{"id":16541,"date":"2026-01-24T22:20:19","date_gmt":"2026-01-25T01:20:19","guid":{"rendered":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/?p=16541"},"modified":"2026-01-25T18:53:51","modified_gmt":"2026-01-25T21:53:51","slug":"a-historia-e-amarela-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/a-historia-e-amarela-8\/","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria \u00e9 amarela 8\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><em>\u00c9 preciso dar tempo ao passado para fantasiar com conhecimento de causa, assim ele volta com mais for\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 como lembran\u00e7a, mas como imagina\u00e7\u00e3o(&#8230;). Sem imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 personagem, n\u00e3o h\u00e1 conflito, tudo gira ao redor do umbigo.<\/em><br>&#8211; Milton Hatoum &#8211;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-3522a8a4026444c257a8167a9a490675\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Mais um assalto meu, mais uma apropria\u00e7\u00e3o que cometo. \u00c9 a oitava entrevista que extraio de &#8220;A hist\u00f3ria \u00e9 amarela&#8221;, de Veja &#8211; que saudades do Mino Carta. Abuso, trago \u00e0 cola\u00e7\u00e3o declara\u00e7\u00f5es de um indiv\u00edduo oriundo de Itabira (ador\u00e1vel sobrinha minha ocupou a Diretoria de Turismo do munic\u00edpio) das Minas Gerais e depois radicado no Rio de Janeiro, conhecido como Carlos Drummond de Andrade. Ali\u00e1s, meu pai, vinte e dois anos mais novo do que o poeta, era tamb\u00e9m mineiro, de Carangola, e da mesma sorte foi durante d\u00e9cadas morador de Copacabana, al\u00e9m de igualmente servidor p\u00fablico federal, lotado no Minist\u00e9rio da Fazenda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-1195cc2f117da4376e9d8459bc2f96e3\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Luxo s\u00f3: o entrevistador \u00e9 o Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas deste pa\u00eds que, nonagen\u00e1rio, ainda meio sumido para nosso desamparo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Minha casca \u00e9 um pouco discut\u00edvel. As pessoas esquecem que durante anos e anos vivi de porta aberta, numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, atendendo gregos e goianos, como dizia o Aporelly. Era minha obriga\u00e7\u00e3o, como chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, conversar com todas as pessoas que me procurassem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Eu adoro, (&#8230;), crian\u00e7as. Os pais eu n\u00e3o ligo, n\u00e3o, &#8230; Quando v\u00e3o l\u00e1 em casa, sento no ch\u00e3o, invento brinquedos. Mesmo crian\u00e7a n\u00e3o falando eu adoro. Eu gosto muito de bicho. A sociedade humana, para mim, j\u00e1 est\u00e1 um pouco mais dif\u00edcil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-796dc8dfa570c70cd083839e13917de6\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Nosso ilustr\u00edssimo personagem trabalhou no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o inclusive durante o chamado Estado Novo mas quase nada tinha a ver com esse regime totalit\u00e1rio como ele faz quest\u00e3o de frisar. Duvido que algu\u00e9m duvidasse (ou ainda duvide) da ideologia do grande poeta brasileiro, tanto que, referindo-se ao depois \u00e0 ditadura militar de 1964, externalizou antipatia (i) pelos milicos que se transmudaram em presidente da Rep\u00fablica, (II) pelo Congresso e (iii) pelo Executivo, decorrendo de tudo isso provavelmente um quadro psicol\u00f3gico que hoje poderia at\u00e9 ser considerado de depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1007\" src=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1-1024x1007.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16551\" style=\"aspect-ratio:1.0168914445684454;width:506px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1-1024x1007.jpg 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1-300x295.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1-768x755.jpg 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1-75x75.jpg 75w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/385_Drummond-1.jpg 1073w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Tenho uma coluna em que, quando quero emitir uma opini\u00e3o pol\u00edtica, emito. Ou uma conversa, ou um devaneio. Sou cronista de segundo caderno mas, em meio \u00e0s amenidades, me permito reclamar contra o excesso de generais que comandam o Brasil com o t\u00edtulo de presidente da Rep\u00fablica, assim como me permito satirizar o Congresso, quando, em vez de trabalhar e de reivindicar as pr\u00f3prias prerrogativas, se torna um instrumento d\u00f3cil ao governo. Quero reivindicar uma liberdade que conquistei com um pre\u00e7o bastante alto, que \u00e9 dizer aquilo que eu quero dizer no momento em que me for\u00e7am a dizer. Isso porque eu j\u00e1 tive uma esp\u00e9cie de milit\u00e2ncia pol\u00edtica de resultado pouco favor\u00e1vel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; &#8230;fui me desinteressando do problema pol\u00edtico e mergulhei assim numa esp\u00e9cie de solid\u00e3o em que me interessavam s\u00f3 os problemas, n\u00e3o digo metaf\u00edsicos, mas os ligados ao destino final do homem, \u00e0 natureza do homem, \u00e0 exist\u00eancia, ao mist\u00e9rio da exist\u00eancia do homem e da sua finalidade, do seu pr\u00f3prio ser. Esporadicamente me vem o desejo de participar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-7fb3ef0990e949e654faec83af0f778e\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Pondere-se, o Drummond rejeitava essa coisa de poeta maior. E os seus argumentos apresentavam-se com uma proced\u00eancia inatac\u00e1vel. A quest\u00e3o n\u00e3o era da suposta falsa mod\u00e9stia dele, resulta impratic\u00e1vel categorizar poetas, mesmo arrostando os subjetivismos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea dizer se o Fernando Pessoa \u00e9 maior ou menor que Cam\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade real ou cient\u00edfica de avaliar o tamanho dos poetas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Quando vejo os poetas que dominavam o Rio quando vim para c\u00e1 e hoje n\u00e3o tem quem reedite suas obras&#8230; O julgamento contempor\u00e2neo \u00e9 muito fal\u00edvel. N\u00e3o temos distanciamento para julgar as pessoas. Temos pessoas na moda e pessoas fora da moda. Vamos admitir que no momento eu estou na moda.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; (&#8230;) n\u00e3o fa\u00e7o concorr\u00eancia a ningu\u00e9m, n\u00e3o amea\u00e7o, n\u00e3o pretendo ocupar nenhum lugar, n\u00e3o desejo nada, quero ficar quieto no meu canto, ouvindo a minha musicazinha, conversando com uns pouco amigos. Falo muito ao telefone porque, al\u00e9m do mais, sair \u00e0 rua no Rio n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil, eu n\u00e3o tenho carro. Mesmo tendo, a pessoa j\u00e1 corre risco, imagine ent\u00e3o uma pessoa como eu, que n\u00e3o tem defesa, que \u00e9 fr\u00e1gil.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; (&#8230;) se h\u00e1 uma pessoa que se sente relativamente feliz sendo uma pessoa c\u00e9tica e at\u00e9 pessimista sou eu. Levei sempre uma vida de classe m\u00e9dia modesta, nunca aspirei a subir a um grau mais elevado, nunca cultivei pessoas poderosas e nunca tive necessidade de pedir emprego. Quer dizer: passei a vida sem maiores dificuldades, tamb\u00e9m sem maiores gl\u00f3rias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; (&#8230;) n\u00e3o me permito, como criticado, responder \u00e0 cr\u00edtica. A pessoa que publica um livro, comp\u00f5e uma can\u00e7\u00e3o, faz uma escultura ou pinta um quadro exp\u00f5e a carne \u00e0s feras. Aquilo j\u00e1 \u00e9 um produto que saiu dele, certamente n\u00e3o pertence mais a ele, pertence \u00e0 comunidade. Eu sempre me expus a isso. (&#8230;) a gente tem de receber a cr\u00edtica com humildade. Se o cr\u00edtico n\u00e3o compreendeu, se ele \u00e9 burro, paci\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Felicidade pessoal \u00e9 exagero. Prefiro serenidade pessoal marcada com alguns rel\u00e2mpagos, porque de vez em quando perco a paci\u00eancia. N\u00e3o me cabendo ser um ator ativo no espet\u00e1culo do mundo, sendo apenas mais um observador, eu me limito a dizer alguma coisa do que penso, do que sinto, com a convic\u00e7\u00e3o de que isso n\u00e3o vai adiantar nada. Nunca entendi bem o mundo, acho o mundo um teatro de injusti\u00e7as e de ferocidades extraordin\u00e1rias. Dizer que n\u00f3s evolu\u00edmos desde o homem das cavernas \u00e9 um pouco de exagero, porque criamos, com a tecnologia, aparelhos mais sofisticados para a felicidade do mundo e esses aparelhos est\u00e3o sendo utilizados para sua destrui\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 civiliza\u00e7\u00e3o, francamente. Isso \u00e9 uma porcaria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-de71383fecb0a2b7d145c7f62c3a2dd6\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Se ele afirmou isso h\u00e1 mais de quarenta e cinco anos &#8211; pura verdade -, imaginem o que o itabirano diria hoje do celular, do Whatsapp, do Instagram. Jamais o ver\u00edamos fazendo dancinha, salvo se na companhia de crian\u00e7as, que decerto iriam rir junto dele das bobajadas da internet. Porque, em rela\u00e7\u00e3o aos adultos, o homem era introspectivo e reservado paca.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>\u2002\u2002\u2002- Abra\u00e7ar \u00e9 costume muito brasileiro; a pessoa quer uma pancadinha nas costas. Nem sempre isso me ocorre, at\u00e9 por timidez. Eu n\u00e3o sei se de fato a pessoa est\u00e1 disposta a ter aquela exuber\u00e2ncia, aquela veem\u00eancia comigo. Ent\u00e3o, eu a poupo da rea\u00e7\u00e3o. Agora, procuro ser polido com todo mundo. E nunca recusei coisas por orgulho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-74f7d569d05b1b1dbede98567ed9c6bd\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Reservado, mas um pouco, um pouquinho corporativista, haja vista as frases de enc\u00f4mio dirigidas ao colega poetinha.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Eu invejava o conceito que o Vinicius teve de vida, de independ\u00eancia de esp\u00edrito, de falta de compromisso com as conven\u00e7\u00f5es sociais. Ele fazia o que queria e sempre com aquela do\u00e7ura, com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem. Conta-se que, entre as muitas namoradas que teve, uma era particularmente feia. Vinicius explicava que ela &#8220;era muito feiazinha, coitadinha&#8221;, por isso a namorava. \u00c9 a suprema delicadeza.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-066bd1f1a7d43c173a7692b10cf42fa3\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Finalmente, ponho que, se fizesse provas de concurso p\u00fablico para o cargo de profeta, nosso Carlos Drummond de Andrade n\u00e3o ultrapassaria sequer a primeira fase do certame. Onde j\u00e1 se viu tamanho despaut\u00e9rio, tamanho equ\u00edvoco, o chefe de gabinete de ministro (mas principalmente escritor, cronista, jornalista&#8230; e poeta) asseverar que sua obra iria desaparecer. De que maneira ele reunia elementos (tirante a aut\u00eantica mod\u00e9stia) para nos assegurar que em 2030, cinquenta anos ap\u00f3s a entrevista sob comento, os seus livros todos teriam tomado ch\u00e1 de sumi\u00e7o, desconhecidos dos leitores e leitoras havia muito tempo? A p\u00e1 de cal: se eventualmente redescobertos, um entojo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Acho minha obra uma obra falha, uma obra que poderia ser melhor. Ela n\u00e3o teve um desenvolvimento assim consciente, l\u00f3gico. Fui levado pela intui\u00e7\u00e3o e pelo instinto, pelas emo\u00e7\u00f5es do momento. N\u00e3o creio muito na validade dessa obra. Acho o seguinte: como sou um homem do meu tempo, exprimi paix\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es do meu tempo, e isso naturalmente tocou as pessoas. N\u00e3o vou dizer que, para mim, n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel. \u00c9 realmente agrad\u00e1vel quando uma pessoa do interior do Brasil me escreve, de uma cidade qualquer, para dizer que se comoveu com uma coisa que fiz. Isso vale mais do que o elogio t\u00e9cnico de um especialista em literatura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8211; Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e vir\u00e3o novos poetas, novas formas de poesia, novos crit\u00e9rios, novas tend\u00eancias. Amanh\u00e3 ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz: &#8220;Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa&#8221;. Ou &#8220;que coisa mais chata&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\" style=\"font-size:20px\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Drummond_de_Andrade\">#Carlos Drummond de Andrade<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Milton_Hatoum\">#Milton Hatoum<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Zuenir_Ventura\">#Zuenir Ventura<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gustavo_Capanema\">#Gustavo Capanema<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mino_Carta\">#Mino Carta<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bar%C3%A3o_de_Itarar%C3%A9\">#Aporelly<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fernando_Pessoa\">#Fernando Pessoa<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lu%C3%ADs_de_Cam%C3%B5es\">#Cam\u00f5es<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\">23\/01\/2026<br>(384)<br><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso dar tempo ao passado para fantasiar com conhecimento de causa, assim ele volta com mais for\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 como lembran\u00e7a, mas como imagina\u00e7\u00e3o(&#8230;). Sem imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 personagem, n\u00e3o h\u00e1 conflito, tudo gira ao redor do umbigo.&#8211; Milton Hatoum &#8211; Mais um assalto meu, mais uma apropria\u00e7\u00e3o que cometo. \u00c9 a oitava entrevista que extraio de &#8220;A hist\u00f3ria \u00e9 amarela&#8221;, de Veja &#8211; que saudades do Mino Carta. Abuso, trago \u00e0 cola\u00e7\u00e3o declara\u00e7\u00f5es de um indiv\u00edduo oriundo de Itabira (ador\u00e1vel sobrinha minha ocupou a Diretoria de Turismo do munic\u00edpio) das Minas Gerais e depois radicado no Rio de Janeiro, conhecido como Carlos Drummond de Andrade. Ali\u00e1s, meu pai, vinte e dois anos mais novo do que o poeta, era tamb\u00e9m mineiro, de Carangola, e da mesma sorte foi durante d\u00e9cadas morador de Copacabana, al\u00e9m de igualmente servidor p\u00fablico federal, lotado no Minist\u00e9rio da Fazenda.&nbsp; Luxo s\u00f3: o entrevistador \u00e9 o Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas deste pa\u00eds que, nonagen\u00e1rio, ainda meio sumido para nosso desamparo. &#8211; Minha casca \u00e9 um pouco discut\u00edvel. As pessoas esquecem que durante anos e anos vivi de porta aberta, numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica, atendendo gregos e goianos, como dizia o Aporelly. Era minha obriga\u00e7\u00e3o, como chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, conversar com todas as pessoas que me procurassem. &#8211; Eu adoro, (&#8230;), crian\u00e7as. Os pais eu n\u00e3o ligo, n\u00e3o, &#8230; Quando v\u00e3o l\u00e1 em casa, sento no ch\u00e3o, invento brinquedos. Mesmo crian\u00e7a n\u00e3o falando eu adoro. Eu gosto muito de bicho. A sociedade humana, para mim, j\u00e1 est\u00e1 um pouco mais dif\u00edcil. Nosso ilustr\u00edssimo personagem trabalhou no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o inclusive durante o chamado Estado Novo mas quase nada tinha a ver com esse regime totalit\u00e1rio como ele faz quest\u00e3o de frisar. Duvido que algu\u00e9m duvidasse (ou ainda duvide) da ideologia do grande poeta brasileiro, tanto que, referindo-se ao depois \u00e0 ditadura militar de 1964, externalizou antipatia (i) pelos milicos que se transmudaram em presidente da Rep\u00fablica, (II) pelo Congresso e (iii) pelo Executivo, decorrendo de tudo isso provavelmente um quadro psicol\u00f3gico que hoje poderia at\u00e9 ser considerado de depress\u00e3o. &#8211; Tenho uma coluna em que, quando quero emitir uma opini\u00e3o pol\u00edtica, emito. Ou uma conversa, ou um devaneio. 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Isso porque eu j\u00e1 tive uma esp\u00e9cie de milit\u00e2ncia pol\u00edtica de resultado pouco favor\u00e1vel. &#8211; &#8230;fui me desinteressando do problema pol\u00edtico e mergulhei assim numa esp\u00e9cie de solid\u00e3o em que me interessavam s\u00f3 os problemas, n\u00e3o digo metaf\u00edsicos, mas os ligados ao destino final do homem, \u00e0 natureza do homem, \u00e0 exist\u00eancia, ao mist\u00e9rio da exist\u00eancia do homem e da sua finalidade, do seu pr\u00f3prio ser. Esporadicamente me vem o desejo de participar. Pondere-se, o Drummond rejeitava essa coisa de poeta maior. E os seus argumentos apresentavam-se com uma proced\u00eancia inatac\u00e1vel. A quest\u00e3o n\u00e3o era da suposta falsa mod\u00e9stia dele, resulta impratic\u00e1vel categorizar poetas, mesmo arrostando os subjetivismos.&nbsp;&nbsp; &#8211; \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea dizer se o Fernando Pessoa \u00e9 maior ou menor que Cam\u00f5es. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade real ou cient\u00edfica de avaliar o tamanho dos poetas. &#8211; Quando vejo os poetas que dominavam o Rio quando vim para c\u00e1 e hoje n\u00e3o tem quem reedite suas obras&#8230; O julgamento contempor\u00e2neo \u00e9 muito fal\u00edvel. N\u00e3o temos distanciamento para julgar as pessoas. Temos pessoas na moda e pessoas fora da moda. Vamos admitir que no momento eu estou na moda. &#8211; (&#8230;) n\u00e3o fa\u00e7o concorr\u00eancia a ningu\u00e9m, n\u00e3o amea\u00e7o, n\u00e3o pretendo ocupar nenhum lugar, n\u00e3o desejo nada, quero ficar quieto no meu canto, ouvindo a minha musicazinha, conversando com uns pouco amigos. Falo muito ao telefone porque, al\u00e9m do mais, sair \u00e0 rua no Rio n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil, eu n\u00e3o tenho carro. Mesmo tendo, a pessoa j\u00e1 corre risco, imagine ent\u00e3o uma pessoa como eu, que n\u00e3o tem defesa, que \u00e9 fr\u00e1gil. &#8211; (&#8230;) se h\u00e1 uma pessoa que se sente relativamente feliz sendo uma pessoa c\u00e9tica e at\u00e9 pessimista sou eu. Levei sempre uma vida de classe m\u00e9dia modesta, nunca aspirei a subir a um grau mais elevado, nunca cultivei pessoas poderosas e nunca tive necessidade de pedir emprego. Quer dizer: passei a vida sem maiores dificuldades, tamb\u00e9m sem maiores gl\u00f3rias. &#8211; (&#8230;) n\u00e3o me permito, como criticado, responder \u00e0 cr\u00edtica. A pessoa que publica um livro, comp\u00f5e uma can\u00e7\u00e3o, faz uma escultura ou pinta um quadro exp\u00f5e a carne \u00e0s feras. Aquilo j\u00e1 \u00e9 um produto que saiu dele, certamente n\u00e3o pertence mais a ele, pertence \u00e0 comunidade. Eu sempre me expus a isso. (&#8230;) a gente tem de receber a cr\u00edtica com humildade. Se o cr\u00edtico n\u00e3o compreendeu, se ele \u00e9 burro, paci\u00eancia. &#8211; Felicidade pessoal \u00e9 exagero. Prefiro serenidade pessoal marcada com alguns rel\u00e2mpagos, porque de vez em quando perco a paci\u00eancia. N\u00e3o me cabendo ser um ator ativo no espet\u00e1culo do mundo, sendo apenas mais um observador, eu me limito a dizer alguma coisa do que penso, do que sinto, com a convic\u00e7\u00e3o de que isso n\u00e3o vai adiantar nada. Nunca entendi bem o mundo, acho o mundo um teatro de injusti\u00e7as e de ferocidades extraordin\u00e1rias. Dizer que n\u00f3s evolu\u00edmos desde o homem das cavernas \u00e9 um pouco de exagero, porque criamos, com a tecnologia, aparelhos mais sofisticados para a felicidade do mundo e esses aparelhos est\u00e3o sendo utilizados para sua destrui\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 civiliza\u00e7\u00e3o, francamente. Isso \u00e9 uma porcaria. Se ele afirmou isso h\u00e1 mais de quarenta e cinco anos &#8211; pura verdade -, imaginem o que o itabirano diria hoje do celular, do Whatsapp, do Instagram. Jamais o ver\u00edamos fazendo dancinha, salvo se na companhia de crian\u00e7as, que decerto iriam rir junto dele das bobajadas da internet. Porque, em rela\u00e7\u00e3o aos adultos, o homem era introspectivo e reservado paca. \u2002\u2002\u2002- Abra\u00e7ar \u00e9 costume muito brasileiro; a pessoa quer uma pancadinha nas costas. Nem sempre isso me ocorre, at\u00e9 por timidez. Eu n\u00e3o sei se de fato a pessoa est\u00e1 disposta a ter aquela exuber\u00e2ncia, aquela veem\u00eancia comigo. Ent\u00e3o, eu a poupo da rea\u00e7\u00e3o. Agora, procuro ser polido com todo mundo. E nunca recusei coisas por orgulho. Reservado, mas um pouco, um pouquinho corporativista, haja vista as frases de enc\u00f4mio dirigidas ao colega poetinha. &#8211; Eu invejava o conceito que o Vinicius teve de vida, de independ\u00eancia de esp\u00edrito, de falta de compromisso com as conven\u00e7\u00f5es sociais. Ele fazia o que queria e sempre com aquela do\u00e7ura, com aquela capacidade de encantar que fazia com que as donas de casa mais severas o adorassem. Conta-se que, entre as muitas namoradas que teve, uma era particularmente feia. Vinicius explicava que ela &#8220;era muito feiazinha, coitadinha&#8221;, por isso a namorava. \u00c9 a suprema delicadeza. Finalmente, ponho que, se fizesse provas de concurso p\u00fablico para o cargo de profeta, nosso Carlos Drummond de Andrade n\u00e3o ultrapassaria sequer a primeira fase do certame. Onde j\u00e1 se viu tamanho despaut\u00e9rio, tamanho equ\u00edvoco, o chefe de gabinete de ministro (mas principalmente escritor, cronista, jornalista&#8230; e poeta) asseverar que sua obra iria desaparecer. De que maneira ele reunia elementos (tirante a aut\u00eantica mod\u00e9stia) para nos assegurar que em 2030, cinquenta anos ap\u00f3s a entrevista sob comento, os seus livros todos teriam tomado ch\u00e1 de sumi\u00e7o, desconhecidos dos leitores e leitoras havia muito tempo? A p\u00e1 de cal: se eventualmente redescobertos, um entojo.&nbsp; &#8211; Acho minha obra uma obra falha, uma obra que poderia ser melhor. Ela n\u00e3o teve um desenvolvimento assim consciente, l\u00f3gico. Fui levado pela intui\u00e7\u00e3o e pelo instinto, pelas emo\u00e7\u00f5es do momento. N\u00e3o creio muito na validade dessa obra. Acho o seguinte: como sou um homem do meu tempo, exprimi paix\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es do meu tempo, e isso naturalmente tocou as pessoas. N\u00e3o vou dizer que, para mim, n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel. \u00c9 realmente agrad\u00e1vel quando uma pessoa do interior do Brasil me escreve, de uma cidade qualquer, para dizer que se comoveu com uma coisa que fiz. Isso vale mais do que o elogio t\u00e9cnico de um especialista em literatura. &#8211; Daqui a cinco ou dez anos, terei desaparecido e vir\u00e3o novos poetas, novas formas de poesia, novos crit\u00e9rios, novas tend\u00eancias. Amanh\u00e3 ou depois, daqui a cinquenta anos, um sujeito diz: &#8220;Olha, descobrimos um poeta chamado Drummond, que tinha uma pedra no meio do caminho. Que coisa curiosa&#8221;. Ou &#8220;que coisa mais chata&#8221;. #Carlos Drummond de Andrade#Milton Hatoum#Zuenir Ventura#Gustavo Capanema#Mino Carta#Aporelly#Fernando Pessoa#Cam\u00f5es 23\/01\/2026(384)mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-16541","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16541","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16541"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16541\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16560,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16541\/revisions\/16560"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}