{"id":15805,"date":"2022-07-04T19:51:33","date_gmt":"2022-07-04T22:51:33","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/?p=15805"},"modified":"2022-07-04T20:08:21","modified_gmt":"2022-07-04T23:08:21","slug":"memorias-memorialistas-lxxvii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxvii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas LXXVII"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Qualquer pessoa que tenha vivido parte da sua vida sob um regime autorit\u00e1rio reconhece a elementar justi\u00e7a de tal tese: democracias aut\u00eanticas tendem a puxar pelo melhor de n\u00f3s; regimes autorit\u00e1rios, pelo contr\u00e1rio, apostam na cultura do \u00f3dio, deformando e corrompendo os seus cidad\u00e3os, e transformando muitos deles em delatores e assassinos.<\/em><br> <em>&#8211; Jos\u00e9 Eduardo Agualusa &#8211;<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">De enaltecer as feiras liter\u00e1rias que se espalham pelo Brasil cada vez com mais frequ\u00eancia, a rigor verdadeiros parques de divers\u00f5es para escritores e escritoras, elas agora representadas em n\u00fameros expressivos, a espancar (o termo n\u00e3o \u00e9 feliz) o machismo que grassa neste pa\u00eds de litoral e interiores os mais amplos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Evidentemente, n\u00e3o fui a todos esses eventos &#8211; haja tempo, no que sou rico; mas haja tamb\u00e9m dinheiro, a\u00ed sou pobre, desprovido sequer de um saquinho de moedas apanhado na piscina do Tio Patinhas. Nas programadas sess\u00f5es de aut\u00f3grafos, a gente pode exercer a mais l\u00eddima tietagem. De outro lado, mesmo em feiras de grande porte que ocupam em sequ\u00eancia pavilh\u00f5es e pavilh\u00f5es, sobreexistem dificuldades para encontrar conjunto de obras liter\u00e1rias, mesmo as de autoria de escritores(as) consagrados(as) e bons de venda.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Por exemplo, achar livros do nosso Erico Ver\u00edssimo nessas mostras, bem assim nas redes de livraria e nas livrarias de rua \u2013 tem se revelado jornada \u00e9pica.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">Fosse um escritor nos dias de hoje, o ga\u00facho ilustre, ainda que massacrado pela c\u00e9lebre timidez, enfrentaria esses festivais com um p\u00e9 \u00e0s costas. Porque de mistura com o of\u00edcio das letras, o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo (ser\u00e1 que ele melhorou de sa\u00fade?) se apresenta fascinado por viagens consoante relata em Solo de Clarineta 2, objeto dessas \u00faltimas postagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Estas mem\u00f3rias ficariam injustificadamente incompletas se nelas eu n\u00e3o narrasse, ainda que de modo breve, as andan\u00e7as em que me tenho largado pelo mundo na companhia de minha mulher e de meus fantasmas particulares. Desde crian\u00e7a fui possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio das viagens. Essa encantada curiosidade de conhecer alheias terras e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade madura. Mesmo agora, quando j\u00e1 diviso a brumosa porta da casa dos setenta, um convite \u00e0 viagem tem ainda o poder de incendiar-me a fantasia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Erico-Verissimo-aos-15-anos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15809\" width=\"398\" height=\"587\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Erico-Verissimo-aos-15-anos.jpg 587w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Erico-Verissimo-aos-15-anos-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/><figcaption> Erico Ver\u00edssimo aos 15 anos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Na minha opini\u00e3o, existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam para\u00a0<\/em>fugir<em>\u00a0e os que viajam para\u00a0<\/em>buscar<em>. Considero-me membro deste \u00faltimo grupo, embora em 1943, como j\u00e1 contei no primeiro tomo destas mem\u00f3rias, nauseado pelo ran\u00e7o fascista de nosso Estado Novo, eu tenha\u00a0<\/em>fugido<em>\u00a0com toda a fam\u00edlia do Brasil para os Estados Unidos, onde permanecemos por dois anos. Devo entretanto esclarecer que, mesmo durante esse tempo de fugitivo, jamais deixei de ser um buscador.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">O memorialista d\u00e1 um corte, digressiona e, ao comentar emprego duma express\u00e3o popular havia d\u00e9cadas, faz-nos ver que o mundo \u00e9 vasto mundo porquanto nele n\u00e3o existem fronteiras, demarca\u00e7\u00f5es, limites, marcos geogr\u00e1ficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Usei como t\u00edtulo deste cap\u00edtulo dedicado a minhas viagens uma express\u00e3o popular que suponho de origem gauchesca. Tenho-a ouvido desde menino. Da boca de velhos parentes e amigos, de tropeiros, pe\u00f5es de est\u00e2ncia, \u00edndios vagos, gente da rua&#8230; Minha pr\u00f3pria m\u00e3e empregava-a com freq\u00fc\u00eancia e costumava pontu\u00e1-la com um fundo suspiro de queixa. As pessoas em geral pareciam usar essa frase para descrever um mundo que se lhes afigurava n\u00e3o s\u00f3 incomensur\u00e1vel como tamb\u00e9m misterioso, absurdo, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a&#8230; Desconfio, entretanto, que na sua origem essa exclama\u00e7\u00e3o manifestava apenas a certeza popular de que Deus fizera o mundo sem nenhuma porteira a fim de que nele n\u00e3o houvesse divis\u00f5es e diferen\u00e7as entre pa\u00edses e povos \u2013 gente rica e gente pobre, fartos e famintos, uns com terra demais, outros sem terra nenhuma. Em suma, o que o Velho queria mesmo era um mundo que fosse de todo mundo. \u00c9 neste sentido positivo que desejo seja interpretada a frase que encabe\u00e7a esta divis\u00e3o do presente volume.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Quem me l\u00ea poder\u00e1 objetar que basta a gente passar os olhos pelo jornal desta manh\u00e3 para verificar que o mundo nunca teve tantas e t\u00e3o dram\u00e1ticas porteiras como em nossos dias&#8230; As pr\u00f3prias p\u00e1ginas deste livro bem poderiam ser uma confirma\u00e7\u00e3o desta id\u00e9ia. Mas que importa? Um dia as porteiras h\u00e3o de cair, ou algu\u00e9m as derrubar\u00e1. \u2018Para erguer outras ainda mais terr\u00edveis\u2019 \u2013 replicar\u00e1 o leitor c\u00e9tico. Ora, amigo, precisamos ter na vida um m\u00ednimo de otimismo e esperan\u00e7a para poder ir at\u00e9 o fim da picada. Voc\u00ea n\u00e3o concorda? Oh, mundo velho sem porteira!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tal perspectiva de&nbsp;imensid\u00e3o, de magnitude nos joga numa regi\u00e3o que, por mal ou por bem, est\u00e1 na moda. Um dos causos narrados pelo Erico em viagem n\u00e3o oficial pela Terrinha Portuguesa metaforicamente aponta desabafo de escritor portugu\u00eas que viveu no Brasil, na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Aos poucos, explorando a floresta, parando aqui e ali ao p\u00e9 duma \u00e1rvore, vou encontrando escritores portugueses que conhe\u00e7o de leitura e retrato. De repente exclamo com genu\u00edna satisfa\u00e7\u00e3o: \u2018Ferreira de Castro!\u2019 E ele, sorridente, de bra\u00e7os abertos: \u2018V\u2019r\u00edssimo!\u2019 \u00c9 um encontro que h\u00e1 muito tenho desejado. Moreno, estatura me\u00e3, robusto, \u00e0 primeira vista este beir\u00e3o do litoral d\u00e1 uma impress\u00e3o de sisudez e incomunicabilidade. Sei que passou sua adolesc\u00eancia de homem pobre na Amaz\u00f4nia, e dessa experi\u00eancia resultou um livro,&nbsp;<\/em>A Selva<em>&nbsp;(1930), que \u00e9 talvez o melhor romance que se escreveu at\u00e9 hoje sobre aquela regi\u00e3o brasileira. Trata n\u00e3o s\u00f3 das agruras da selva como tamb\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o de que eram v\u00edtimas os trabalhadores brasileiros dos seringais. Seu romance Emigrantes, publicado em 1928, mostra as dificuldades e humilha\u00e7\u00f5es dos portugueses pobres que emigravam para o Brasil. Ferreira de Castro me pergunta agora se \u00e9 verdade que esses dois livros o tornaram malvisto e malquerido no meu pa\u00eds. \u2018\u00d3 homem \u2013 respondo \u2013 \u2018acho que \u00e9 puro boato. Afinal de contas voc\u00ea nada mais fez que escrever a verdade. E como escreveu bem!\u2019 Este bravo romancista, que tanta intimidade tem com a vida, a dura vida dos desprotegidos, \u00e9 considerado o precursor do romance neo-realista em Portugal. Por alguns instantes conversamos sobre um escritor que ambos admiramos e queremos: Jorge Amado.\u201d<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">J\u00e1 imaginaram se o escritor luso fosse um indigenista acompanhado de um jornalista brit\u00e2nico?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#006590\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\">E nessa estada portuguesa, idos de 1959, semanas e semanas rodando o pa\u00eds que \u00e9 a entrada da Europa (h\u00e1 controv\u00e9rsias, levantadas at\u00e9 pelos portugueses mais ir\u00f4nicos), o Erico Ver\u00edssimo vai participar de in\u00fameros semin\u00e1rios, simp\u00f3sios, encontros liter\u00e1rios, conven\u00e7\u00f5es, feiras de livros (olhem elas a\u00ed), arrasando como se diz atualmente. O criador de&nbsp;<em>O Tempo \u00e9 o Vento<\/em>&nbsp;era um indiv\u00edduo de centro (hoje, no espectro pol\u00edtico, n\u00e3o poderia entretanto ser rotulado de integrante da terceira via), inimigo das ditaduras de direita e de esquerda, mas que salientava sua repulsa pelo salazarismo (nos meus tempos de graduando de Direito na UnB, in\u00edcio dos anos de 1970, tive o desprazer de ter no corpo docente do ent\u00e3o departamento, ainda n\u00e3o faculdade, o Marcelo Caetano,&nbsp;ex-primeiro-ministro de Portugal e um dos pr\u00f3ceres da ditadura longamente vigorante no pa\u00eds do meu Vasc\u00e3o da Gama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201c(&#8230;) Dias mais tarde recebi do Brasil, da parte de Mauricio Rosenblatt, um bilhete acompanhado dum recorte do Correio do Povo de Porto Alegre, contendo uma curta not\u00edcia distribu\u00edda pela United Press Internacional e na qual se informava que o \u2018romancista brasileiro\u2019 se encontrava em Lisboa como&nbsp;<\/em>h\u00f3spede oficial do Governo portugu\u00eas<em>.&nbsp;Essa inverdade me deixou irritado. N\u00e3o sou homem de grandes explos\u00f5es, mas de pequenas implos\u00f5es. Telefonei imediatamente para a ag\u00eancia local da U.P.I., pedi \u00e0 operadora que chamasse seu gerente. Quando o tive na outra extremidade da linha e ouvi o seu \u2018Est\u00e1 l\u00e1?\u2019, identifiquei-me, minuciosamente, li em voz alta e t\u00e3o clara quanto poss\u00edvel, a not\u00edcia do recorte, e acrescentei: \u2018Exijo que essa ag\u00eancia desminta o mais cedo poss\u00edvel este comunicado. N\u00e3o \u00e9 verdade que eu esteja em Portugal como convidado do governo salazarista. Viajo por conta pr\u00f3pria e neste pa\u00eds sou h\u00f3spede de meu editor Antonio de Souza Pinto. Jamais aceitei nem aceitarei qualquer favor dum governo totalit\u00e1rio\u2019. Meu invis\u00edvel interlocutor murmurou apenas: \u2018Pois pois&#8230;\u2019 Desliguei o telefone. Como uma ag\u00eancia de not\u00edcias da estatura da United Press International n\u00e3o pode enganar-se e muito menos admitir publicamente que cometeu um erro de informa\u00e7\u00e3o, a maneira que o citado agente encontrou para \u2018restaurar a verdade\u2019 foi a de, no pr\u00f3ximo comunicado que expediu para o Brasil a meu respeito, anunciar que \u2018o escritor, que se encontra na Europa em viagem particular de recreio, pronunciar\u00e1 hoje \u00e0 noite uma confer\u00eancia p\u00fablica no Teatro D. Maria II&#8230;\u2019\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:18px\" class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jos%C3%A9_Eduardo_Agualusa\">#Jos\u00e9 Eduardo Agualusa<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Erico_Verissimo\">#Erico Ver\u00edssimo<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ant%C3%B3nio_de_Oliveira_Salazar\">#Salazar<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ferreira_de_Castro\">#Ferreira de Castro <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">04\/07\/2022<br>(351)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qualquer pessoa que tenha vivido parte da sua vida sob um regime autorit\u00e1rio reconhece a elementar justi\u00e7a de tal tese: democracias aut\u00eanticas tendem a puxar pelo melhor de n\u00f3s; regimes autorit\u00e1rios, pelo contr\u00e1rio, apostam na cultura do \u00f3dio, deformando e corrompendo os seus cidad\u00e3os, e transformando muitos deles em delatores e assassinos. &#8211; Jos\u00e9 Eduardo Agualusa &#8211; De enaltecer as feiras liter\u00e1rias que se espalham pelo Brasil cada vez com mais frequ\u00eancia, a rigor verdadeiros parques de divers\u00f5es para escritores e escritoras, elas agora representadas em n\u00fameros expressivos, a espancar (o termo n\u00e3o \u00e9 feliz) o machismo que grassa neste pa\u00eds de litoral e interiores os mais amplos. Evidentemente, n\u00e3o fui a todos esses eventos &#8211; haja tempo, no que sou rico; mas haja tamb\u00e9m dinheiro, a\u00ed sou pobre, desprovido sequer de um saquinho de moedas apanhado na piscina do Tio Patinhas. Nas programadas sess\u00f5es de aut\u00f3grafos, a gente pode exercer a mais l\u00eddima tietagem. De outro lado, mesmo em feiras de grande porte que ocupam em sequ\u00eancia pavilh\u00f5es e pavilh\u00f5es, sobreexistem dificuldades para encontrar conjunto de obras liter\u00e1rias, mesmo as de autoria de escritores(as) consagrados(as) e bons de venda. Por exemplo, achar livros do nosso Erico Ver\u00edssimo nessas mostras, bem assim nas redes de livraria e nas livrarias de rua \u2013 tem se revelado jornada \u00e9pica. Fosse um escritor nos dias de hoje, o ga\u00facho ilustre, ainda que massacrado pela c\u00e9lebre timidez, enfrentaria esses festivais com um p\u00e9 \u00e0s costas. Porque de mistura com o of\u00edcio das letras, o pai do Luiz Fernando Ver\u00edssimo (ser\u00e1 que ele melhorou de sa\u00fade?) se apresenta fascinado por viagens consoante relata em Solo de Clarineta 2, objeto dessas \u00faltimas postagens. \u201c(&#8230;) Estas mem\u00f3rias ficariam injustificadamente incompletas se nelas eu n\u00e3o narrasse, ainda que de modo breve, as andan\u00e7as em que me tenho largado pelo mundo na companhia de minha mulher e de meus fantasmas particulares. Desde crian\u00e7a fui possu\u00eddo pelo dem\u00f4nio das viagens. Essa encantada curiosidade de conhecer alheias terras e povos visitou-me repetidamente a mocidade e a idade madura. Mesmo agora, quando j\u00e1 diviso a brumosa porta da casa dos setenta, um convite \u00e0 viagem tem ainda o poder de incendiar-me a fantasia. \u201c(&#8230;) Na minha opini\u00e3o, existem duas categorias principais de viajantes: os que viajam para\u00a0fugir\u00a0e os que viajam para\u00a0buscar. Considero-me membro deste \u00faltimo grupo, embora em 1943, como j\u00e1 contei no primeiro tomo destas mem\u00f3rias, nauseado pelo ran\u00e7o fascista de nosso Estado Novo, eu tenha\u00a0fugido\u00a0com toda a fam\u00edlia do Brasil para os Estados Unidos, onde permanecemos por dois anos. Devo entretanto esclarecer que, mesmo durante esse tempo de fugitivo, jamais deixei de ser um buscador.\u201d O memorialista d\u00e1 um corte, digressiona e, ao comentar emprego duma express\u00e3o popular havia d\u00e9cadas, faz-nos ver que o mundo \u00e9 vasto mundo porquanto nele n\u00e3o existem fronteiras, demarca\u00e7\u00f5es, limites, marcos geogr\u00e1ficos. \u201c(&#8230;) Usei como t\u00edtulo deste cap\u00edtulo dedicado a minhas viagens uma express\u00e3o popular que suponho de origem gauchesca. Tenho-a ouvido desde menino. Da boca de velhos parentes e amigos, de tropeiros, pe\u00f5es de est\u00e2ncia, \u00edndios vagos, gente da rua&#8230; Minha pr\u00f3pria m\u00e3e empregava-a com freq\u00fc\u00eancia e costumava pontu\u00e1-la com um fundo suspiro de queixa. As pessoas em geral pareciam usar essa frase para descrever um mundo que se lhes afigurava n\u00e3o s\u00f3 incomensur\u00e1vel como tamb\u00e9m misterioso, absurdo, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a&#8230; Desconfio, entretanto, que na sua origem essa exclama\u00e7\u00e3o manifestava apenas a certeza popular de que Deus fizera o mundo sem nenhuma porteira a fim de que nele n\u00e3o houvesse divis\u00f5es e diferen\u00e7as entre pa\u00edses e povos \u2013 gente rica e gente pobre, fartos e famintos, uns com terra demais, outros sem terra nenhuma. Em suma, o que o Velho queria mesmo era um mundo que fosse de todo mundo. \u00c9 neste sentido positivo que desejo seja interpretada a frase que encabe\u00e7a esta divis\u00e3o do presente volume. \u201c(&#8230;) Quem me l\u00ea poder\u00e1 objetar que basta a gente passar os olhos pelo jornal desta manh\u00e3 para verificar que o mundo nunca teve tantas e t\u00e3o dram\u00e1ticas porteiras como em nossos dias&#8230; As pr\u00f3prias p\u00e1ginas deste livro bem poderiam ser uma confirma\u00e7\u00e3o desta id\u00e9ia. Mas que importa? Um dia as porteiras h\u00e3o de cair, ou algu\u00e9m as derrubar\u00e1. \u2018Para erguer outras ainda mais terr\u00edveis\u2019 \u2013 replicar\u00e1 o leitor c\u00e9tico. Ora, amigo, precisamos ter na vida um m\u00ednimo de otimismo e esperan\u00e7a para poder ir at\u00e9 o fim da picada. Voc\u00ea n\u00e3o concorda? Oh, mundo velho sem porteira!\u201d &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tal perspectiva de&nbsp;imensid\u00e3o, de magnitude nos joga numa regi\u00e3o que, por mal ou por bem, est\u00e1 na moda. Um dos causos narrados pelo Erico em viagem n\u00e3o oficial pela Terrinha Portuguesa metaforicamente aponta desabafo de escritor portugu\u00eas que viveu no Brasil, na Amaz\u00f4nia. \u201c(&#8230;) Aos poucos, explorando a floresta, parando aqui e ali ao p\u00e9 duma \u00e1rvore, vou encontrando escritores portugueses que conhe\u00e7o de leitura e retrato. De repente exclamo com genu\u00edna satisfa\u00e7\u00e3o: \u2018Ferreira de Castro!\u2019 E ele, sorridente, de bra\u00e7os abertos: \u2018V\u2019r\u00edssimo!\u2019 \u00c9 um encontro que h\u00e1 muito tenho desejado. Moreno, estatura me\u00e3, robusto, \u00e0 primeira vista este beir\u00e3o do litoral d\u00e1 uma impress\u00e3o de sisudez e incomunicabilidade. Sei que passou sua adolesc\u00eancia de homem pobre na Amaz\u00f4nia, e dessa experi\u00eancia resultou um livro,&nbsp;A Selva&nbsp;(1930), que \u00e9 talvez o melhor romance que se escreveu at\u00e9 hoje sobre aquela regi\u00e3o brasileira. Trata n\u00e3o s\u00f3 das agruras da selva como tamb\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o de que eram v\u00edtimas os trabalhadores brasileiros dos seringais. Seu romance Emigrantes, publicado em 1928, mostra as dificuldades e humilha\u00e7\u00f5es dos portugueses pobres que emigravam para o Brasil. Ferreira de Castro me pergunta agora se \u00e9 verdade que esses dois livros o tornaram malvisto e malquerido no meu pa\u00eds. \u2018\u00d3 homem \u2013 respondo \u2013 \u2018acho que \u00e9 puro boato. Afinal de contas voc\u00ea nada mais fez que escrever a verdade. E como escreveu bem!\u2019 Este bravo romancista, que tanta intimidade tem com a vida, a dura vida dos desprotegidos, \u00e9 considerado o precursor do romance neo-realista em Portugal. Por alguns instantes conversamos sobre um escritor que ambos admiramos e queremos: Jorge Amado.\u201d J\u00e1 imaginaram se o escritor luso fosse um indigenista acompanhado de um jornalista brit\u00e2nico? E nessa estada portuguesa, idos de 1959, semanas e semanas rodando o pa\u00eds que \u00e9 a entrada da Europa (h\u00e1 controv\u00e9rsias, levantadas at\u00e9 pelos portugueses mais ir\u00f4nicos), o Erico Ver\u00edssimo vai participar de in\u00fameros semin\u00e1rios, simp\u00f3sios, encontros liter\u00e1rios, conven\u00e7\u00f5es, feiras de livros (olhem elas a\u00ed), arrasando como se diz atualmente. O criador de&nbsp;O Tempo \u00e9 o Vento&nbsp;era um indiv\u00edduo de centro (hoje, no espectro pol\u00edtico, n\u00e3o poderia entretanto ser rotulado de integrante da terceira via), inimigo das ditaduras de direita e de esquerda, mas que salientava sua repulsa pelo salazarismo (nos meus tempos de graduando de Direito na UnB, in\u00edcio dos anos de 1970, tive o desprazer de ter no corpo docente do ent\u00e3o departamento, ainda n\u00e3o faculdade, o Marcelo Caetano,&nbsp;ex-primeiro-ministro de Portugal e um dos pr\u00f3ceres da ditadura longamente vigorante no pa\u00eds do meu Vasc\u00e3o da Gama. \u201c(&#8230;) Dias mais tarde recebi do Brasil, da parte de Mauricio Rosenblatt, um bilhete acompanhado dum recorte do Correio do Povo de Porto Alegre, contendo uma curta not\u00edcia distribu\u00edda pela United Press Internacional e na qual se informava que o \u2018romancista brasileiro\u2019 se encontrava em Lisboa como&nbsp;h\u00f3spede oficial do Governo portugu\u00eas.&nbsp;Essa inverdade me deixou irritado. N\u00e3o sou homem de grandes explos\u00f5es, mas de pequenas implos\u00f5es. Telefonei imediatamente para a ag\u00eancia local da U.P.I., pedi \u00e0 operadora que chamasse seu gerente. Quando o tive na outra extremidade da linha e ouvi o seu \u2018Est\u00e1 l\u00e1?\u2019, identifiquei-me, minuciosamente, li em voz alta e t\u00e3o clara quanto poss\u00edvel, a not\u00edcia do recorte, e acrescentei: \u2018Exijo que essa ag\u00eancia desminta o mais cedo poss\u00edvel este comunicado. N\u00e3o \u00e9 verdade que eu esteja em Portugal como convidado do governo salazarista. Viajo por conta pr\u00f3pria e neste pa\u00eds sou h\u00f3spede de meu editor Antonio de Souza Pinto. Jamais aceitei nem aceitarei qualquer favor dum governo totalit\u00e1rio\u2019. Meu invis\u00edvel interlocutor murmurou apenas: \u2018Pois pois&#8230;\u2019 Desliguei o telefone. Como uma ag\u00eancia de not\u00edcias da estatura da United Press International n\u00e3o pode enganar-se e muito menos admitir publicamente que cometeu um erro de informa\u00e7\u00e3o, a maneira que o citado agente encontrou para \u2018restaurar a verdade\u2019 foi a de, no pr\u00f3ximo comunicado que expediu para o Brasil a meu respeito, anunciar que \u2018o escritor, que se encontra na Europa em viagem particular de recreio, pronunciar\u00e1 hoje \u00e0 noite uma confer\u00eancia p\u00fablica no Teatro D. Maria II&#8230;\u2019\u201d #Jos\u00e9 Eduardo Agualusa#Erico Ver\u00edssimo#Salazar#Ferreira de Castro 04\/07\/2022(351)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15810,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15805","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15805"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15805\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15812,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15805\/revisions\/15812"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}