{"id":16562,"date":"2026-02-23T17:31:57","date_gmt":"2026-02-23T20:31:57","guid":{"rendered":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/?p=16562"},"modified":"2026-03-31T19:58:39","modified_gmt":"2026-03-31T22:58:39","slug":"memorias-memorialistas-lxxxvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memorias-memorialistas-lxxxvi\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (LXXXVI)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-0f689f7c511c51cc5f83918a49e7c7f2\" style=\"font-size:16px\"><em>O passado \u00e9 importante, mas s\u00f3 faz sonhar quando movimenta e agita o presente.<\/em><br><em>&#8211; Tost\u00e3o &#8211;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-ba2a319e7465bd3573a0ebc15c8885ee\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">O Pedro Nava tem aparecido aqui em ocasi\u00f5es espa\u00e7adas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16564\" style=\"width:350px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1.png 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1-300x300.png 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1-150x150.png 150w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1-768x768.png 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/385_Pedro-Nava_IA1-75x75.png 75w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-ffdc105b6a70d4ffbff9fd138c73fc8a\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">N\u00e3o obviamente porque insignificante a sua obra &#8211; antes, magn\u00edfica por todo e qualquer par\u00e2metro. Desprop\u00f3sito \u00e9 trazer para este blog,&nbsp;com frequ\u00eancia, pancadas&nbsp;existenciais do memorialista maior do Brasil e achar que sem mais nem menos se vai sair daqui imune e fagueiro. N\u00e3o vai. Da\u00ed recomendar-se parcim\u00f4nia e cautela na leitura dos m\u00edsseis liter\u00e1rios disparados das Minas Gerais e do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-6480f1719c0964334ba80b96c2850b14\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Ressalto que o juiz-forano passou por estes lados h\u00e1 cerca de ano e meio (Postagem 370, de 18\/08\/2024), per\u00edodo quase que suficiente para recompormos for\u00e7a e energia e poder minorar a for\u00e7a dram\u00e1tica dos coment\u00e1rios, das lembran\u00e7as, dos recados, dos alertas insculpidos no volume 5 de suas mem\u00f3rias, levado a p\u00fablico em 1981. Eu, por exemplo, hoje ainda um menino, na flor dos meus&#8230; deixa pra l\u00e1, sinto-me por isso mesmo n\u00e3o muito intranquilo para enfrentar o m\u00e9dico visceral amalgamado na pele do escritor na abordagem da finitude (n\u00e3o se impressionem com o local dos pontos de interroga\u00e7\u00e3o na origem).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;Ent\u00e3o \u00e9 isso? que impede a liberta\u00e7\u00e3o e nos faz agarrar peda\u00e7os j\u00e1 t\u00e3o rotos da exist\u00eancia. Ah! Por quanto? Tempo. Novamente penso em me prognosticar a frio diante do espelho de aumento que serve para a hora di\u00e1logo mudo do barbear. Inventariar as conjuntivas, a visibilidade da art\u00e9ria temporal, a queda dos tra\u00e7os, a congest\u00e3o da cor, o princ\u00edpio do arco senil, as gengivas, a l\u00edngua reveladora, os batimentos dos vasos do pesco\u00e7o&#8230; Tudo que olho nos outros \u2013 indiscretamente, como quem abre carta que n\u00e3o lhe pertence \u2013 lendo as horas marcadas pela natureza.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-b67ad22a4c751324796860458851a505\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Nossas m\u00e3es (os pais em pouqu\u00edssimas vezes, que isso de dar educa\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;papel de m\u00e3e&#8221;), ante laivos de presun\u00e7\u00e3o da filharada, mandavam a gente se enxergar no espelho e a metidez logo se esva\u00eda. O Nava mergulhou de com for\u00e7a na imagem dele refletida, desprezando os riscos e desafios, uma vez que, ensinam as cultas redes sociais e seus milh\u00f5es de terapeutas, olhar-se em demasia e obsessivamente&nbsp;pode ensejar ansiedade e insatisfa\u00e7\u00e3o, sobretudo em casos de transtorno de imagem. Ao tempo que antecipo a louva\u00e7\u00e3o da invej\u00e1vel sa\u00fade urol\u00f3gica de nosso protagonista, retomo suas escritas impiedosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;Chegando ao banheiro, antes do espelho, vou. Tomo posi\u00e7\u00e3o e verto longamente. Satisfat\u00f3rio: jato forte, grosso, quantidade abundante, boa trajet\u00f3ria. Penso regalado \u2013 nenhum estreitamento, por enquanto nada na pr\u00f3stata (&#8230;). Passo ent\u00e3o \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o. O vidro me manda a cara espessa dum velho onde j\u00e1 n\u00e3o descubro o longo pesco\u00e7o do adolescente e do mo\u00e7o que fui, nem seus cabelos t\u00e3o densos que pareciam dois fios nascidos de cada bulbo. Castanho. Meu velho moreno corado. A bei\u00e7alhada sadia. Nunca fui bonito mas tinha olhos alegres e ria mostrando dentes dum marfim admir\u00e1vel. Hoje o pesco\u00e7o encurtou, como se massa dos ombros tivesse subido por ele, como cheia em torno de pilastra de ponte. Cabelos brancos t\u00e3o rarefeitos que o cr\u00e2nio aparece dentro da transpar\u00eancia que eles fazem. E afinaram. Meu moreno ficou fosco e ba\u00e7o. Olhos avermelhados escler\u00f3ticas sujas. Sua express\u00e3o dentro do empapu\u00e7amento e sob o cenho fechado \u00e9 de tristeza e tem um qu\u00ea da m\u00e1scara de choro do teatro. As sobrancelhas continuam escuras e isso me gratifica porque penso no que a sabedoria popular conota \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o dessa pigmenta\u00e7\u00e3o. Antes fosse. S\u00e3o duas sar\u00e7as espessas que quando deixo de tesourar esticam-se em linha demon\u00edaca. Par de sulcos fundos saem dos lados das ventas arreganhadas e seguem com as bochechas ca\u00eddas at\u00e9 o contorno da cara. A boca tamb\u00e9m despenhou e tem mais ou menos a forma de um V muito aberto. Dolorosamente encaro o velho que tomou conta de mim e vejo que ele foi configurado \u00e0 custa de uma esp\u00e9cie de desbarrancamento, avalanche, desmonte \u2013 queda dos tra\u00e7os e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Eros\u00e3o. A pele frontal caiu sobre os olhos e tornou o cenho severo. Dobrou-se numa sinistra ruga transversal sobre a raiz do nariz. As bochechas desabaram, parecem coisa n\u00e3o minha, propostas, colocadas depois como as camadas sucessivas que o escultor vai aplicando num busto de barro.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-35ab967be6e5e9cc647930c2b1aa903d\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">Tendo resistido at\u00e9 agora a essa exposi\u00e7\u00e3o, a esse envilecimento, cuido haver chegado a hora de encerrar a leitura j\u00e1 que o Nava atingira os limites humanos da autoan\u00e1lise. Qual nada. O dentista\/cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico\/otorrino\/oculista\/ nada poupa, nada preserva, a incurs\u00e3o prorrogou-se para de forma residual desancar dentes, orelhas, pesco\u00e7o, bochecha, olhos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:16px\"><em>\u201cDentes? O velho riso? Viro e ponho em posi\u00e7\u00e3o as duas faces laterais do espelho e considero amargamente o meu perfil. O topete ralo n\u00e3o disfar\u00e7ando a forma fugidia do cr\u00e2nio. As longas orelhas iguais \u00e0s de minha av\u00f3 Inh\u00e1 Lu\u00edsa, as pelancas barbelas muxibada do pesco\u00e7o breve, o dos&nbsp;<\/em>rond,<em>&nbsp;quase corcunda, dos Nava. As bochechonas como que empurrando para a frente os olhos lineares, o nariz sinuoso e as ventas enormes querendo aspirar ainda toda vida do mundo. Peda\u00e7o dum, peda\u00e7o doutro \u2013 Nava, Pamplona, Jaguaribe, Pinto Coelho \u2013 reconhe\u00e7o os fragmentos do meu Frankenstein familiar.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-text-color has-link-color wp-elements-9dc4232c96991ca11dd1604eeb6cf9a9\" style=\"color:#0e6fa7;font-size:16px\">O bombardeio prossegue, impiedoso, e o morador do bairro carioca da Gl\u00f3ria, o Dr. Nava, debaixo desse fogo cruzado existencial (n\u00e3o vou ceder ao clich\u00ea &#8220;fogo amigo&#8221;) re\u00fane vigor e passa a se reconhecer em contexto de imperman\u00eancia (os destaques s\u00e3o do original).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\" style=\"font-size:16px\"><em>&#8220;M\u00e9dico, n\u00e3o posso enganar a mim mesmo e sei que j\u00e1 estou contado, pesado e medido. Mas consola-me pensar que n\u00f3s s\u00f3 somos em fun\u00e7\u00e3o do nosso princ\u00edpio vital. S\u00f3 somos enquanto vivos. N\u00c3O TEMOS ABSOLUTAMENTE NADA COM NOSSO CORPO MORTO. Nosso? Nem nosso porque j\u00e1 n\u00e3o somos nem existimos. N\u00f3s acabamos no \u00faltimo instante da vida. E sofremos tanto, \u00e0 ideia da morte, porque emprestamos ao cad\u00e1ver que continua nossa forma as id\u00e9ias que temos sobre a morte, o enterro, a decomposi\u00e7\u00e3o. Nada disso \u00e9 n\u00f3s.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pedro_Nava\">#Pedro Nava<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Galo_das_Trevas\">#Galo das trevas ,&nbsp;volume 5<\/a><br><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Tost%C3%A3o\">#Tost\u00e3o<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\">23\/02\/2026<br>(385)<br><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O passado \u00e9 importante, mas s\u00f3 faz sonhar quando movimenta e agita o presente.&#8211; Tost\u00e3o &#8211; O Pedro Nava tem aparecido aqui em ocasi\u00f5es espa\u00e7adas. N\u00e3o obviamente porque insignificante a sua obra &#8211; antes, magn\u00edfica por todo e qualquer par\u00e2metro. Desprop\u00f3sito \u00e9 trazer para este blog,&nbsp;com frequ\u00eancia, pancadas&nbsp;existenciais do memorialista maior do Brasil e achar que sem mais nem menos se vai sair daqui imune e fagueiro. N\u00e3o vai. Da\u00ed recomendar-se parcim\u00f4nia e cautela na leitura dos m\u00edsseis liter\u00e1rios disparados das Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Ressalto que o juiz-forano passou por estes lados h\u00e1 cerca de ano e meio (Postagem 370, de 18\/08\/2024), per\u00edodo quase que suficiente para recompormos for\u00e7a e energia e poder minorar a for\u00e7a dram\u00e1tica dos coment\u00e1rios, das lembran\u00e7as, dos recados, dos alertas insculpidos no volume 5 de suas mem\u00f3rias, levado a p\u00fablico em 1981. Eu, por exemplo, hoje ainda um menino, na flor dos meus&#8230; deixa pra l\u00e1, sinto-me por isso mesmo n\u00e3o muito intranquilo para enfrentar o m\u00e9dico visceral amalgamado na pele do escritor na abordagem da finitude (n\u00e3o se impressionem com o local dos pontos de interroga\u00e7\u00e3o na origem). &#8220;Ent\u00e3o \u00e9 isso? que impede a liberta\u00e7\u00e3o e nos faz agarrar peda\u00e7os j\u00e1 t\u00e3o rotos da exist\u00eancia. Ah! Por quanto? Tempo. Novamente penso em me prognosticar a frio diante do espelho de aumento que serve para a hora di\u00e1logo mudo do barbear. Inventariar as conjuntivas, a visibilidade da art\u00e9ria temporal, a queda dos tra\u00e7os, a congest\u00e3o da cor, o princ\u00edpio do arco senil, as gengivas, a l\u00edngua reveladora, os batimentos dos vasos do pesco\u00e7o&#8230; Tudo que olho nos outros \u2013 indiscretamente, como quem abre carta que n\u00e3o lhe pertence \u2013 lendo as horas marcadas pela natureza.&#8221; Nossas m\u00e3es (os pais em pouqu\u00edssimas vezes, que isso de dar educa\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;papel de m\u00e3e&#8221;), ante laivos de presun\u00e7\u00e3o da filharada, mandavam a gente se enxergar no espelho e a metidez logo se esva\u00eda. O Nava mergulhou de com for\u00e7a na imagem dele refletida, desprezando os riscos e desafios, uma vez que, ensinam as cultas redes sociais e seus milh\u00f5es de terapeutas, olhar-se em demasia e obsessivamente&nbsp;pode ensejar ansiedade e insatisfa\u00e7\u00e3o, sobretudo em casos de transtorno de imagem. Ao tempo que antecipo a louva\u00e7\u00e3o da invej\u00e1vel sa\u00fade urol\u00f3gica de nosso protagonista, retomo suas escritas impiedosas. &#8220;Chegando ao banheiro, antes do espelho, vou. Tomo posi\u00e7\u00e3o e verto longamente. Satisfat\u00f3rio: jato forte, grosso, quantidade abundante, boa trajet\u00f3ria. Penso regalado \u2013 nenhum estreitamento, por enquanto nada na pr\u00f3stata (&#8230;). Passo ent\u00e3o \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o. O vidro me manda a cara espessa dum velho onde j\u00e1 n\u00e3o descubro o longo pesco\u00e7o do adolescente e do mo\u00e7o que fui, nem seus cabelos t\u00e3o densos que pareciam dois fios nascidos de cada bulbo. Castanho. Meu velho moreno corado. A bei\u00e7alhada sadia. Nunca fui bonito mas tinha olhos alegres e ria mostrando dentes dum marfim admir\u00e1vel. Hoje o pesco\u00e7o encurtou, como se massa dos ombros tivesse subido por ele, como cheia em torno de pilastra de ponte. Cabelos brancos t\u00e3o rarefeitos que o cr\u00e2nio aparece dentro da transpar\u00eancia que eles fazem. E afinaram. Meu moreno ficou fosco e ba\u00e7o. Olhos avermelhados escler\u00f3ticas sujas. Sua express\u00e3o dentro do empapu\u00e7amento e sob o cenho fechado \u00e9 de tristeza e tem um qu\u00ea da m\u00e1scara de choro do teatro. As sobrancelhas continuam escuras e isso me gratifica porque penso no que a sabedoria popular conota \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o dessa pigmenta\u00e7\u00e3o. Antes fosse. S\u00e3o duas sar\u00e7as espessas que quando deixo de tesourar esticam-se em linha demon\u00edaca. Par de sulcos fundos saem dos lados das ventas arreganhadas e seguem com as bochechas ca\u00eddas at\u00e9 o contorno da cara. A boca tamb\u00e9m despenhou e tem mais ou menos a forma de um V muito aberto. Dolorosamente encaro o velho que tomou conta de mim e vejo que ele foi configurado \u00e0 custa de uma esp\u00e9cie de desbarrancamento, avalanche, desmonte \u2013 queda dos tra\u00e7os e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente. Eros\u00e3o. A pele frontal caiu sobre os olhos e tornou o cenho severo. Dobrou-se numa sinistra ruga transversal sobre a raiz do nariz. As bochechas desabaram, parecem coisa n\u00e3o minha, propostas, colocadas depois como as camadas sucessivas que o escultor vai aplicando num busto de barro.&#8221; Tendo resistido at\u00e9 agora a essa exposi\u00e7\u00e3o, a esse envilecimento, cuido haver chegado a hora de encerrar a leitura j\u00e1 que o Nava atingira os limites humanos da autoan\u00e1lise. Qual nada. O dentista\/cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico\/otorrino\/oculista\/ nada poupa, nada preserva, a incurs\u00e3o prorrogou-se para de forma residual desancar dentes, orelhas, pesco\u00e7o, bochecha, olhos&#8230; \u201cDentes? O velho riso? 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Peda\u00e7o dum, peda\u00e7o doutro \u2013 Nava, Pamplona, Jaguaribe, Pinto Coelho \u2013 reconhe\u00e7o os fragmentos do meu Frankenstein familiar.\u201d O bombardeio prossegue, impiedoso, e o morador do bairro carioca da Gl\u00f3ria, o Dr. Nava, debaixo desse fogo cruzado existencial (n\u00e3o vou ceder ao clich\u00ea &#8220;fogo amigo&#8221;) re\u00fane vigor e passa a se reconhecer em contexto de imperman\u00eancia (os destaques s\u00e3o do original). &#8220;M\u00e9dico, n\u00e3o posso enganar a mim mesmo e sei que j\u00e1 estou contado, pesado e medido. Mas consola-me pensar que n\u00f3s s\u00f3 somos em fun\u00e7\u00e3o do nosso princ\u00edpio vital. S\u00f3 somos enquanto vivos. N\u00c3O TEMOS ABSOLUTAMENTE NADA COM NOSSO CORPO MORTO. Nosso? Nem nosso porque j\u00e1 n\u00e3o somos nem existimos. N\u00f3s acabamos no \u00faltimo instante da vida. E sofremos tanto, \u00e0 ideia da morte, porque emprestamos ao cad\u00e1ver que continua nossa forma as id\u00e9ias que temos sobre a morte, o enterro, a decomposi\u00e7\u00e3o. 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