{"id":15973,"date":"2023-02-14T23:23:48","date_gmt":"2023-02-15T02:23:48","guid":{"rendered":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/?p=15973"},"modified":"2023-02-15T16:31:19","modified_gmt":"2023-02-15T19:31:19","slug":"memorias-memorialistas-lxxix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxix\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXIX)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>O amor tem predile\u00e7\u00e3o por destruir as almas intensas porque sua queda \u00e9 sempre mais bela. E toda alma destru\u00edda pelo amor se torna, ao final, bela.<\/em><br>&#8211; Luiz Felipe Pond\u00e9 &#8211;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color\" style=\"color:#00629a\">Na \u00faltima postagem dentro deste t\u00f3pico (n\u00famero 353, em agosto 2022), retratei cena pol\u00edtica ventilada no volume 4 das mem\u00f3rias do Pedro Nava, tendo me comprometido em trazer mais outros tr\u00eas epis\u00f3dios versando sobre o mesmo tema. Reincido no quarto tomo,&nbsp;<em>Beira-mar<\/em>. Quebro todavia minha promessa. A atual situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, geradora de \u00f3dios e paranoias, de efervesc\u00eancia generalizada, demanda aprofundamento nas abordagens, nas an\u00e1lises, nos ensaios, nas interpreta\u00e7\u00f5es. Como em jogos de baralho, passo e abro m\u00e3o de participar da rodada. &nbsp;E nesse passo opto por convocar o Zel\u00e3o, figura visceral, real\u00e7ada de quando em vez pelo Nava em sua obra memorial\u00edstica magistral e que j\u00e1 apareceu neste&nbsp;<em>blog<\/em>&nbsp;em apontamentos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c(&#8230;) O Radium fora, cronologicamente, o \u00faltimo cabar\u00e9 aberto naqueles tempos (&#8230;). Era numa loja, com portas de a\u00e7o que levantadas davam entrada a um vasto sal\u00e3o oculto, a quem passava, por florido biombo. Dentro as mesinhas dispostas em torno \u00e0 pista de dan\u00e7as. A orquestra ao fundo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNunca mais pude esquecer do Radium pois l\u00e1 \u00e9 que o Zeg\u00e3o descobriu e enrabichou-se pela paraibana Genomisa \u2013 que explicava sempre seu nome feito dum peda\u00e7o materno de Genoveva e doutro paterno de Misael. De l\u00e1 sa\u00edram os dois juntos, depois de uma noite de tangos (&#8230;). Seguiram entrela\u00e7ados pela Avenida do Com\u00e9rcio e dobraram em S\u00e3o Paulo onde tinha cama a deleit\u00e1vel morena \u2013 mistura de \u00edndio, negro e sangue branco. Resultara aquela perfei\u00e7\u00e3o cor de cobre e com reflexos do mesmo metal no cabelo ainda bem mastigado. Quando entraram no quartinho limpo, cheirando a funcho e alfazema, Genomisa perguntou. Voc\u00ea veio pra estar? Ou pra ficar? A resposta veio acesa. Vam\u2019estar, bem e depois a gente v\u00ea se \u00e9 para ficar.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color\" style=\"color:#00629a\">O trecho acima subsistir\u00e1 infenso a julgamentos, n\u00e3o se discutir\u00e1 aqui quem tem raz\u00e3o na tomada de atitude, a turma da cobran\u00e7a (ela) ou as hostes da estrat\u00e9gia de despiste (ele). No detalhe marcharei com os isent\u00f5es e as isentonas nas quebradas da Belo Horizonte dos anos 20 do s\u00e9culo passado. A narra\u00e7\u00e3o se complementar\u00e1 jungida a \u201cfotografias\u201d, nas quais o her\u00f3i e a hero\u00edna ritualisticamente se disp\u00f5em ao centro do leito num indefect\u00edvel am\u00e1lgama para deleite de&nbsp;<em>voyers<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cA\u00ed ela foi tomando e arrumando as pe\u00e7as de roupa que o mo\u00e7o ia tirando e quando ele espichou sua nudez magra na cama ela foi a uma prateleira, virou de costas as imagens de S\u00e3o Jorge, de S\u00e3o Roque, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, da Virgem e deixou acesa s\u00f3 a l\u00e2mpada vermelha da cabeceira e come\u00e7ou a despir-se. Pendurou escrupulosamente seu vestido, o corpinho, a saia do bordel. Voltou lavada e ainda toda molhada e fresca do chuveiro, cheirando a sabonete e a dentifr\u00edcio. Jogou o roup\u00e3o, pegou uma toalha tamb\u00e9m. Sua cor castanha, morena, quase branca, foi\u00a0<\/em>mutada<em>\u00a0pela luz vermelha num cobre, num coral, num cin\u00e1brio \u2013 como se toda sua dona tivesse sido passada a realgar ou ao vermelh\u00e3o de antim\u00f4nio. Parecia sangrar pela boca escura onde cintilavam rosados claros de dentes, pelas aur\u00e9olas e bicos pontudos dos seios pequeninos e muito altos. Era enxuta e deitada ao comprido e de costas tran\u00e7ou as duas m\u00e3os na nuca. O mo\u00e7o levantou-se num cotovelo e olhou do sinciput aos artelhos aos p\u00e9s \u00e0 ponta dos dedos daquela paisagem prodigiosa. Toda ela vibrava e brilhava como est\u00e1tua de vermeil polido onde apareciam tr\u00eas manchas cor de sassafr\u00e1s.\u00a0 Duas no alto, onde os axelhos divididos ao meio por separa\u00e7\u00e3o risca natural mandavam uma asa em dire\u00e7\u00e3o ao bra\u00e7o e outra em dire\u00e7\u00e3o ao tronco. Duas borboletas parecendo bater de leve a cada movimento da respira\u00e7\u00e3o. A terceira era um tri\u00e2ngulo de base larga indo de ponta a ponta ao ponto mais alto de cada dobra da virilha. O v\u00e9rtice perdia-se embaixo, no negativo do triedro coxa ventre coxa. Esta e a outra \u2013 as coxas \u2013 alteavam-se na parte anterior, bem no encontro tronco e a sali\u00eancia que faziam neste ponto e o vazado de mais para baixo davam a impress\u00e3o dos sustent\u00e1culos que estilizam em termina\u00e7\u00e3o de sereias os torsos das cari\u00e1tides barrocas como as que\u00a0<\/em>ag\u00fcentam<em>, perto do coro, na Matriz do Carmo de Sabar\u00e1.\u201d<\/em><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-1024x728.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15975\" width=\"633\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-1024x728.jpeg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-300x213.jpeg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-768x546.jpeg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-1536x1091.jpeg 1536w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-2048x1455.jpeg 2048w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/358cabare_AdobeStock_329400958-1140x810.jpeg 1140w\" sizes=\"(max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-color\" style=\"color:#00629a\">Por evidente, o \u201cmutada\u201d ali em cima se refere a transforma\u00e7\u00e3o visual, a mudan\u00e7a est\u00e9tica, e n\u00e3o a outro significado que se lhe emprestam os dias de hoje. O microfone do casal arrosta o mute, emite berros, vozes guturais, decerto lassid\u00e3o a caminho &#8211; mas ainda&nbsp;muito distante de&nbsp;rematar a&nbsp;cena caliente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cO Zeg\u00e3o, concentrado nos olhos, devorava com eles a carne que se esticava junto \u00e0 sua. Mas Genomisa virava a boca, abria a boca, mostrando a ponta da l\u00edngua como a ponta de uma cabe\u00e7a de cobra, e tudo na boca era escuro exceto os dentes afastados na frente, fazendo uma greta entre os primeiros incisivos. Boca de mulher sem vergonha \u2013 pensou meu amigo, estendendo m\u00e3o s\u00e1bia que logo emaranhou-se em moita cerrada e basta \u2013 macia como seda. Eu era o confidente e por ele soube das proezas que a paraibana em brasa lhe inspirou e de que compartia aos urros \u2013 espumando, rangendo dentes, estalando juntas com a bacia levitada corpo arcobotado e fazendo plano inclinado de que ele s\u00f3 n\u00e3o despencara porque \u2013 dizia \u2013 era bom de montaria. Al\u00e9m do mais ela era dotada da prenda de ter chupeta. O encontro dos dois parecia uma luta, um pugilato, uma peleja, uma viol\u00eancia cheia de regougos e gemidos. Imitava um assassinato. Subitamente ele estacou a fundo e s\u00f3 ela, apenas ela, continuou num tremor no princ\u00edpio de asa de beija-flor e depois diminuindo e morrendo que nem tatalar de borboleta fincada pelo pont\u00e3o de a\u00e7o do colecionador. Mas renasceram em folha, novos e rindo um para outro contentes de sua juventude e da consci\u00eancia dos acordes que um poderia tirar do instrumento fant\u00e1stico do corpo do outro. Lavaram-se sem nenhuma vergonha de muito se olharem at\u00e9 rindo mais e curiosos das posi\u00e7\u00f5es que tomavam ao som de \u00e1guas jorrando jarros baldes bacia de \u00e1gate batendo tinindo. Sentiram fome de prote\u00ednas e foram ao bife com ovos num escuro boteco da esquina de S\u00e3o Paulo e Guaicurus e encolhidos um contra o outro, ouviram por\u00e7\u00e3o de tempo a vitrola raspante com a voz de Estef\u00e2nia Macedo cantando as musguinhas lindas de Haekel Tavares. Purificados voltaram. Abriram o quarto e o cheiro deles como um flagrante deles pr\u00f3prios recolocou-os nus deitados se olhando com seriedade dram\u00e1tica. Um deus desceu e come\u00e7aram pesquisas de uma do\u00e7ura t\u00e3o aguda que do\u00eda. Que era ardente e seca como areias nos olhos. Foram at\u00e9 o fim de seus fins, onde acaba o mundo, a car\u00edcia se confunde com a sev\u00edcia e come\u00e7am as pedras dos desertos das sesmarias do Marques de Sade e do Cavaleiro Sacher-Masoch&#8230;\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color\" style=\"color:#00629a\">Como se l\u00ea, como se v\u00ea nas palavras v\u00edvidas do memorialista -, a paix\u00e3o do Zeg\u00e3o pela Genomisa vai descrita pelo escritor mineiro numa pegada encontradi\u00e7a na obra do mais c\u00e9lebre escritor baiano, se n\u00e3o pela forma, pelo sobrenome do pai da Tieta. Por isso que o amigo personagem do livra\u00e7o do Nava, inebriado ainda pelo fulgor daqueles dias na casa de toler\u00e2ncia belohorizontina, se houve com sofrimento no findar de seu enrosco com a prostituta, evadida por fiel \u00e0 digna profiss\u00e3o de servir ao coletivo, nada de monogamia. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cAquele rabicho envultou o Zeg\u00e3o m\u00eas inteiro em que ele largou tudo \u2013 emprego e faculdade \u2013 para passar o dia e a noite incrustado na zona. Ela acordava-o de manh\u00e3, j\u00e1 lavada, um len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a, fresca, olorosa, decente, laboriosa e pudibunda como se n\u00e3o fosse a parceira do que se passara de explora\u00e7\u00f5es t\u00e1cteis e orais na carne cavidades pontas de carne latejante em cima daquela cama. Agora, bem, voc\u00ea queu vou buscar o caf\u00e9 doc\u00ea. Ia. Tomava a x\u00edcara, bebia. Levantava-se. Metia o p\u00e9 na rua. Pensava vagamente nas coisas e no que via porque n\u00e3o conseguia se fixar em nenhum ponto do espa\u00e7o e do tempo logo invadido por analogias de outras \u00e9pocas outros lugares. Ubiquava-se. A inseguran\u00e7a total fazia-o desistir das aulas e voltar para a rua S\u00e3o Paulo onde no quarto limpo, mudado e arejado, a puta laboriosa bordava e cosia. De volta? Bem. Tava mesmo tesperando. Sabia&#8230; Foi assim m\u00eas inteiro at\u00e9 que o Zeg\u00e3o um dia, ao retornar, n\u00e3o encontrou mais a Genomisa. Sa\u00edra com a mala \u2013 disse a dona da casa \u2013 parece que foi pra Rosa. O Zeg\u00e3o correu \u00e0 Rosa. Nada. A paraibana sovertera. De raiva, aquele porre de vomitar lavar tudo e coisa estranha! ao acordar sentia s\u00f3 a ressaca e nenhuma dor de corno. Pensa que pensa e ele concluiu que era mesmo drogado todas as manh\u00e3s naquele cafezinho. Foi tamb\u00e9m a opini\u00e3o de meu tio, o Nelo, quando lhe repetimos o caso. Ele ouvia as confid\u00eancias atento, olho invejoso \u2013 tratando o Zeg\u00e3o carinhosamente de&nbsp;<\/em>mascalzone<em>, de&nbsp;<\/em>furfante<em>.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pedro_Nava\">#Pedro Nava<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Beira-Mar_(livro)\">#Beira-Mar<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Luiz_Felipe_Pond%C3%A9\">#Luiz Felipe Pond\u00e9<\/a><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">14\/02\/2023<br>(358)<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor tem predile\u00e7\u00e3o por destruir as almas intensas porque sua queda \u00e9 sempre mais bela. E toda alma destru\u00edda pelo amor se torna, ao final, bela.&#8211; Luiz Felipe Pond\u00e9 &#8211; Na \u00faltima postagem dentro deste t\u00f3pico (n\u00famero 353, em agosto 2022), retratei cena pol\u00edtica ventilada no volume 4 das mem\u00f3rias do Pedro Nava, tendo me comprometido em trazer mais outros tr\u00eas epis\u00f3dios versando sobre o mesmo tema. Reincido no quarto tomo,&nbsp;Beira-mar. Quebro todavia minha promessa. A atual situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, geradora de \u00f3dios e paranoias, de efervesc\u00eancia generalizada, demanda aprofundamento nas abordagens, nas an\u00e1lises, nos ensaios, nas interpreta\u00e7\u00f5es. Como em jogos de baralho, passo e abro m\u00e3o de participar da rodada. &nbsp;E nesse passo opto por convocar o Zel\u00e3o, figura visceral, real\u00e7ada de quando em vez pelo Nava em sua obra memorial\u00edstica magistral e que j\u00e1 apareceu neste&nbsp;blog&nbsp;em apontamentos anteriores. \u201c(&#8230;) O Radium fora, cronologicamente, o \u00faltimo cabar\u00e9 aberto naqueles tempos (&#8230;). Era numa loja, com portas de a\u00e7o que levantadas davam entrada a um vasto sal\u00e3o oculto, a quem passava, por florido biombo. Dentro as mesinhas dispostas em torno \u00e0 pista de dan\u00e7as. A orquestra ao fundo. \u201cNunca mais pude esquecer do Radium pois l\u00e1 \u00e9 que o Zeg\u00e3o descobriu e enrabichou-se pela paraibana Genomisa \u2013 que explicava sempre seu nome feito dum peda\u00e7o materno de Genoveva e doutro paterno de Misael. De l\u00e1 sa\u00edram os dois juntos, depois de uma noite de tangos (&#8230;). Seguiram entrela\u00e7ados pela Avenida do Com\u00e9rcio e dobraram em S\u00e3o Paulo onde tinha cama a deleit\u00e1vel morena \u2013 mistura de \u00edndio, negro e sangue branco. Resultara aquela perfei\u00e7\u00e3o cor de cobre e com reflexos do mesmo metal no cabelo ainda bem mastigado. Quando entraram no quartinho limpo, cheirando a funcho e alfazema, Genomisa perguntou. Voc\u00ea veio pra estar? Ou pra ficar? A resposta veio acesa. Vam\u2019estar, bem e depois a gente v\u00ea se \u00e9 para ficar.\u201d O trecho acima subsistir\u00e1 infenso a julgamentos, n\u00e3o se discutir\u00e1 aqui quem tem raz\u00e3o na tomada de atitude, a turma da cobran\u00e7a (ela) ou as hostes da estrat\u00e9gia de despiste (ele). No detalhe marcharei com os isent\u00f5es e as isentonas nas quebradas da Belo Horizonte dos anos 20 do s\u00e9culo passado. A narra\u00e7\u00e3o se complementar\u00e1 jungida a \u201cfotografias\u201d, nas quais o her\u00f3i e a hero\u00edna ritualisticamente se disp\u00f5em ao centro do leito num indefect\u00edvel am\u00e1lgama para deleite de&nbsp;voyers. \u201cA\u00ed ela foi tomando e arrumando as pe\u00e7as de roupa que o mo\u00e7o ia tirando e quando ele espichou sua nudez magra na cama ela foi a uma prateleira, virou de costas as imagens de S\u00e3o Jorge, de S\u00e3o Roque, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, da Virgem e deixou acesa s\u00f3 a l\u00e2mpada vermelha da cabeceira e come\u00e7ou a despir-se. Pendurou escrupulosamente seu vestido, o corpinho, a saia do bordel. Voltou lavada e ainda toda molhada e fresca do chuveiro, cheirando a sabonete e a dentifr\u00edcio. Jogou o roup\u00e3o, pegou uma toalha tamb\u00e9m. Sua cor castanha, morena, quase branca, foi\u00a0mutada\u00a0pela luz vermelha num cobre, num coral, num cin\u00e1brio \u2013 como se toda sua dona tivesse sido passada a realgar ou ao vermelh\u00e3o de antim\u00f4nio. Parecia sangrar pela boca escura onde cintilavam rosados claros de dentes, pelas aur\u00e9olas e bicos pontudos dos seios pequeninos e muito altos. Era enxuta e deitada ao comprido e de costas tran\u00e7ou as duas m\u00e3os na nuca. O mo\u00e7o levantou-se num cotovelo e olhou do sinciput aos artelhos aos p\u00e9s \u00e0 ponta dos dedos daquela paisagem prodigiosa. Toda ela vibrava e brilhava como est\u00e1tua de vermeil polido onde apareciam tr\u00eas manchas cor de sassafr\u00e1s.\u00a0 Duas no alto, onde os axelhos divididos ao meio por separa\u00e7\u00e3o risca natural mandavam uma asa em dire\u00e7\u00e3o ao bra\u00e7o e outra em dire\u00e7\u00e3o ao tronco. Duas borboletas parecendo bater de leve a cada movimento da respira\u00e7\u00e3o. A terceira era um tri\u00e2ngulo de base larga indo de ponta a ponta ao ponto mais alto de cada dobra da virilha. O v\u00e9rtice perdia-se embaixo, no negativo do triedro coxa ventre coxa. Esta e a outra \u2013 as coxas \u2013 alteavam-se na parte anterior, bem no encontro tronco e a sali\u00eancia que faziam neste ponto e o vazado de mais para baixo davam a impress\u00e3o dos sustent\u00e1culos que estilizam em termina\u00e7\u00e3o de sereias os torsos das cari\u00e1tides barrocas como as que\u00a0ag\u00fcentam, perto do coro, na Matriz do Carmo de Sabar\u00e1.\u201d Por evidente, o \u201cmutada\u201d ali em cima se refere a transforma\u00e7\u00e3o visual, a mudan\u00e7a est\u00e9tica, e n\u00e3o a outro significado que se lhe emprestam os dias de hoje. O microfone do casal arrosta o mute, emite berros, vozes guturais, decerto lassid\u00e3o a caminho &#8211; mas ainda&nbsp;muito distante de&nbsp;rematar a&nbsp;cena caliente. \u201cO Zeg\u00e3o, concentrado nos olhos, devorava com eles a carne que se esticava junto \u00e0 sua. Mas Genomisa virava a boca, abria a boca, mostrando a ponta da l\u00edngua como a ponta de uma cabe\u00e7a de cobra, e tudo na boca era escuro exceto os dentes afastados na frente, fazendo uma greta entre os primeiros incisivos. Boca de mulher sem vergonha \u2013 pensou meu amigo, estendendo m\u00e3o s\u00e1bia que logo emaranhou-se em moita cerrada e basta \u2013 macia como seda. Eu era o confidente e por ele soube das proezas que a paraibana em brasa lhe inspirou e de que compartia aos urros \u2013 espumando, rangendo dentes, estalando juntas com a bacia levitada corpo arcobotado e fazendo plano inclinado de que ele s\u00f3 n\u00e3o despencara porque \u2013 dizia \u2013 era bom de montaria. 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Sentiram fome de prote\u00ednas e foram ao bife com ovos num escuro boteco da esquina de S\u00e3o Paulo e Guaicurus e encolhidos um contra o outro, ouviram por\u00e7\u00e3o de tempo a vitrola raspante com a voz de Estef\u00e2nia Macedo cantando as musguinhas lindas de Haekel Tavares. Purificados voltaram. Abriram o quarto e o cheiro deles como um flagrante deles pr\u00f3prios recolocou-os nus deitados se olhando com seriedade dram\u00e1tica. Um deus desceu e come\u00e7aram pesquisas de uma do\u00e7ura t\u00e3o aguda que do\u00eda. Que era ardente e seca como areias nos olhos. Foram at\u00e9 o fim de seus fins, onde acaba o mundo, a car\u00edcia se confunde com a sev\u00edcia e come\u00e7am as pedras dos desertos das sesmarias do Marques de Sade e do Cavaleiro Sacher-Masoch&#8230;\u201d Como se l\u00ea, como se v\u00ea nas palavras v\u00edvidas do memorialista -, a paix\u00e3o do Zeg\u00e3o pela Genomisa vai descrita pelo escritor mineiro numa pegada encontradi\u00e7a na obra do mais c\u00e9lebre escritor baiano, se n\u00e3o pela forma, pelo sobrenome do pai da Tieta. Por isso que o amigo personagem do livra\u00e7o do Nava, inebriado ainda pelo fulgor daqueles dias na casa de toler\u00e2ncia belohorizontina, se houve com sofrimento no findar de seu enrosco com a prostituta, evadida por fiel \u00e0 digna profiss\u00e3o de servir ao coletivo, nada de monogamia. &nbsp; \u201cAquele rabicho envultou o Zeg\u00e3o m\u00eas inteiro em que ele largou tudo \u2013 emprego e faculdade \u2013 para passar o dia e a noite incrustado na zona. Ela acordava-o de manh\u00e3, j\u00e1 lavada, um len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a, fresca, olorosa, decente, laboriosa e pudibunda como se n\u00e3o fosse a parceira do que se passara de explora\u00e7\u00f5es t\u00e1cteis e orais na carne cavidades pontas de carne latejante em cima daquela cama. Agora, bem, voc\u00ea queu vou buscar o caf\u00e9 doc\u00ea. Ia. Tomava a x\u00edcara, bebia. Levantava-se. Metia o p\u00e9 na rua. Pensava vagamente nas coisas e no que via porque n\u00e3o conseguia se fixar em nenhum ponto do espa\u00e7o e do tempo logo invadido por analogias de outras \u00e9pocas outros lugares. Ubiquava-se. A inseguran\u00e7a total fazia-o desistir das aulas e voltar para a rua S\u00e3o Paulo onde no quarto limpo, mudado e arejado, a puta laboriosa bordava e cosia. De volta? Bem. Tava mesmo tesperando. Sabia&#8230; Foi assim m\u00eas inteiro at\u00e9 que o Zeg\u00e3o um dia, ao retornar, n\u00e3o encontrou mais a Genomisa. Sa\u00edra com a mala \u2013 disse a dona da casa \u2013 parece que foi pra Rosa. O Zeg\u00e3o correu \u00e0 Rosa. Nada. A paraibana sovertera. De raiva, aquele porre de vomitar lavar tudo e coisa estranha! ao acordar sentia s\u00f3 a ressaca e nenhuma dor de corno. Pensa que pensa e ele concluiu que era mesmo drogado todas as manh\u00e3s naquele cafezinho. Foi tamb\u00e9m a opini\u00e3o de meu tio, o Nelo, quando lhe repetimos o caso. Ele ouvia as confid\u00eancias atento, olho invejoso \u2013 tratando o Zeg\u00e3o carinhosamente de&nbsp;mascalzone, de&nbsp;furfante.\u201d #Pedro Nava#Beira-Mar#Luiz Felipe Pond\u00e9 14\/02\/2023(358)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15982,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15973","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15973"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15973\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15985,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15973\/revisions\/15985"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15982"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}