{"id":16296,"date":"2024-08-18T20:10:20","date_gmt":"2024-08-18T23:10:20","guid":{"rendered":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/?p=16296"},"modified":"2024-08-18T22:08:05","modified_gmt":"2024-08-19T01:08:05","slug":"memorias-memorialistas-lxxxv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxxv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXXV)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>(&#8230;) o rito da morte concentra e compacta toda uma vida, num momento \u00fanico. E o luto transcende o rito. \u00c9 que a admira\u00e7\u00e3o e o afeto continuam existindo, apesar da perda f\u00edsica.<\/em><br><em>&#8211; Luiz Carlos Azedo&nbsp;&#8211;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-49d48b079df01945ad48173aee986672\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">J\u00e1 distante e um pouco cansado das mat\u00e9rias jornal\u00edsticas sobre as Olimp\u00edadas &#8211; merit\u00f3rias pelo que real\u00e7aram de bom e evolutivo (vit\u00f3rias das mulheres em todos os aspectos) -, volto a me esconder no&nbsp;<em>blog<\/em>&nbsp;do Teatro Mapati para &#8220;roubar&#8221; em sequ\u00eancia&nbsp;mais trechos de livro do Pedro Nava. M\u00e9dico e escritor, o maior memorialista do Brasil, que, sessent\u00e3o\/setent\u00e3o, nos presenteou com sua hist\u00f3ria vivida aboletado nas ambul\u00e2ncias e pontificando nas cl\u00ednicas e hospitais do sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-d19b525f869497e89a17d95c7a2fd332\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Ainda sobrevoo sem gelo nas asas o quarto volume,&nbsp;<em>Beira-Mar<\/em>, das Minas Gerais para o Rio de Janeiro, tantas vezes aqui evocado, assim como os tr\u00eas tomos antecedentes. Reluto em larg\u00e1-lo e devolv\u00ea-lo \u00e0 estante no cumprimento de minha miss\u00e3o autodelegada de extrair trechos relacionados com a Medicina, sabendo que essa transposi\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>per se<\/em>&nbsp;desvela alta literatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-6f760a9671b321d2445ee69e3c08560d\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">O Nava fala da beleza e da for\u00e7a do corpo humano (de novo, as Olimp\u00edadas e os\/as atletas participantes), da jovialidade estampada no f\u00edsico que se vai transmudando por for\u00e7a da degeneresc\u00eancia, com os m\u00e9dicos e m\u00e9dicas a tudo assistindo na fila do gargarejo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;Mas fant\u00e1stico na vida do m\u00e9dico \u00e9 o que ele vai tirando da experi\u00eancia adquirida dia a dia na explora\u00e7\u00e3o dessa coisa prodigiosa que \u00e9 o corpo humano. Ele \u00e9 sempre admir\u00e1vel. Admir\u00e1vel no crescimento, no milagre da adolesc\u00eancia, na sa\u00fade plena e na euritmia da idade madura, da vida em sua pujan\u00e7a, seu transbordamento na reprodu\u00e7\u00e3o. Igualmente admir\u00e1vel na impot\u00eancia, nos desequil\u00edbrios da velhice, na senectude, na cacoquimia, na doen\u00e7a, na desagrega\u00e7\u00e3o e na morte. Tudo isto tem harmonias correlatas e depende de trabalho t\u00e3o complexo para criar, como para destruir, para fazer a vida e fabricar a morte. Temos de reconhecer essas for\u00e7as da natureza e delas tirar nossa filosofia m\u00e9dica e nossa li\u00e7\u00e3o de mod\u00e9stia. Cedo compreendi que n\u00f3s, doutores, podemos, quando muito, alterar e modificar a vida pelo ferro cir\u00fargico e pelo veneno rem\u00e9dio (&#8230;). O grande equ\u00edvoco de todos &#8211; doentes e m\u00e9dicos &#8211; \u00e9 julgar que prolongando a vida por altera\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es, estamos combatendo a Morte. Jamais. Tanto quanto imbat\u00edvel ela \u00e9 incombat\u00edvel. Prova: s\u00f3 ampliamos vida que existe. Em seu lugar, n\u00e3o temos o poder de colocar mais nada porque na medida em que ela se retrai, diminui e bate em retirada, cada mil\u00edmetro \u00e9 conquistado implacavelmente pela Morte Triunfante. \u00c9 in\u00fatil pensar o contr\u00e1rio.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"457\" src=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-1024x457.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16302\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-1024x457.jpeg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-300x134.jpeg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-768x343.jpeg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-1536x686.jpeg 1536w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-2048x915.jpeg 2048w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/370_AdobeStock_763622502orig-1-1140x509.jpeg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-e573694be67d01076d71e75aad65f909\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-69e458739e195048bc3ca3519b28712d\" style=\"color:#0e6fa7\">O fatalismo biol\u00f3gico vem de modo sutil, ou n\u00e3o, envelopado com matizes filos\u00f3ficos. Ao ver do autor, momentos sublimes s\u00e3o no mesmo grau o nascimento e a morte, malgrado essa segunda e \u00faltima etapa, um direito adquirido que n\u00e3o carece de ditame constitucional para vigorar, da\u00ed por que, senhoras e senhores juristas, ser mais poderoso e eficaz do que a coisa julgada e o ato jur\u00eddico perfeito. Num paradoxo e sem trocadilho,\u00a0 ele, o direito adquirido (\u00e0 morte), sobreexistir\u00e1 acompanhando o indiv\u00edduo, sob a perspectiva do espiritismo, no m\u00ednimo at\u00e9 a sua reencarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;O que temos \u00e9 de nos convencer que o homem, de tanto viver, que o doente, de tanto padecer &#8211; adquirem o direito \u00e0 morte t\u00e3o respeit\u00e1vel como o direito \u00e0 vida por parte de quem nasceu. Por mim mesmo em me penetrava dessas verdades vendo o p\u00e1tio dos milagres terr\u00edvel de nossa enfermaria. Velhas megeras que a caquexia terminava de esculpir em forma de esqueletos revestidos de pelanca, corpos monstruosamente alterados pela infec\u00e7\u00e3o, pela mar\u00e9 montante dos edemas e dos derrames cavit\u00e1rios ou comidos em vida at\u00e9 sua \u00faltima migalha pelo trabalho fabuloso dos c\u00e2nceres. Admir\u00e1veis caras azuis de asfixias, gessadas das anemias, rub\u00ednicas, flav\u00ednicas e verd\u00ednicas das icter\u00edcias, grenais da hipertens\u00e3o, balofas das anasarcas hidropesias; olhos incertos de ur\u00eamicos, porcelana das escler\u00f3ticas dos vermin\u00f3ticos, pupilas incandescentes dos febricitantes, envesgamento dos mening\u00edticos, comissuras sard\u00f4nicas da boca dos tet\u00e2nicos; peles \u00e1ridas da subida das febres, molhadas das crises de devervesc\u00eancia&#8230; como vos conhecia e como eu pasmava da extrema complexidade de vossa fabrica\u00e7\u00e3o (&#8230;). Aqui e al\u00e9m um resto beleza como o rastro da passagem dum Deus sugerindo que ali n\u00e3o estavam s\u00f3 doentes mas mulheres tamb\u00e9m.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-0a5fe4e099c9810f46c1ca5d4aefc020\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">No pr\u00f3ximo trecho que destaco, aflora pergunta que n\u00e3o quer calar: o que aconteceria com o Nava nos dias de hoje ap\u00f3s tais observa\u00e7\u00f5es? Seria cancelado por certa misogenia? Num rasgo freudiano, ele por acaso teria tachado a paciente de hist\u00e9rica? De ninfoman\u00edaca?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;Lembro da fe\u00e9rica e maldita da cama ao fundo (primeira \u00e0 direita de quem entrava) bela como as est\u00e1tuas, cabe\u00e7a divina, tronco divino, mas ah! figura dupla acabando, embaixo, no monstro pernibambo, pernas paral\u00edticas atrofiadas pelo Heine-Medin. Lembro seus olhos imensos que pediam, na face perfeita, seu olhar fixo que perturbava os internos que iam examin\u00e1-lo e que mal se aproximavam de seu catre que ela deitava, abria a camisa despindo seios soberbos e empurrava o c\u00f3s da saia fazendo aparecer o ventre de m\u00e1rmore e o princ\u00edpio de uma linha negra &#8211; base do tri\u00e2ngulo de p\u00ealos cintilantes. Riscos de nanquim num fundo de alabastro. Ningu\u00e9m podia examin\u00e1-la calmamente e senhor de si de tal maneira ela palpitava, estremecia toda, arfava, encarava e se ro\u00e7ava &#8211; a um tempo radiosa e abjeta, inquieta e inquietante, aflita e aflitiva (&#8230;). Logo a Irm\u00e3 Salesia rastreou aquela coisa cheia de furor e sempre que a menina e mo\u00e7a ia ser visitada por m\u00e9dico ou interno ela, Irm\u00e3, tinha logo alguma coisa a fazer &#8211; inje\u00e7\u00e3o, curativo, vermina a combater, temperatura a tomar na doente do leito ao lado.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-4e20ce30530de1f892bacee708ae0189\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">E dou por encerrada esta postagem que j\u00e1 vai longa &#8211; n\u00e3o por \u00f3bvio em decorr\u00eancia dos brutalistas e ao mesmo tempo afetuosos escritos do Pedro Nava. Como sempre, meus par\u00e1grafos lavrados a t\u00edtulo de encadeamento restam com a \u00fanica incumb\u00eancia de permitir apresentar, aos(\u00e0s) eventuais leitores(as) deste&nbsp;<em>blog<\/em>, a obra genial do memorialista em que procuro n\u00e3o arranhar a legisla\u00e7\u00e3o dos direitos autorais. Dito isso, saliento e admiro o reconhecimento e a homenagem do memorialista aos(\u00e0s) seus colegas do jaleco branco quando narra, nos idos de 1978 (ano no qual o livro saiu do prelo), as vicissitudes da vida profissional dos(as) colegas m\u00e9dicos e m\u00e9dicas basicamente durante a primeira metade do s\u00e9culo XX.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;Meus\u00a0sentidos em tens\u00e3o permanente para surpreender a Mol\u00e9stia desenvolviam-se sempre mais. Para olhar, vendo. Para escutar, ouvindo. Para tocar, adivinhando. Para servir a OBSERVA\u00c7\u00c3O at\u00e9 o nariz adquiria arg\u00facias de faro. J\u00e1 n\u00e3o falo do bafo de putrefa\u00e7\u00e3o em vida que subia das mi\u00edases e gangrenas e nomas. Mas de pontas que sa\u00edam de dentro da morrinha geral da enfermaria: odor de violeta e vinagre dos diab\u00e9ticos entrando em coma; de coalhada fecal\u00f3ide dos tifentos; de alho, do reumatismo poliarticular agudo. Quantas vezes me destes um diagn\u00f3stico de imediato que s\u00f3 tornava o exame necess\u00e1rio para confirmar e ficar dentro da regra do jogo. A regra do jogo&#8230; era n\u00e3o perd\u00ea-lo e n\u00e3o se deixar enganar pela Mol\u00e9stia que se escondia e desafiava. Olho atento, ouvido agudo, nariz perdigueiro, tato arrombador &#8211; eu ficava como que atuado naquelas horas de enfermaria com minha aten\u00e7\u00e3o afinada afiada ao fino fio dos violinos levados ao paroxismo. Eu me sentia como um bojo ressoante, uma caixa ac\u00fastica, um aparelho de capta\u00e7\u00e3o sensibil\u00edssimo quando me media com a Doen\u00e7a herc\u00falea entaipada no corpo fraco dos doentes. E olhava bem em roda como quem quer tomar posse de terra desconhecida e sente-se cercado de embustes. Sentia agudamente as informa\u00e7\u00f5es que me eram dadas. Pelos aparelhos de press\u00e3o cuja seta entrava de repente nas zonas de alarma onde come\u00e7a o perigo das crises hipertensivas generalizadas e localizadas seguidas de seus sequazes, a morte s\u00fabita, o icto cerebral, o \u00e2ngor p\u00e9ctoris, o edema agudo do pulm\u00e3o.\u00a0 Acompanhava a coluna dos term\u00f4metros, sua entrada na zona vermelha &#8211; 37 &#8211; 38,5 &#8211; 40 &#8211; 41 &#8211; 42 e mais e as sereias de alerta contra o bombardeio incendi\u00e1rio. Os estetosc\u00f3pios que canalizavam para meus ouvidos o ru\u00eddo de seda do estertor crepitante, as flautas de sopro tub\u00e1rio, o jazz dos galopes &#8211; que soavam em mim feito o trov\u00e3o. Eu sabia o que eles anunciavam. Ouvia e treinava em preparar a melhor cara do mundo para dizer \u00e0 condenada: n\u00e3o \u00e9 nada, minha filha, em dias voc\u00ea fica boa. Cada coisa era instrumento tocando sua partitura dentro daquele concerto de dores. Seringas, vidros de po\u00e7\u00e3o, caixa de c\u00e1psulas, camas &#8211; tudo me dava seu recado e novos olhos para minhas pobres doentes, para a paisagem da rua entrando pelas janelas da frente, a do p\u00e1tio florido onde a caixa d&#8217;\u00e1gua preta parecia gigantesco monumento funer\u00e1rio&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:20px\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pedro_Nava\">#Pedro Nava<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Beira-Mar_(livro)\">#Beira-Mar,&nbsp;volume 4<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/autor\/luiz-carlos-azedo\/page\/1\/\">#Luiz Carlos Azedo<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">18\/08\/2024<br>(370)<br><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(&#8230;) o rito da morte concentra e compacta toda uma vida, num momento \u00fanico. E o luto transcende o rito. \u00c9 que a admira\u00e7\u00e3o e o afeto continuam existindo, apesar da perda f\u00edsica.&#8211; Luiz Carlos Azedo&nbsp;&#8211; J\u00e1 distante e um pouco cansado das mat\u00e9rias jornal\u00edsticas sobre as Olimp\u00edadas &#8211; merit\u00f3rias pelo que real\u00e7aram de bom e evolutivo (vit\u00f3rias das mulheres em todos os aspectos) -, volto a me esconder no&nbsp;blog&nbsp;do Teatro Mapati para &#8220;roubar&#8221; em sequ\u00eancia&nbsp;mais trechos de livro do Pedro Nava. M\u00e9dico e escritor, o maior memorialista do Brasil, que, sessent\u00e3o\/setent\u00e3o, nos presenteou com sua hist\u00f3ria vivida aboletado nas ambul\u00e2ncias e pontificando nas cl\u00ednicas e hospitais do sudeste do pa\u00eds. Ainda sobrevoo sem gelo nas asas o quarto volume,&nbsp;Beira-Mar, das Minas Gerais para o Rio de Janeiro, tantas vezes aqui evocado, assim como os tr\u00eas tomos antecedentes. Reluto em larg\u00e1-lo e devolv\u00ea-lo \u00e0 estante no cumprimento de minha miss\u00e3o autodelegada de extrair trechos relacionados com a Medicina, sabendo que essa transposi\u00e7\u00e3o&nbsp;per se&nbsp;desvela alta literatura. O Nava fala da beleza e da for\u00e7a do corpo humano (de novo, as Olimp\u00edadas e os\/as atletas participantes), da jovialidade estampada no f\u00edsico que se vai transmudando por for\u00e7a da degeneresc\u00eancia, com os m\u00e9dicos e m\u00e9dicas a tudo assistindo na fila do gargarejo. &#8220;Mas fant\u00e1stico na vida do m\u00e9dico \u00e9 o que ele vai tirando da experi\u00eancia adquirida dia a dia na explora\u00e7\u00e3o dessa coisa prodigiosa que \u00e9 o corpo humano. Ele \u00e9 sempre admir\u00e1vel. Admir\u00e1vel no crescimento, no milagre da adolesc\u00eancia, na sa\u00fade plena e na euritmia da idade madura, da vida em sua pujan\u00e7a, seu transbordamento na reprodu\u00e7\u00e3o. Igualmente admir\u00e1vel na impot\u00eancia, nos desequil\u00edbrios da velhice, na senectude, na cacoquimia, na doen\u00e7a, na desagrega\u00e7\u00e3o e na morte. Tudo isto tem harmonias correlatas e depende de trabalho t\u00e3o complexo para criar, como para destruir, para fazer a vida e fabricar a morte. Temos de reconhecer essas for\u00e7as da natureza e delas tirar nossa filosofia m\u00e9dica e nossa li\u00e7\u00e3o de mod\u00e9stia. Cedo compreendi que n\u00f3s, doutores, podemos, quando muito, alterar e modificar a vida pelo ferro cir\u00fargico e pelo veneno rem\u00e9dio (&#8230;). O grande equ\u00edvoco de todos &#8211; doentes e m\u00e9dicos &#8211; \u00e9 julgar que prolongando a vida por altera\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es, estamos combatendo a Morte. Jamais. Tanto quanto imbat\u00edvel ela \u00e9 incombat\u00edvel. Prova: s\u00f3 ampliamos vida que existe. Em seu lugar, n\u00e3o temos o poder de colocar mais nada porque na medida em que ela se retrai, diminui e bate em retirada, cada mil\u00edmetro \u00e9 conquistado implacavelmente pela Morte Triunfante. \u00c9 in\u00fatil pensar o contr\u00e1rio.&#8221; O fatalismo biol\u00f3gico vem de modo sutil, ou n\u00e3o, envelopado com matizes filos\u00f3ficos. Ao ver do autor, momentos sublimes s\u00e3o no mesmo grau o nascimento e a morte, malgrado essa segunda e \u00faltima etapa, um direito adquirido que n\u00e3o carece de ditame constitucional para vigorar, da\u00ed por que, senhoras e senhores juristas, ser mais poderoso e eficaz do que a coisa julgada e o ato jur\u00eddico perfeito. Num paradoxo e sem trocadilho,\u00a0 ele, o direito adquirido (\u00e0 morte), sobreexistir\u00e1 acompanhando o indiv\u00edduo, sob a perspectiva do espiritismo, no m\u00ednimo at\u00e9 a sua reencarna\u00e7\u00e3o. &#8220;O que temos \u00e9 de nos convencer que o homem, de tanto viver, que o doente, de tanto padecer &#8211; adquirem o direito \u00e0 morte t\u00e3o respeit\u00e1vel como o direito \u00e0 vida por parte de quem nasceu. Por mim mesmo em me penetrava dessas verdades vendo o p\u00e1tio dos milagres terr\u00edvel de nossa enfermaria. Velhas megeras que a caquexia terminava de esculpir em forma de esqueletos revestidos de pelanca, corpos monstruosamente alterados pela infec\u00e7\u00e3o, pela mar\u00e9 montante dos edemas e dos derrames cavit\u00e1rios ou comidos em vida at\u00e9 sua \u00faltima migalha pelo trabalho fabuloso dos c\u00e2nceres. 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Num rasgo freudiano, ele por acaso teria tachado a paciente de hist\u00e9rica? De ninfoman\u00edaca? &#8220;Lembro da fe\u00e9rica e maldita da cama ao fundo (primeira \u00e0 direita de quem entrava) bela como as est\u00e1tuas, cabe\u00e7a divina, tronco divino, mas ah! figura dupla acabando, embaixo, no monstro pernibambo, pernas paral\u00edticas atrofiadas pelo Heine-Medin. Lembro seus olhos imensos que pediam, na face perfeita, seu olhar fixo que perturbava os internos que iam examin\u00e1-lo e que mal se aproximavam de seu catre que ela deitava, abria a camisa despindo seios soberbos e empurrava o c\u00f3s da saia fazendo aparecer o ventre de m\u00e1rmore e o princ\u00edpio de uma linha negra &#8211; base do tri\u00e2ngulo de p\u00ealos cintilantes. Riscos de nanquim num fundo de alabastro. Ningu\u00e9m podia examin\u00e1-la calmamente e senhor de si de tal maneira ela palpitava, estremecia toda, arfava, encarava e se ro\u00e7ava &#8211; a um tempo radiosa e abjeta, inquieta e inquietante, aflita e aflitiva (&#8230;). Logo a Irm\u00e3 Salesia rastreou aquela coisa cheia de furor e sempre que a menina e mo\u00e7a ia ser visitada por m\u00e9dico ou interno ela, Irm\u00e3, tinha logo alguma coisa a fazer &#8211; inje\u00e7\u00e3o, curativo, vermina a combater, temperatura a tomar na doente do leito ao lado.&#8221; E dou por encerrada esta postagem que j\u00e1 vai longa &#8211; n\u00e3o por \u00f3bvio em decorr\u00eancia dos brutalistas e ao mesmo tempo afetuosos escritos do Pedro Nava. Como sempre, meus par\u00e1grafos lavrados a t\u00edtulo de encadeamento restam com a \u00fanica incumb\u00eancia de permitir apresentar, aos(\u00e0s) eventuais leitores(as) deste&nbsp;blog, a obra genial do memorialista em que procuro n\u00e3o arranhar a legisla\u00e7\u00e3o dos direitos autorais. Dito isso, saliento e admiro o reconhecimento e a homenagem do memorialista aos(\u00e0s) seus colegas do jaleco branco quando narra, nos idos de 1978 (ano no qual o livro saiu do prelo), as vicissitudes da vida profissional dos(as) colegas m\u00e9dicos e m\u00e9dicas basicamente durante a primeira metade do s\u00e9culo XX.&nbsp; &#8220;Meus\u00a0sentidos em tens\u00e3o permanente para surpreender a Mol\u00e9stia desenvolviam-se sempre mais. Para olhar, vendo. Para escutar, ouvindo. Para tocar, adivinhando. Para servir a OBSERVA\u00c7\u00c3O at\u00e9 o nariz adquiria arg\u00facias de faro. J\u00e1 n\u00e3o falo do bafo de putrefa\u00e7\u00e3o em vida que subia das mi\u00edases e gangrenas e nomas. Mas de pontas que sa\u00edam de dentro da morrinha geral da enfermaria: odor de violeta e vinagre dos diab\u00e9ticos entrando em coma; de coalhada fecal\u00f3ide dos tifentos; de alho, do reumatismo poliarticular agudo. Quantas vezes me destes um diagn\u00f3stico de imediato que s\u00f3 tornava o exame necess\u00e1rio para confirmar e ficar dentro da regra do jogo. A regra do jogo&#8230; era n\u00e3o perd\u00ea-lo e n\u00e3o se deixar enganar pela Mol\u00e9stia que se escondia e desafiava. Olho atento, ouvido agudo, nariz perdigueiro, tato arrombador &#8211; eu ficava como que atuado naquelas horas de enfermaria com minha aten\u00e7\u00e3o afinada afiada ao fino fio dos violinos levados ao paroxismo. Eu me sentia como um bojo ressoante, uma caixa ac\u00fastica, um aparelho de capta\u00e7\u00e3o sensibil\u00edssimo quando me media com a Doen\u00e7a herc\u00falea entaipada no corpo fraco dos doentes. E olhava bem em roda como quem quer tomar posse de terra desconhecida e sente-se cercado de embustes. Sentia agudamente as informa\u00e7\u00f5es que me eram dadas. Pelos aparelhos de press\u00e3o cuja seta entrava de repente nas zonas de alarma onde come\u00e7a o perigo das crises hipertensivas generalizadas e localizadas seguidas de seus sequazes, a morte s\u00fabita, o icto cerebral, o \u00e2ngor p\u00e9ctoris, o edema agudo do pulm\u00e3o.\u00a0 Acompanhava a coluna dos term\u00f4metros, sua entrada na zona vermelha &#8211; 37 &#8211; 38,5 &#8211; 40 &#8211; 41 &#8211; 42 e mais e as sereias de alerta contra o bombardeio incendi\u00e1rio. Os estetosc\u00f3pios que canalizavam para meus ouvidos o ru\u00eddo de seda do estertor crepitante, as flautas de sopro tub\u00e1rio, o jazz dos galopes &#8211; que soavam em mim feito o trov\u00e3o. Eu sabia o que eles anunciavam. Ouvia e treinava em preparar a melhor cara do mundo para dizer \u00e0 condenada: n\u00e3o \u00e9 nada, minha filha, em dias voc\u00ea fica boa. Cada coisa era instrumento tocando sua partitura dentro daquele concerto de dores. Seringas, vidros de po\u00e7\u00e3o, caixa de c\u00e1psulas, camas &#8211; tudo me dava seu recado e novos olhos para minhas pobres doentes, para a paisagem da rua entrando pelas janelas da frente, a do p\u00e1tio florido onde a caixa d&#8217;\u00e1gua preta parecia gigantesco monumento funer\u00e1rio&#8230;&#8221; #Pedro Nava#Beira-Mar,&nbsp;volume 4#Luiz Carlos Azedo 18\/08\/2024(370)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16301,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16296","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16296"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16296\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16314,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16296\/revisions\/16314"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}