{"id":16529,"date":"2025-11-30T10:28:51","date_gmt":"2025-11-30T13:28:51","guid":{"rendered":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/?p=16529"},"modified":"2025-11-30T10:39:53","modified_gmt":"2025-11-30T13:39:53","slug":"alice-triste-cinquentenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/alice-triste-cinquentenario\/","title":{"rendered":"Alice, triste cinquenten\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>Meu filho pediu emprestada a escada ao porteiro e, l\u00e1 de cima, me disse: \u201c\u00c9 esta caixa, m\u00e3e?\u201d Olhei e em cima de mim caiu o peso do tempo. Porque o tempo pesa muito mais do que qualquer objeto.<\/em><br>&#8211; Pedro Mairal \u2013<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-808e3a1827d9c5f5a9804caae01e0915\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Sempre que chega novembro, assomam epis\u00f3dios infelizes da minha vida. O mais doloroso e sofrido deles \u00e9 a morte do meu filho, 20\/11\/1983, aqui reportado nas postagens \u201cMeu Velha\u201d. O segundo deles, a morte da Alice, 25\/11\/1975.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-63c2d0558cc95978f4f4934a168deace\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Comentei sobre ele em outubro de 2013, abrindo assim a mat\u00e9ria:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d5f4c1c95831892b5e2b9d9d11e1d533\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>\u201cNuma postagem anterior, referi uma Alice que n\u00e3o a minha adorada netinha ca\u00e7ula&nbsp;<\/em>(presentemente, ela n\u00e3o \u00e9 mais a ca\u00e7ula, sen\u00e3o a terceira e pen\u00faltima das minhas netas<em>) -, acerca de quem apresento o registro abaixo, dolorosamente, na esteira da semana do tr\u00e2nsito, realizada nesse setembro \u00faltimo, campanha que j\u00e1 contou com participa\u00e7\u00f5es do Mapati.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-c3fef49ee02c53a130aa48eedd7655fc\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>\u201cAli\u00e1s, um de meus ex-cunhados, m\u00e9dico&nbsp;<\/em>(j\u00e1 falecido)<em>, trabalhou muitos anos no projeto chamado Anjos do Asfalto (salvamento de v\u00edtimas de acidentes nas estradas), tendo sido seguido por um dos filhos dele, meu sobrinho (tamb\u00e9m m\u00e9dico), o que me causa muito orgulho.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-ede9298777b69745cc61205bcb4b9f3a\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Dito isso, passei a transcrever uma esp\u00e9cie de carta aberta endere\u00e7ada a Alice, cujos termos me permito repetir adiante no intuito de externar de que maneira se deu a trag\u00e9dia e em que grau eu fui atingido, passados cinquenta anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"585\" src=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-1024x585.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16534\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-1024x585.jpeg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-300x171.jpeg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-768x439.jpeg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-1536x878.jpeg 1536w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-2048x1170.jpeg 2048w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/orig_flor-que-voa2-1140x651.jpeg 1140w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-c5235d5cc1989f762860a13fc0ab46ea\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>\u201c13 de novembro de 1975, \u00e0s 21h50.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-9c2fc3b1bacf000cd466017230cb7af7\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;Voltava do aeroporto, onde fora deixar minha irm\u00e3. Na 306 Sul, desembarcou uma amiga nossa, o que me obrigara a descer pelo com\u00e9rcio 105\/106, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Asa Norte. Afligia-me a perspectiva de perder o jogo Botafogo x Corinthians, j\u00e1 ent\u00e3o televisado, mas a chuva torrencial daquela noite n\u00e3o autorizava qualquer extravag\u00e2ncia ao volante. Fiz o bal\u00e3o, comecei a descer a rua, \u201cCasa das Cortinas\u201d \u00e0 direita, \u201cMaria Chiquinha\u201d \u00e0 esquerda. Antes de chegar \u00e0 padaria e bem antes de transpor o local onde hoje est\u00e1 instalado o sinal, ouvi o baque surdo. Em terceira marcha e em velocidade crescente, apertei imediatamente o freio e desci do carro. Horror. O clar\u00e3o dos rel\u00e2mpagos destacava o corpo no caminho do aguaceiro. Quando corri, no intuito de retir\u00e1-lo dali, daquele banho macabro, Tereza, minha mulher, saiu do carro e desmaiou, tamb\u00e9m no meio da rua, um pouco abaixo. Sem saber,&nbsp;<\/em>avant la lettre<em>, eu protagonizava a \u201cEscolha de Sofia\u201d. A quem socorrer?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-e06c801cd389163644435d945ba5f6ec\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;Na d\u00favida e no desespero, veio meu grito de socorro. O barulho do c\u00e9u atrapalhava; a fraca ilumina\u00e7\u00e3o dos postes daquela \u00e9poca, aprimorada tantas vezes de l\u00e1 pra c\u00e1, n\u00e3o favorecia divisar os personagens. At\u00e9 que dois rapazes se aproximaram e foram acudir a minha mulher. Ajudado por um soldado do ex\u00e9rcito \u00e0 paisana, eu j\u00e1 cuidava no outro polo de levar o corpo para o meu carro a fim de empreender a terr\u00edvel viagem ao pronto-socorro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d322a55f92170a53105e039f4d7ba414\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;A not\u00edcia do traumatismo craniano, dada de maneira g\u00e9lida e burocr\u00e1tica pelo funcion\u00e1rio de plant\u00e3o, derrubou-me.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a6aee5bcae1eb7d73831ca31ec3653f1\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;O fusca, um carro amigo&nbsp;de todo mundo, avultava como circunst\u00e2ncia agravante, na medida&nbsp;em que sua frente arredondada servira para projetar o corpo de encontro \u00e0 coluna do vidro dianteiro, parte contundente na qual bateu a cabe\u00e7a da v\u00edtima. Iniciava-se, ali, uma trajet\u00f3ria de luta contra a morte de uma pessoa num funesto epis\u00f3dio em que eu fora escalado para participar como agente ativo. Depois de cinco dias no Distrital,&nbsp;hoje Hospital de Base, j\u00e1 na enfermaria, Alice, menina desprotegida,&nbsp;com o rosto ainda muito inchado, come\u00e7ou&nbsp;a apresentar alguns progressos e at\u00e9 j\u00e1 se sentava. Mesmo assim, decidimos, eu e a fam\u00edlia dela, que aconselh\u00e1vel era tir\u00e1-la dali, removendo-a para onde pudesse ter mais cuidados m\u00e9dicos, e conseguimos intern\u00e1-la no Hospital das For\u00e7as Armadas. O estado de sa\u00fade continuou a ter significativas melhoras, at\u00e9 que, por telefonema de uma enfermeira que n\u00e3o quis se identificar, soubemos que Alice havia ca\u00eddo da cama, vindo a falecer dias depois, em 25 de novembro de 1975.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-1572e1f8a9536a03b510475d8e39abc5\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;Esse tombo malfadado jamais me trouxe a convic\u00e7\u00e3o de que sem ele Alice teria sobrevivido para completar 19 anos de uma vida simples e decente que at\u00e9 hoje pulsaria.<br>Considero-o, antes, um aspecto incidental de todo esse enredo. O fato maior, preponderante e decisivo foi o atropelamento, que em definitivo interrompera uma volta para casa depois da aula noturna.&nbsp; A partir da\u00ed, o m\u00eas de novembro passou a significar para mim tristeza, saudade, perda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5130a61208766104343663cc32b0a88d\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\"><em>&#8220;Com a denominada justi\u00e7a dos homens j\u00e1 me resolvi, pela declara\u00e7\u00e3o formal de inoc\u00eancia. \u00c9 o bastante? Talvez, n\u00e3o. A que existiria l\u00e1 em cima ainda est\u00e1 me esperando. Por enquanto, tento dialogar com minha consci\u00eancia.<br>O papo \u00e0s vezes \u00e9 muito dif\u00edcil, n\u00e3o exatamente devido a culpa, que, acho, n\u00e3o tenho. Era virtualmente imposs\u00edvel enxergar aquele vulto que, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da aula noturna na Escola Classe 106 Sul (onde conclu\u00ed meu prim\u00e1rio), atravessava a rua alagada e quase deserta ou no meio dela se postava no aguardo da passagem de algum carro que vinha da parte de baixo da rua. N\u00e3o vi, n\u00e3o vi e n\u00e3o vi nada, nem ningu\u00e9m, tampouco a per\u00edcia ao depois conseguiu chegar a alguma conclus\u00e3o sobre a real posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da infeliz pedestre. Mas mesmo assim n\u00e3o me conformo, n\u00e3o me conformarei nunca. Por que n\u00e3o vi antes? Ou melhor: por que n\u00e3o me foi permitido ver? Alice, eu teria freado, desviado o carro meio metro para a direita, e ent\u00e3o o paralama esquerdo n\u00e3o a teria atingido. Oxal\u00e1 a gente se encontre um dia, no pa\u00eds das maravilhas. At\u00e9 l\u00e1. Marcos\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-3a7ce000a3f86c3a919682e23f485c2b\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:20px\"><br><a href=\"#Pedro Mairal\">#Pedro Mairal<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Escolha_de_Sofia\">#A escolha de Sofia<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hospital_de_Base_do_Distrito_Federal\">#Hospital de Base<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hospital_das_For%C3%A7as_Armadas_(Brasil)\">#Hospital das For\u00e7as Armadas<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-text-color has-link-color wp-elements-36c860233fedf1a597d286c776e0fecd\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">25\/11\/2025<br>(384)<br><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu filho pediu emprestada a escada ao porteiro e, l\u00e1 de cima, me disse: \u201c\u00c9 esta caixa, m\u00e3e?\u201d Olhei e em cima de mim caiu o peso do tempo. Porque o tempo pesa muito mais do que qualquer objeto.&#8211; Pedro Mairal \u2013 Sempre que chega novembro, assomam epis\u00f3dios infelizes da minha vida. O mais doloroso e sofrido deles \u00e9 a morte do meu filho, 20\/11\/1983, aqui reportado nas postagens \u201cMeu Velha\u201d. O segundo deles, a morte da Alice, 25\/11\/1975. Comentei sobre ele em outubro de 2013, abrindo assim a mat\u00e9ria: \u201cNuma postagem anterior, referi uma Alice que n\u00e3o a minha adorada netinha ca\u00e7ula&nbsp;(presentemente, ela n\u00e3o \u00e9 mais a ca\u00e7ula, sen\u00e3o a terceira e pen\u00faltima das minhas netas) -, acerca de quem apresento o registro abaixo, dolorosamente, na esteira da semana do tr\u00e2nsito, realizada nesse setembro \u00faltimo, campanha que j\u00e1 contou com participa\u00e7\u00f5es do Mapati. \u201cAli\u00e1s, um de meus ex-cunhados, m\u00e9dico&nbsp;(j\u00e1 falecido), trabalhou muitos anos no projeto chamado Anjos do Asfalto (salvamento de v\u00edtimas de acidentes nas estradas), tendo sido seguido por um dos filhos dele, meu sobrinho (tamb\u00e9m m\u00e9dico), o que me causa muito orgulho.\u201d Dito isso, passei a transcrever uma esp\u00e9cie de carta aberta endere\u00e7ada a Alice, cujos termos me permito repetir adiante no intuito de externar de que maneira se deu a trag\u00e9dia e em que grau eu fui atingido, passados cinquenta anos. \u201c13 de novembro de 1975, \u00e0s 21h50. &#8220;Voltava do aeroporto, onde fora deixar minha irm\u00e3. 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Sem saber,&nbsp;avant la lettre, eu protagonizava a \u201cEscolha de Sofia\u201d. A quem socorrer? &#8220;Na d\u00favida e no desespero, veio meu grito de socorro. O barulho do c\u00e9u atrapalhava; a fraca ilumina\u00e7\u00e3o dos postes daquela \u00e9poca, aprimorada tantas vezes de l\u00e1 pra c\u00e1, n\u00e3o favorecia divisar os personagens. At\u00e9 que dois rapazes se aproximaram e foram acudir a minha mulher. Ajudado por um soldado do ex\u00e9rcito \u00e0 paisana, eu j\u00e1 cuidava no outro polo de levar o corpo para o meu carro a fim de empreender a terr\u00edvel viagem ao pronto-socorro. &#8220;A not\u00edcia do traumatismo craniano, dada de maneira g\u00e9lida e burocr\u00e1tica pelo funcion\u00e1rio de plant\u00e3o, derrubou-me. &#8220;O fusca, um carro amigo&nbsp;de todo mundo, avultava como circunst\u00e2ncia agravante, na medida&nbsp;em que sua frente arredondada servira para projetar o corpo de encontro \u00e0 coluna do vidro dianteiro, parte contundente na qual bateu a cabe\u00e7a da v\u00edtima. Iniciava-se, ali, uma trajet\u00f3ria de luta contra a morte de uma pessoa num funesto epis\u00f3dio em que eu fora escalado para participar como agente ativo. Depois de cinco dias no Distrital,&nbsp;hoje Hospital de Base, j\u00e1 na enfermaria, Alice, menina desprotegida,&nbsp;com o rosto ainda muito inchado, come\u00e7ou&nbsp;a apresentar alguns progressos e at\u00e9 j\u00e1 se sentava. Mesmo assim, decidimos, eu e a fam\u00edlia dela, que aconselh\u00e1vel era tir\u00e1-la dali, removendo-a para onde pudesse ter mais cuidados m\u00e9dicos, e conseguimos intern\u00e1-la no Hospital das For\u00e7as Armadas. O estado de sa\u00fade continuou a ter significativas melhoras, at\u00e9 que, por telefonema de uma enfermeira que n\u00e3o quis se identificar, soubemos que Alice havia ca\u00eddo da cama, vindo a falecer dias depois, em 25 de novembro de 1975. &#8220;Esse tombo malfadado jamais me trouxe a convic\u00e7\u00e3o de que sem ele Alice teria sobrevivido para completar 19 anos de uma vida simples e decente que at\u00e9 hoje pulsaria.Considero-o, antes, um aspecto incidental de todo esse enredo. O fato maior, preponderante e decisivo foi o atropelamento, que em definitivo interrompera uma volta para casa depois da aula noturna.&nbsp; A partir da\u00ed, o m\u00eas de novembro passou a significar para mim tristeza, saudade, perda. &#8220;Com a denominada justi\u00e7a dos homens j\u00e1 me resolvi, pela declara\u00e7\u00e3o formal de inoc\u00eancia. \u00c9 o bastante? Talvez, n\u00e3o. A que existiria l\u00e1 em cima ainda est\u00e1 me esperando. Por enquanto, tento dialogar com minha consci\u00eancia.O papo \u00e0s vezes \u00e9 muito dif\u00edcil, n\u00e3o exatamente devido a culpa, que, acho, n\u00e3o tenho. Era virtualmente imposs\u00edvel enxergar aquele vulto que, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da aula noturna na Escola Classe 106 Sul (onde conclu\u00ed meu prim\u00e1rio), atravessava a rua alagada e quase deserta ou no meio dela se postava no aguardo da passagem de algum carro que vinha da parte de baixo da rua. N\u00e3o vi, n\u00e3o vi e n\u00e3o vi nada, nem ningu\u00e9m, tampouco a per\u00edcia ao depois conseguiu chegar a alguma conclus\u00e3o sobre a real posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da infeliz pedestre. Mas mesmo assim n\u00e3o me conformo, n\u00e3o me conformarei nunca. Por que n\u00e3o vi antes? Ou melhor: por que n\u00e3o me foi permitido ver? Alice, eu teria freado, desviado o carro meio metro para a direita, e ent\u00e3o o paralama esquerdo n\u00e3o a teria atingido. Oxal\u00e1 a gente se encontre um dia, no pa\u00eds das maravilhas. At\u00e9 l\u00e1. Marcos\u201d #Pedro Mairal#A escolha de Sofia#Hospital de Base#Hospital das For\u00e7as Armadas 25\/11\/2025(384)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16535,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16529","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16529","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16529"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16529\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16555,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16529\/revisions\/16555"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16535"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16529"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16529"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16529"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}