e7\u00f5es a prop\u00f3sito das belezas naturais do pa\u00eds mitol\u00f3gico, das obras de arte distribu\u00eddas em todos os cantos, dos deuses, fazendo apologia (me perdoem o trocadilho) do povo grego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA Gr\u00e9cia \u00e9 um pa\u00eds de pequenas cidades, vilas e aldeias. Nisso e na gra\u00e7a id\u00edlica de certas regi\u00f5es, (&#8230;), ela nos lembra Portugal: duas pequenas na\u00e7\u00f5es de brava gente afeita \u00e0s lides do mar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cQuanto \u00e0 paisagem humana, seria injusto olhar para o primeiro grego que encontramos nas ruas de Atenas ou outra qualquer cidade do pa\u00eds, e compar\u00e1-lo fisicamente com o&nbsp;<\/em>Hermes<em>&nbsp;de Prax\u00edteles.&nbsp;Dos gregos est\u00e1, por assim dizer, muito dilu\u00eddo. Atrav\u00e9s do tempo, das invas\u00f5es e das migra\u00e7\u00f5es sua pureza foi comprometida por cruzas com eslavos, francos e turcos. O tipo que em nossos dias predomina na Gr\u00e9cia \u00e9 o moreno de cabelos escuros. O grego \u00e9 o homem que ama cantar e dan\u00e7ar. Como o calabr\u00eas e o siciliano tem um entranhado senso de hospitalidade, honra pessoal e de fam\u00edlia. Lembra o judeu em sua paix\u00e3o pela pol\u00eamica. \u00c9 rico em gestos folcl\u00f3ricos como o mexicano. Barulhento e palrador como o latino-americano das Cara\u00edbas, gosta de discutir mais por amor \u00e0 discuss\u00e3o do que \u00e0 verdade. Como o espanhol, freq\u00fcenta com gosto as suas tabernas, caf\u00e9s, pra\u00e7as, parques e ruas. Como o brasileiro aprecia as anedotas, \u00e9 o homem do&nbsp;<\/em>aqui<em>&nbsp;e do agora. Bravo como soldado, \u00e9 o mais leal dos amigos e o mais feroz dos inimigos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(&#8230;)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cOs gregos (&#8230;) faziam especula\u00e7\u00f5es em torno do mist\u00e9rio, atrav\u00e9s do uso l\u00fadico da intelig\u00eancia e da raz\u00e3o, numa atitude n\u00e3o s\u00f3 de saud\u00e1vel irrever\u00eancia como tamb\u00e9m de curiosidade e bravura intelectuais. Foram eles os primeiros a criar um vocabul\u00e1rio adequado ao jogo das id\u00e9ias abstratas \u2013 tudo isso sem perder o gosto pelos aspectos vis\u00edveis e pl\u00e1sticos do mundo. Realizando uma fa\u00e7anha maior e mais importante que a dos navegadores do futuro, desvendadores de novos continentes, os helenos descobriram o homem e o valor do esp\u00edrito, e assim legaram \u00e0 posteridade a Ci\u00eancia, a Filosofia, a Literatura, a Arte, a Trag\u00e9dia, o Di\u00e1logo, a Democracia, em suma, o Humanismo. E agora, enquanto contemplo as colunas do Partenon, soam-me na mente as palavras de Anax\u00e1goras:&nbsp;<\/em>Todas as coisas estavam no caos quando surgiu o intelecto e criou a ordem<em>.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#025c90\" class=\"has-text-color\">O relato do Erico Ver\u00edssimo viajante, de que ora me despe\u00e7o t\u00e3o saudoso como referi no in\u00edcio desta postagem, vai-se acrisolando \u00e0 medida que o memorialista traz a lume as idiossincrasias da Gr\u00e9cia em seus prim\u00f3rdios \u2013 tisnando o \u201cvidas negras importam\u201d \u2013 de sorte a fazer sobressair na outra ponta o universalismo do povo heleno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u00c9 verdade que na Gr\u00e9cia antiga, mesmo na Era de P\u00e9ricles, a escravid\u00e3o era aceita como coisa natural, e que muitas vezes Atenas e Esparta empenharam-se em guerras cru\u00e9is e insensatas, sim, e que S\u00f3crates foi condenado \u00e0 morte. Mas, feitas as contas finais, que fabuloso saldo positivo essa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1tica nos transmitiu!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Tenho uma admira\u00e7\u00e3o particular por Eur\u00edpedes, que foi o primeiro a mostrar que a escravid\u00e3o era um mal, e que nenhum homem deve consentir em submeter-se servilmente a outro homem. Segundo esse mestre da trag\u00e9dia:&nbsp;<\/em>Escravo \u00e9 aquele que n\u00e3o pode dizer o que pensa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Lugar-comum? Tru\u00edsmo? Ora, quando pensamos em todas as ditaduras, &#8211; civis, militares ou h\u00edbridas -, nos estados totalit\u00e1rios cujo nome est\u00e1 aumentando no mundo com um car\u00e1ter quase epid\u00eamico, temos \u00edmpetos de, por mais \u00f3bvia que pare\u00e7a a frase de Eur\u00edpedes, proclam\u00e1-la muitas e muitas vezes&nbsp; a todos os ventos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAbsolvo Clitemnestra de todos os seus pecados, n\u00e3o s\u00f3 o de adult\u00e9rio como tamb\u00e9m o de ter incitado seu amante Egisto a assassinar Agam\u00eanon. Porque Micenas, amigos, \u00e1spera, \u00e1rida e cor de a\u00e7o, \u00e9 um cen\u00e1rio que convida \u00e0 trag\u00e9dia Aqui ningu\u00e9m pode fugir \u00e0 Fatalidade. E Clitemnestra, afinal de contas, deixada a s\u00f3s pelo marido, que fora guerrear em Tr\u00f3ia, n\u00e3o devia ter muito com que ocupar o seu tempo. O resto foi obra do Destino. (Arist\u00f3teles afirmou que a trag\u00e9dia nos purifica atrav\u00e9s da piedade e do temor reverente, e que os homens libertaram-se de si mesmos depois que compreenderam juntos o sofrimento universal em vida.)\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:17px\" class=\"has-text-align-center\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mino_Carta\">#Mino Carta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luis_Fernando_Verissimo\">#Luis Fernando Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gr%C3%A9cia\">#Gr\u00e9cia<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">24\/02\/2022<br>(346)<br> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do homem, diz meu pai (&#8230;). 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Com efeito, a referencia\u00e7\u00e3o passou pelo volume um de suas mem\u00f3rias e j\u00e1 avan\u00e7ou no segundo (e \u00faltimo) tomo, o qual, \u00e0 semelhan\u00e7a do que o antecedera, tamb\u00e9m foi batizado de \u201cSolo de Clarineta\u201d e veio a p\u00fablico, no remoto ano de 1976, &nbsp;ap\u00f3s o falecimento do Erico Ver\u00edssimo, por isso que a Editora Globo contara com a participa\u00e7\u00e3o do professor da UFRGS Fl\u00e1vio Loureiro Chaves para organizar os escritos em sequ\u00eancia ao que o ficcionista j\u00e1 deixara elaborado, da\u00ed esse segundo volume haver sido dividido em duas partes, a primeira delas j\u00e1 impressa e revisada pelo autor travestido de memorialista. S\u00e3o narrados, no volume 2 em tela, casos in\u00fameros vividos, como s\u00f3i, pelo Erico Ver\u00edssimo; abordagens de assuntos os mais diversificados; relatos da experi\u00eancia profissional em Washington do artista das letras, designado para uma diretoria na OEA; an\u00e1lises, de conseguinte, pol\u00edticas e at\u00e9 sociol\u00f3gicas. Todavia, o que numa mirada mais detida me interessou foram as p\u00e1ginas sobre uma viagem \u00e0 Gr\u00e9cia. Mem\u00f3rias costumam ser n\u00e3o ordenadas, aleat\u00f3rias, desobedientes \u00e0 cronologia &#8211; s\u00e3o portanto jogadas no papel de forma assistem\u00e1tica. O ga\u00facho que lavrara o romance \u201cO Senhor Embaixador\u201d, entre dezenas de outros livros aqui assinalados em anteriores postagens dentro desse t\u00f3pico de recorda\u00e7\u00f5es, achara por bem, no momento em que iria nos falar do azul turquesa das \u00e1guas circundantes \u00e0s ilhas gregas, prepor sincera confiss\u00e3o aos seus leitores e leitoras, que, feita nos dias presentes e tratada em sua literalidade, sem mitiga\u00e7\u00f5es, o condenaria sem d\u00favida ao cancelamento praticado nas redes sociais. \u201cExistem no homem sentimentos naturais e respeit\u00e1veis que, no entanto, quando transpostos para a dimens\u00e3o da literatura, correm o risco de parecer piegas e at\u00e9 grotescos. Tenho uma certa m\u00e1 vontade para com qualquer obra de fic\u00e7\u00e3o \u2013 em livro, teatro ou cinema \u2013 que explore o tema do amor materno (ou paterno), o dos \u2018\u00f3rf\u00e3os da tempestade\u2019 ou ainda o do c\u00e3o fiel que se fina de tristeza quando a morte lhe rouba o dono. Tenho procurado descobrir honestamente a fonte dessa avers\u00e3o e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que ela est\u00e1, por mais rid\u00edculo que pare\u00e7a, no fato de meu superego ter escolhido para mim, como paradigma, a imagem do homem est\u00f3ico e imperturb\u00e1vel, num contraste com o que realmente sou, isto \u00e9, um sujeito vulner\u00e1vel, sens\u00edvel, que se comove com facilidade n\u00e3o s\u00f3 ante os aspectos tristes ou tr\u00e1gicos da vida, mas tamb\u00e9m diante de qualquer express\u00e3o de beleza ou bondade. 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Realizando uma fa\u00e7anha maior e mais importante que a dos navegadores do futuro, desvendadores de novos continentes, os helenos descobriram o homem e o valor do esp\u00edrito, e assim legaram \u00e0 posteridade a Ci\u00eancia, a Filosofia, a Literatura, a Arte, a Trag\u00e9dia, o Di\u00e1logo, a Democracia, em suma, o Humanismo. E agora, enquanto contemplo as colunas do Partenon, soam-me na mente as palavras de Anax\u00e1goras:&nbsp;Todas as coisas estavam no caos quando surgiu o intelecto e criou a ordem. O relato do Erico Ver\u00edssimo viajante, de que ora me despe\u00e7o t\u00e3o saudoso como referi no in\u00edcio desta postagem, vai-se acrisolando \u00e0 medida que o memorialista traz a lume as idiossincrasias da Gr\u00e9cia em seus prim\u00f3rdios \u2013 tisnando o \u201cvidas negras importam\u201d \u2013 de sorte a fazer sobressair na outra ponta o universalismo do povo heleno. \u201c\u00c9 verdade que na Gr\u00e9cia antiga, mesmo na Era de P\u00e9ricles, a escravid\u00e3o era aceita como coisa natural, e que muitas vezes Atenas e Esparta empenharam-se em guerras cru\u00e9is e insensatas, sim, e que S\u00f3crates foi condenado \u00e0 morte. Mas, feitas as contas finais, que fabuloso saldo positivo essa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1tica nos transmitiu! Tenho uma admira\u00e7\u00e3o particular por Eur\u00edpedes, que foi o primeiro a mostrar que a escravid\u00e3o era um mal, e que nenhum homem deve consentir em submeter-se servilmente a outro homem. Segundo esse mestre da trag\u00e9dia:&nbsp;Escravo \u00e9 aquele que n\u00e3o pode dizer o que pensa. Lugar-comum? Tru\u00edsmo? Ora, quando pensamos em todas as ditaduras, &#8211; civis, militares ou h\u00edbridas -, nos estados totalit\u00e1rios cujo nome est\u00e1 aumentando no mundo com um car\u00e1ter quase epid\u00eamico, temos \u00edmpetos de, por mais \u00f3bvia que pare\u00e7a a frase de Eur\u00edpedes, proclam\u00e1-la muitas e muitas vezes&nbsp; a todos os ventos. (&#8230;) \u201cAbsolvo Clitemnestra de todos os seus pecados, n\u00e3o s\u00f3 o de adult\u00e9rio como tamb\u00e9m o de ter incitado seu amante Egisto a assassinar Agam\u00eanon. Porque Micenas, amigos, \u00e1spera, \u00e1rida e cor de a\u00e7o, \u00e9 um cen\u00e1rio que convida \u00e0 trag\u00e9dia Aqui ningu\u00e9m pode fugir \u00e0 Fatalidade. E Clitemnestra, afinal de contas, deixada a s\u00f3s pelo marido, que fora guerrear em Tr\u00f3ia, n\u00e3o devia ter muito com que ocupar o seu tempo. O resto foi obra do Destino. (Arist\u00f3teles afirmou que a trag\u00e9dia nos purifica atrav\u00e9s da piedade e do temor reverente, e que os homens libertaram-se de si mesmos depois que compreenderam juntos o sofrimento universal em vida.)\u201d #Mino Carta#Luis Fernando Ver\u00edssimo#Gr\u00e9cia 24\/02\/2022(346) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15737,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15732"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15732\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15736,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15732\/revisions\/15736"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}