{"id":2044,"date":"2017-02-16T15:52:22","date_gmt":"2017-02-16T15:52:22","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=2044"},"modified":"2017-02-16T15:52:22","modified_gmt":"2017-02-16T15:52:22","slug":"obsessoes-musicais-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/obsessoes-musicais-iv\/","title":{"rendered":"Obsess\u00f5es musicais (IV)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">Cita-se Luiz Melodia e as legi\u00f5es de f\u00e3s pelo Brasil todo o associam, o amarram a P\u00e9rola Negra, te amo, te amo. Eu tamb\u00e9m me ligo nessa liga, mas nem sempre.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">Rasgo a camisa, enxugo meu pranto e for\u00e7o minha liberta\u00e7\u00e3o do que era ruim nas minhas recorda\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro, Centro da Cidade, Rua Rep\u00fablica do L\u00edbano, onde passei dos sete aos nove anos de idade, tendo retornado para l\u00e1 por mais doze meses, egresso de Bras\u00edlia, no ano que n\u00e3o terminou.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">Nesse 1968, o menino posto como adolescente nos seus quinze anos ainda padecia em decorr\u00eancia de infausto panorama recidivo. Para mais uma vez usar a linguagem presidencial, o trauma sobre-existia-lhe, se perpetuava \u00e0 medida que, da janela do apartamento de fundos no quarto andar, enxergava as grades da pris\u00e3o da delegacia, cuja frente era virada para o Campo de Santana com suas cotias e \u00e1rvores centen\u00e1rias.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">O urro dos presos comuns (havia presos pol\u00edticos?) no supl\u00edcio do pau de arara s\u00f3 perdia em intensidade para o grito das presas. Nunca castigadas (\u00e9 o que parecia) com a palmat\u00f3ria vil, nem assim se eximiam de esbravejar nas situa\u00e7\u00f5es em que sentiam que somente dessa maneira seriam ouvidas nos seus protestos, inclusive os que eram feitos pelas barbaridades perpetradas contra os homens espremidos no calabou\u00e7o infernal. Diante de tal algaravia, os carcereiros se apressavam em lan\u00e7ar jatos de \u00e1gua fria no corpo das detentas, que, encharcadas, n\u00e3o se davam por vencidas e desafiadoramente aumentavam ainda mais o berreiro insuport\u00e1vel.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">Em busca de compensa\u00e7\u00e3o, o jovem, atordoado, pegava o elevador que balangava pra l\u00e1 e pra c\u00e1 (maquin\u00e1rio arcaico j\u00e1 naquela \u00e9poca), chegava ao\u00a0<em>hall<\/em>\u00a0do pr\u00e9dio, porta grande da lixeira e os ratos l\u00e1 dentro, descia o lance de escada e transpunha a modesta portaria. Ali, a vis\u00e3o da fileira de t\u00e1xis pretos o fascinava. Foi dito aqui, carros novos n\u00e3o mexem comigo. Carros antigos, no entanto, sempre me fascinaram. Os packards, os oldsmobiles, os chevrolets, os citroens (aqueles de filme de m\u00e1fia), os studebakers estacionados um atr\u00e1s do outro \u00e0 espera de passageiros faziam que o tormento l\u00e1 de tr\u00e1s (ou l\u00e1 de cima) restasse nublado em minha mente.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">De mistura com tal exposi\u00e7\u00e3o automobil\u00edstica, repontava na esquina com Av. Visconde do Rio Branco a sede da gravadora de discos CBS e seus artistas (Roberto Carlos entre eles), espalhados em grupos de conversa fiada na cal\u00e7ada frontal at\u00e9 a hora de entrar em\/no est\u00fadio. Os cabel\u00f5es, as lantejoulas, os colares e cord\u00f5es, os an\u00e9is, as pulseiras, as roupas espalhafatosas tinham o cond\u00e3o de provocar em mim viagem ao terreno dos sonhos psicod\u00e9licos. Tudo era divino e maravilhoso.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">De forma que essa regi\u00e3o central agora revitalizada me marcou profundamente com seus pr\u00e9dios de reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, suas travessas, becos e ruas coalhadas de papelarias, botecos, restaurantes (Spagtthil\u00e2ndia), padarias, farm\u00e1cias (Granado e seus produtos, hoje de multinacional), alfaiatarias, lojas de ferragens, de material el\u00e9trico, de conserto de bonecas, de conserto de rel\u00f3gios, de malas dispostas como se um pelot\u00e3o, lojas de \u00f3culos, de discos (bolach\u00e3o, vinil), de umbanda, de quinquilharias. Pois \u00e9, Rua dos Inv\u00e1lidos, Gomes Freire, Alf\u00e2ndega, Buenos Aires, l\u00e1 em cima a Av. Presidente Vargas, no caminho do Largo da Carioca a Pra\u00e7a Tiradentes, voltando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Zona Norte Rua do Riachuelo, Frei Caneca com o seu pres\u00eddio&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">Essa \u00faltima rua, que fecha minha listagem exemplificativa, \u00e9 pr\u00f3xima do bairro onde viera \u00e0 luz o confeiteiro que fez este bolo com glac\u00ea do qual at\u00e9 hoje eu arranco peda\u00e7os saborosos.<\/span><\/span><\/p>\n<p>[https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pLOVhGFiZIE]<\/p>\n<p><iframe title=\"Luiz Melodia - Est\u00e1cio, Holly Est\u00e1cio (Disco P\u00e9rola Negra 1973)\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pLOVhGFiZIE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: trebuchet ms,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 18px;\"><strong>EST\u00c1CIO, HOLLY EST\u00c1CIO<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: trebuchet ms,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 18px;\">Se algu\u00e9m quer matar-me de amor<br \/>\nQue me mate no Est\u00e1cio<br \/>\nBem no compasso, bem junto ao passo<br \/>\nDo passista da escola de samba<br \/>\nDo Largo do Est\u00e1cio<br \/>\nO Est\u00e1cio acalma o sentido dos erros que eu fa\u00e7o<br \/>\nTrago n\u00e3o tra\u00e7o, fa\u00e7o n\u00e3o ca\u00e7o<br \/>\nO amor da morena maldita do Largo do Est\u00e1cio<br \/>\nFico manso, amanso a dor<br \/>\nHolliday \u00e9 um dia de paz<br \/>\nSolto o \u00f3dio, mato o amor<br \/>\nHolliday eu j\u00e1 n\u00e3o penso mais<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"font-family: trebuchet ms,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 18px;\">Luiz Melodia<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">16\/02\/2017<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\">(232)<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 20px;\"><span style=\"font-family: times new roman,times,serif;\"><a href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #0000cd;\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/span><\/a><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cita-se Luiz Melodia e as legi\u00f5es de f\u00e3s pelo Brasil todo o associam, o amarram a P\u00e9rola Negra, te amo, te amo. Eu tamb\u00e9m me ligo nessa liga, mas nem sempre. Rasgo a camisa, enxugo meu pranto e for\u00e7o minha liberta\u00e7\u00e3o do que era ruim nas minhas recorda\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro, Centro da Cidade, Rua Rep\u00fablica do L\u00edbano, onde passei dos sete aos nove anos de idade, tendo retornado para l\u00e1 por mais doze meses, egresso de Bras\u00edlia, no ano que n\u00e3o terminou. Nesse 1968, o menino posto como adolescente nos seus quinze anos ainda padecia em decorr\u00eancia de infausto panorama recidivo. Para mais uma vez usar a linguagem presidencial, o trauma sobre-existia-lhe, se perpetuava \u00e0 medida que, da janela do apartamento de fundos no quarto andar, enxergava as grades da pris\u00e3o da delegacia, cuja frente era virada para o Campo de Santana com suas cotias e \u00e1rvores centen\u00e1rias. O urro dos presos comuns (havia presos pol\u00edticos?) no supl\u00edcio do pau de arara s\u00f3 perdia em intensidade para o grito das presas. Nunca castigadas (\u00e9 o que parecia) com a palmat\u00f3ria vil, nem assim se eximiam de esbravejar nas situa\u00e7\u00f5es em que sentiam que somente dessa maneira seriam ouvidas nos seus protestos, inclusive os que eram feitos pelas barbaridades perpetradas contra os homens espremidos no calabou\u00e7o infernal. Diante de tal algaravia, os carcereiros se apressavam em lan\u00e7ar jatos de \u00e1gua fria no corpo das detentas, que, encharcadas, n\u00e3o se davam por vencidas e desafiadoramente aumentavam ainda mais o berreiro insuport\u00e1vel. Em busca de compensa\u00e7\u00e3o, o jovem, atordoado, pegava o elevador que balangava pra l\u00e1 e pra c\u00e1 (maquin\u00e1rio arcaico j\u00e1 naquela \u00e9poca), chegava ao\u00a0hall\u00a0do pr\u00e9dio, porta grande da lixeira e os ratos l\u00e1 dentro, descia o lance de escada e transpunha a modesta portaria. Ali, a vis\u00e3o da fileira de t\u00e1xis pretos o fascinava. Foi dito aqui, carros novos n\u00e3o mexem comigo. Carros antigos, no entanto, sempre me fascinaram. Os packards, os oldsmobiles, os chevrolets, os citroens (aqueles de filme de m\u00e1fia), os studebakers estacionados um atr\u00e1s do outro \u00e0 espera de passageiros faziam que o tormento l\u00e1 de tr\u00e1s (ou l\u00e1 de cima) restasse nublado em minha mente. De mistura com tal exposi\u00e7\u00e3o automobil\u00edstica, repontava na esquina com Av. Visconde do Rio Branco a sede da gravadora de discos CBS e seus artistas (Roberto Carlos entre eles), espalhados em grupos de conversa fiada na cal\u00e7ada frontal at\u00e9 a hora de entrar em\/no est\u00fadio. Os cabel\u00f5es, as lantejoulas, os colares e cord\u00f5es, os an\u00e9is, as pulseiras, as roupas espalhafatosas tinham o cond\u00e3o de provocar em mim viagem ao terreno dos sonhos psicod\u00e9licos. Tudo era divino e maravilhoso. De forma que essa regi\u00e3o central agora revitalizada me marcou profundamente com seus pr\u00e9dios de reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, suas travessas, becos e ruas coalhadas de papelarias, botecos, restaurantes (Spagtthil\u00e2ndia), padarias, farm\u00e1cias (Granado e seus produtos, hoje de multinacional), alfaiatarias, lojas de ferragens, de material el\u00e9trico, de conserto de bonecas, de conserto de rel\u00f3gios, de malas dispostas como se um pelot\u00e3o, lojas de \u00f3culos, de discos (bolach\u00e3o, vinil), de umbanda, de quinquilharias. Pois \u00e9, Rua dos Inv\u00e1lidos, Gomes Freire, Alf\u00e2ndega, Buenos Aires, l\u00e1 em cima a Av. Presidente Vargas, no caminho do Largo da Carioca a Pra\u00e7a Tiradentes, voltando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Zona Norte Rua do Riachuelo, Frei Caneca com o seu pres\u00eddio&#8230; Essa \u00faltima rua, que fecha minha listagem exemplificativa, \u00e9 pr\u00f3xima do bairro onde viera \u00e0 luz o confeiteiro que fez este bolo com glac\u00ea do qual at\u00e9 hoje eu arranco peda\u00e7os saborosos. [https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pLOVhGFiZIE] EST\u00c1CIO, HOLLY EST\u00c1CIO Se algu\u00e9m quer matar-me de amor Que me mate no Est\u00e1cio Bem no compasso, bem junto ao passo Do passista da escola de samba Do Largo do Est\u00e1cio O Est\u00e1cio acalma o sentido dos erros que eu fa\u00e7o Trago n\u00e3o tra\u00e7o, fa\u00e7o n\u00e3o ca\u00e7o O amor da morena maldita do Largo do Est\u00e1cio Fico manso, amanso a dor Holliday \u00e9 um dia de paz Solto o \u00f3dio, mato o amor Holliday eu j\u00e1 n\u00e3o penso mais Luiz Melodia 16\/02\/2017 (232) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}