{"id":1592,"date":"2016-07-21T00:05:34","date_gmt":"2016-07-21T00:05:34","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=1592"},"modified":"2016-07-21T00:05:34","modified_gmt":"2016-07-21T00:05:34","slug":"historias-do-teatro-brasiliense-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/historias-do-teatro-brasiliense-iv\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias do teatro brasiliense (IV)"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1593 aligncenter\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/199_aline2.jpg\" alt=\"199_aline2\" width=\"434\" height=\"593\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/199_aline2.jpg 589w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/199_aline2-219x300.jpg 219w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/199_aline2-200x274.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/199_aline2-400x547.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 434px) 100vw, 434px\" \/><\/p>\n<p>Ao trazer o restante das dedicat\u00f3rias feitas por diversos artistas das c\u00eanicas \u00e0 minha neta Aline Padilha \u2013 que estreou no palco aos quatro meses de idade e at\u00e9 hoje, perto dos vinte anos de exist\u00eancia, d\u00e1 umas canjas no palco -, lan\u00e7o-me novamente ao relato do Eliezer e dou todavia um salto no tempo, atingindo (sem trocadilho) diretamente os anos de chumbo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cComo Orthof (<\/em>Sylvia<em>), o teatro em Bras\u00edlia e no resto do pa\u00eds enfrentam as v\u00e1rias dificuldades impostas pela ditadura. Iniciada no ano de 1964 ela avan\u00e7a at\u00e9 o ano de 1983 dificultando a forma\u00e7\u00e3o de grupos, censurando apresenta\u00e7\u00f5es teatrais, bem como controlando o conte\u00fado dos espet\u00e1culos. Essa censura atuava em todos os meios art\u00edsticos e de comunica\u00e7\u00e3o ou divulga\u00e7\u00e3o, atrelando todos esses trabalhos as suas autoriza\u00e7\u00f5es. Os censores atribu\u00edam cortes arbitr\u00e1rios de partes que eles julgassem impr\u00f3prias de pe\u00e7as, textos, imagens ou gestos. No teatro antes da estr\u00e9ia da pe\u00e7a os grupos eram obrigados a enviar os textos para a aprova\u00e7\u00e3o da censura, com a devolu\u00e7\u00e3o do texto com cortes j\u00e1 efetuados. Os grupos eram ainda obrigados a realizar um ensaio geral do espet\u00e1culo, com a presen\u00e7a de dois censores quando poderiam ser feitos novos cortes n\u00e3o somente no texto, mas nos gestos e na composi\u00e7\u00e3o da cena, figurinos ou mesmo cartazes.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Vejam voc\u00eas que a abordagem acima n\u00e3o se relaciona com a \u00e9poca da Inquisi\u00e7\u00e3o ou de antes da Revolu\u00e7\u00e3o francesa. Custa crer que tudo isso se passou h\u00e1 cinquenta anos, um corte de nada para a hist\u00f3ria de qualquer pa\u00eds ou na\u00e7\u00e3o, com burocras semianalfabetos sendo pagos para a\u00e7ambarcar fun\u00e7\u00f5es exclusivas do p\u00fablico espectador, o verdadeiro e leg\u00edtimo jurado, e dos profissionais atuantes na \u00e1rea, destacadamente no caso os dramaturgos e os diretores teatrais.<\/p>\n<p>E como se reagia a tal barbaridade? Nosso narrador nos conta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cPara driblar essa \u2018forte marca\u00e7\u00e3o\u2019 da censura v\u00e1rios artif\u00edcios foram desenvolvidos como met\u00e1foras ou frases com duplo sentido, obrigando os artistas a um esfor\u00e7o extra para transmitir a mensagem desejada aos espectadores. A atriz Marisa Castro diz que \u2018como a gente era muito censurado, nada podia falar ou se dizer. A gente tinha que se virar para criar nuances, para criar detalhezinhos que passassem sutilmente para a plat\u00e9ia, e que a censura n\u00e3o percebesse, era um surto de cria\u00e7\u00e3o, uma loucura.\u2019 Havia truques ainda como o apelidado \u2018boi de piranha\u2019, que consistia em colocar no\u00a0 texto original frases e palavr\u00f5es que causariam um maior impacto \u00e0 vista dos censores e que deveriam ser cortadas. Isso buscava desviar a aten\u00e7\u00e3o desses censores de cenas importantes do texto original, desse modo v\u00e1rias cenas que poderiam ser cortadas eram mantidas. Com o passar do tempo foram mudando as imposi\u00e7\u00f5es e limites da censura. O jornalista Kido Guerra <\/em>(falecido em 2009, eu tristemente acrescento)<em> que atuou no teatro de Bras\u00edlia no final da d\u00e9cada de 1970 e na d\u00e9cada de 1980 relata que nessa \u00e9poca<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u2018a censura era como voc\u00ea acertar a luz; fazia parte do contexto do espet\u00e1culo, a gente convivia com aquilo como: &#8211; Bom, vamos acertar os refletores, para o ensaio geral, e o outro: &#8211; \u00d3! Vamos l\u00e1 na censura, porque vai ter o ensaio geral com a censura, vamos liberar o espet\u00e1culo.\u2019\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>Me cabe concluir esta postagem via reprodu\u00e7\u00e3o dos itens finais do Elieser Faleiros de Carvalho. Nestes trechos, com a integralidade da pontua\u00e7\u00e3o e da ortografia vigente \u00e0 \u00e9poca, o ent\u00e3o estudante teve a ousadia de evocar dois nomes da minha mais profunda admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cCom essa censura\/ditadura como inimigo comum localizado, tanto o teatro como o cinema e a m\u00fasica foram meios de express\u00e3o que ainda assim tiveram amplo destaque nacional e que tiveram grande criatividade para divulgar e transmitir ideiais durante esse per\u00edodo. O artista c\u00eanico e professor B. de Paiva declara com tristeza: \u2018Eu n\u00e3o sei porque nesse pa\u00eds cultura s\u00f3 rima com ditadura?\u2019 e contextualiza essa frase apontando v\u00e1rias pessoas que estiveram na frente de secretarias do governo como Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Gustavo Capanema, Carlos Miranda, al\u00e9m de grupos e trabalhos de import\u00e2ncia na hist\u00f3ria cultural nacional, bem como projetos culturais que foram realizados durante esse per\u00edodo. Al\u00e9m desses fatos, um outro fator que fortalecia o movimento cultural era o apoio da esquerda e dos movimentos estudantis que muitas vezes integravam movimentos culturais como forma de expressarem seus ideais pol\u00edticos ou mesmo trazer mais pessoas para seus grupos e partidos. O ator e diretor Jos\u00e9 Regino conta que ingressou no movimento teatral a partir de um pedido de seu partido de que ingressasse e influenciasse a atua\u00e7\u00e3o de um jovem grupo de teatro.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>E o desfecho com registro em tons otimistas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cApesar de todos aspectos negativos dessa \u00e9poca no Brasil, o teatro da d\u00e9cada de 1960 na capital consegue v\u00e1rios destaques. Ainda em forma\u00e7\u00e3o, como a pr\u00f3pria cidade de Bras\u00edlia, o teatro brasiliense apresentava suas identidades em constru\u00e7\u00e3o, que forneceram uma base para o desenvovimento e continuidade desse teatro.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">20 de julho de 2016<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(199)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\"><span style=\"color: #0000ff;\">mmsmarcos1953@hotmail.co<\/span>m<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao trazer o restante das dedicat\u00f3rias feitas por diversos artistas das c\u00eanicas \u00e0 minha neta Aline Padilha \u2013 que estreou no palco aos quatro meses de idade e at\u00e9 hoje, perto dos vinte anos de exist\u00eancia, d\u00e1 umas canjas no palco -, lan\u00e7o-me novamente ao relato do Eliezer e dou todavia um salto no tempo, atingindo (sem trocadilho) diretamente os anos de chumbo. \u201cComo Orthof (Sylvia), o teatro em Bras\u00edlia e no resto do pa\u00eds enfrentam as v\u00e1rias dificuldades impostas pela ditadura. Iniciada no ano de 1964 ela avan\u00e7a at\u00e9 o ano de 1983 dificultando a forma\u00e7\u00e3o de grupos, censurando apresenta\u00e7\u00f5es teatrais, bem como controlando o conte\u00fado dos espet\u00e1culos. Essa censura atuava em todos os meios art\u00edsticos e de comunica\u00e7\u00e3o ou divulga\u00e7\u00e3o, atrelando todos esses trabalhos as suas autoriza\u00e7\u00f5es. Os censores atribu\u00edam cortes arbitr\u00e1rios de partes que eles julgassem impr\u00f3prias de pe\u00e7as, textos, imagens ou gestos. No teatro antes da estr\u00e9ia da pe\u00e7a os grupos eram obrigados a enviar os textos para a aprova\u00e7\u00e3o da censura, com a devolu\u00e7\u00e3o do texto com cortes j\u00e1 efetuados. Os grupos eram ainda obrigados a realizar um ensaio geral do espet\u00e1culo, com a presen\u00e7a de dois censores quando poderiam ser feitos novos cortes n\u00e3o somente no texto, mas nos gestos e na composi\u00e7\u00e3o da cena, figurinos ou mesmo cartazes.\u201d Vejam voc\u00eas que a abordagem acima n\u00e3o se relaciona com a \u00e9poca da Inquisi\u00e7\u00e3o ou de antes da Revolu\u00e7\u00e3o francesa. Custa crer que tudo isso se passou h\u00e1 cinquenta anos, um corte de nada para a hist\u00f3ria de qualquer pa\u00eds ou na\u00e7\u00e3o, com burocras semianalfabetos sendo pagos para a\u00e7ambarcar fun\u00e7\u00f5es exclusivas do p\u00fablico espectador, o verdadeiro e leg\u00edtimo jurado, e dos profissionais atuantes na \u00e1rea, destacadamente no caso os dramaturgos e os diretores teatrais. E como se reagia a tal barbaridade? Nosso narrador nos conta. \u201cPara driblar essa \u2018forte marca\u00e7\u00e3o\u2019 da censura v\u00e1rios artif\u00edcios foram desenvolvidos como met\u00e1foras ou frases com duplo sentido, obrigando os artistas a um esfor\u00e7o extra para transmitir a mensagem desejada aos espectadores. A atriz Marisa Castro diz que \u2018como a gente era muito censurado, nada podia falar ou se dizer. A gente tinha que se virar para criar nuances, para criar detalhezinhos que passassem sutilmente para a plat\u00e9ia, e que a censura n\u00e3o percebesse, era um surto de cria\u00e7\u00e3o, uma loucura.\u2019 Havia truques ainda como o apelidado \u2018boi de piranha\u2019, que consistia em colocar no\u00a0 texto original frases e palavr\u00f5es que causariam um maior impacto \u00e0 vista dos censores e que deveriam ser cortadas. Isso buscava desviar a aten\u00e7\u00e3o desses censores de cenas importantes do texto original, desse modo v\u00e1rias cenas que poderiam ser cortadas eram mantidas. Com o passar do tempo foram mudando as imposi\u00e7\u00f5es e limites da censura. O jornalista Kido Guerra (falecido em 2009, eu tristemente acrescento) que atuou no teatro de Bras\u00edlia no final da d\u00e9cada de 1970 e na d\u00e9cada de 1980 relata que nessa \u00e9poca \u2018a censura era como voc\u00ea acertar a luz; fazia parte do contexto do espet\u00e1culo, a gente convivia com aquilo como: &#8211; Bom, vamos acertar os refletores, para o ensaio geral, e o outro: &#8211; \u00d3! Vamos l\u00e1 na censura, porque vai ter o ensaio geral com a censura, vamos liberar o espet\u00e1culo.\u2019\u201d Me cabe concluir esta postagem via reprodu\u00e7\u00e3o dos itens finais do Elieser Faleiros de Carvalho. 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