{"id":44,"date":"2015-12-16T18:25:36","date_gmt":"2015-12-16T18:25:36","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=44"},"modified":"2015-12-16T18:25:36","modified_gmt":"2015-12-16T18:25:36","slug":"memoriasmemorialistas-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-ii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (II),"},"content":{"rendered":"<p>Fal\u00e1vamos do Paulo Duarte. A abertura de suas &#8220;Mem\u00f3rias&#8221;<br \/>\nvem\u00a0com esta ep\u00edgrafe: &#8220;Raz\u00f5es de defesa por ter vivido&#8230;&#8221; Poder\u00edamos parar por aqui, nada mais precisaria ser dito a respeito do antrop\u00f3logo.<br \/>\nAli\u00e1s, um homem que politicamente seria hoje tido por extremamente conservador, chegad\u00edssimo que era aos Mesquita do <em>Estad\u00e3o<\/em>.<br \/>\nO problema da nossa esquerda (a festiva, a soturna, a revolucion\u00e1ria,<br \/>\na ex-revolucion\u00e1ria, a reformista) \u00e9 que de ordin\u00e1rio ela n\u00e3o l\u00ea<br \/>\no que\u00a0a direita escreve. A meu ver, deveria faz\u00ea-lo pois a turma<br \/>\nde l\u00e1 escreve bem paca, at\u00e9 por dispor ao longo da vida<br \/>\nde mais tempo para ler.<\/p>\n<p>Vou transcrever sob a forma de picles (saudades do Pasquim;<br \/>\nolha a idade desvelada de novo), n\u00e3o linearmente. Hora de abeberar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) depois de cinquenta e tantos anos de refregas,<br \/>\nde borrascas,\u00a0de embargos e agravos <\/em>(epa, isso voltou \u00e0 moda)<em>,<br \/>\n\u00e9 que tenho de me defender por ter vivido, ao contr\u00e1rio daqueles que, pela complac\u00eancia, pela mal\u00edcia ou pela covardia,<br \/>\ndisso podem esquivar-se. Uma presta\u00e7\u00e3o de contas minuciosa, capaz de me deixar tranquilo comigo mesmo. (&#8230;) Ofere\u00e7o-a<br \/>\na esta terra que, com frequ\u00eancia, chegou a tratar-me com mais aspereza do que as terras do ex\u00edlio que conheci. Terra que amo, que n\u00e3o me compreendeu. E o fa\u00e7o sem ressentimentos, porque quem raciocina e sente, sublima-se sempre. Ou ser\u00e1 que eu quem n\u00e3o a tenha compreendido?&#8230;&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>E o pensador prossegue no seu arrazoado com po\u00e9tica virul\u00eancia, deixando-nos sem possibilidades de fugir da linha da retid\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) muito cedo descobri que, para a gente fazer uma carreira triunfal, na pol\u00edtica e na fortuna principalmente, pelo menos<br \/>\nem nosso pa\u00eds, \u00e9 preciso praticar antes uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde porcarias.\u00a0E eu sonhei e lutei sempre por ser um sujeito asseado. Talvez n\u00e3o o tivesse conseguido de todo, mas a culpa n\u00e3o foi minha, deve-se \u00e0 fatalidade humana. O culto<br \/>\nda submiss\u00e3o, do aplauso incondicional, da bajula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da subservi\u00eancia, em tempo algum foi meu divertimento.<br \/>\nPara mim, a amizade n\u00e3o se consolida com o agradinho<br \/>\ndo servilismo, como tantos pensam e praticam. As minhas amizades firmes, poucas que s\u00e3o elas, eu as consolidei mais divergindo do que concordando&#8230;&#8217;<\/em><\/span><\/p>\n<p>Fecho, por ora (n\u00e3o se abandona Paulo Duarte assim, sem mais<br \/>\nnem menos), o afloramento dessas li\u00e7\u00f5es invocando esta passagem<br \/>\npara nosso deleite mas principalmente para certo desconforto<br \/>\nquando eventualmente nos certificamos de que temos l\u00e1<br \/>\nnosso peda\u00e7o de carapu\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) Natural que, numa vida mais ou menos longa, tenha cometido injusti\u00e7as, condi\u00e7\u00e3o humana que n\u00e3o excetua ningu\u00e9m. Mas todas as vezes em que me veio consci\u00eancia disso procurei repar\u00e1-las, pois a soberba ou o chamado respeito humano<br \/>\nn\u00e3o me intimidam nem est\u00e1 na ementa das numerosas fraquezas<br \/>\nque o destino me preparou com cuidado de grande cozinheiro.<br \/>\nO falso orgulho da retrata\u00e7\u00e3o jamais me deixou humilhado.<br \/>\nFui violento muitas vezes at\u00e9 implac\u00e1vel.<br \/>\nCheguei\u00a0ao ponto de cometer a crueldade de, conscientemente, quase destruir dois sub-homens. Hoje n\u00e3o o faria depois<br \/>\nde fanatizado pelo dogma da preserva\u00e7\u00e3o da dignidade humana que, at\u00e9 num parricida, precisa de ser respeitado. (&#8230;) pois eu tentei destru\u00ed-los e s\u00f3 n\u00e3o os massacrei porque o meio<br \/>\nem que ambos viv\u00edamos, definhado do decoro, pu\u00eddo da san\u00e7\u00e3o social,\u00a0n\u00e3o\u00a0mo permitiu, o que julgo hoje uma sorte minha<br \/>\nde n\u00e3o poder levar a cabo o meu impulso de ir at\u00e9 o fim da a\u00e7\u00e3o (&#8230;).\u00a0A decad\u00eancia moral e pol\u00edtica deste nosso pa\u00eds, t\u00e3o prop\u00edcia<br \/>\naos corruptos, me salvou desse pecado. \u00c9 verdade<br \/>\nque um n\u00e3o alcan\u00e7ou o seu objetivo maior, mas prosseguiu<br \/>\numa carreira vitoriosa dentro do peculato e da malversa\u00e7\u00e3o. Ademais tantos foram os prevaricadores que se revelaram depois, que haver concentrado tanto esfor\u00e7o para punir<br \/>\num s\u00f3 deles fora uma injusti\u00e7a feita aos demais.&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">3 de outubro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(010)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fal\u00e1vamos do Paulo Duarte. A abertura de suas &#8220;Mem\u00f3rias&#8221; vem\u00a0com esta ep\u00edgrafe: &#8220;Raz\u00f5es de defesa por ter vivido&#8230;&#8221; Poder\u00edamos parar por aqui, nada mais precisaria ser dito a respeito do antrop\u00f3logo. Ali\u00e1s, um homem que politicamente seria hoje tido por extremamente conservador, chegad\u00edssimo que era aos Mesquita do Estad\u00e3o. O problema da nossa esquerda (a festiva, a soturna, a revolucion\u00e1ria, a ex-revolucion\u00e1ria, a reformista) \u00e9 que de ordin\u00e1rio ela n\u00e3o l\u00ea o que\u00a0a direita escreve. A meu ver, deveria faz\u00ea-lo pois a turma de l\u00e1 escreve bem paca, at\u00e9 por dispor ao longo da vida de mais tempo para ler. Vou transcrever sob a forma de picles (saudades do Pasquim; olha a idade desvelada de novo), n\u00e3o linearmente. Hora de abeberar. &#8220;(&#8230;) depois de cinquenta e tantos anos de refregas, de borrascas,\u00a0de embargos e agravos (epa, isso voltou \u00e0 moda), \u00e9 que tenho de me defender por ter vivido, ao contr\u00e1rio daqueles que, pela complac\u00eancia, pela mal\u00edcia ou pela covardia, disso podem esquivar-se. Uma presta\u00e7\u00e3o de contas minuciosa, capaz de me deixar tranquilo comigo mesmo. (&#8230;) Ofere\u00e7o-a a esta terra que, com frequ\u00eancia, chegou a tratar-me com mais aspereza do que as terras do ex\u00edlio que conheci. Terra que amo, que n\u00e3o me compreendeu. E o fa\u00e7o sem ressentimentos, porque quem raciocina e sente, sublima-se sempre. Ou ser\u00e1 que eu quem n\u00e3o a tenha compreendido?&#8230;&#8221; E o pensador prossegue no seu arrazoado com po\u00e9tica virul\u00eancia, deixando-nos sem possibilidades de fugir da linha da retid\u00e3o: &#8220;(&#8230;) muito cedo descobri que, para a gente fazer uma carreira triunfal, na pol\u00edtica e na fortuna principalmente, pelo menos em nosso pa\u00eds, \u00e9 preciso praticar antes uma por\u00e7\u00e3o de porcarias.\u00a0E eu sonhei e lutei sempre por ser um sujeito asseado. Talvez n\u00e3o o tivesse conseguido de todo, mas a culpa n\u00e3o foi minha, deve-se \u00e0 fatalidade humana. O culto da submiss\u00e3o, do aplauso incondicional, da bajula\u00e7\u00e3o e da subservi\u00eancia, em tempo algum foi meu divertimento. Para mim, a amizade n\u00e3o se consolida com o agradinho do servilismo, como tantos pensam e praticam. As minhas amizades firmes, poucas que s\u00e3o elas, eu as consolidei mais divergindo do que concordando&#8230;&#8217; Fecho, por ora (n\u00e3o se abandona Paulo Duarte assim, sem mais nem menos), o afloramento dessas li\u00e7\u00f5es invocando esta passagem para nosso deleite mas principalmente para certo desconforto quando eventualmente nos certificamos de que temos l\u00e1 nosso peda\u00e7o de carapu\u00e7a: &#8220;(&#8230;) Natural que, numa vida mais ou menos longa, tenha cometido injusti\u00e7as, condi\u00e7\u00e3o humana que n\u00e3o excetua ningu\u00e9m. Mas todas as vezes em que me veio consci\u00eancia disso procurei repar\u00e1-las, pois a soberba ou o chamado respeito humano n\u00e3o me intimidam nem est\u00e1 na ementa das numerosas fraquezas que o destino me preparou com cuidado de grande cozinheiro. O falso orgulho da retrata\u00e7\u00e3o jamais me deixou humilhado. Fui violento muitas vezes at\u00e9 implac\u00e1vel. Cheguei\u00a0ao ponto de cometer a crueldade de, conscientemente, quase destruir dois sub-homens. Hoje n\u00e3o o faria depois de fanatizado pelo dogma da preserva\u00e7\u00e3o da dignidade humana que, at\u00e9 num parricida, precisa de ser respeitado. (&#8230;) pois eu tentei destru\u00ed-los e s\u00f3 n\u00e3o os massacrei porque o meio em que ambos viv\u00edamos, definhado do decoro, pu\u00eddo da san\u00e7\u00e3o social,\u00a0n\u00e3o\u00a0mo permitiu, o que julgo hoje uma sorte minha de n\u00e3o poder levar a cabo o meu impulso de ir at\u00e9 o fim da a\u00e7\u00e3o (&#8230;).\u00a0A decad\u00eancia moral e pol\u00edtica deste nosso pa\u00eds, t\u00e3o prop\u00edcia aos corruptos, me salvou desse pecado. \u00c9 verdade que um n\u00e3o alcan\u00e7ou o seu objetivo maior, mas prosseguiu uma carreira vitoriosa dentro do peculato e da malversa\u00e7\u00e3o. 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