{"id":46,"date":"2015-12-16T18:29:16","date_gmt":"2015-12-16T18:29:16","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=46"},"modified":"2015-12-16T18:29:16","modified_gmt":"2015-12-16T18:29:16","slug":"alice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/alice\/","title":{"rendered":"Alice"},"content":{"rendered":"<p>Numa postagem anterior, referi uma Alice &#8211; que n\u00e3o a minha adorada netinha ca\u00e7ula -, acerca de quem apresento o registro abaixo, dolorosamente, na esteira da semana da tr\u00e2nsito, realizada nesse setembro \u00faltimo, campanha que j\u00e1 contou com participa\u00e7\u00f5es do Mapati. Ali\u00e1s, um de meus ex-cunhados, m\u00e9dico, trabalhou muitos anos<br \/>\nno projeto chamado <em>Anjos do Asfalto\u00a0<\/em>(salvamento de v\u00edtimas<br \/>\nde acidentes nas estradas), \u00a0tendo sido seguido por um dos filhos dele, meu sobrinho (tamb\u00e9m m\u00e9dico), o que me causa muito orgulho.<br \/>\nA licen\u00e7a e a toler\u00e2ncia de voc\u00eas para o compartilhamento, intitulado &#8220;Tempos depois&#8221;.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;13 de novembro de 1975, \u00e0s 21h50. Voltava do aeroporto,<br \/>\nonde fora deixar minha irm\u00e3. Na 306 Sul, desembarcou<br \/>\numa amiga nossa, o que me obrigara a descer pelo com\u00e9rcio 105\/106, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Asa Norte. Afligia-me a perspectiva<br \/>\nde perder o jogo Botafogo x Corinthians, j\u00e1 ent\u00e3o televisado,<br \/>\nmas a chuva torrencial daquela noite n\u00e3o autorizava qualquer extravag\u00e2ncia ao volante. Fiz o bal\u00e3o, comecei a descer a rua, &#8220;Casa das Cortinas&#8221; \u00e0 direita, &#8220;Maria Chiquinha&#8221; \u00e0 esquerda. Antes de chegar \u00e0 padaria e bem antes de transpor o local onde hoje est\u00e1 instalado o sinal, ouvi o baque surdo. Em terceira marcha e em velocidade crescente, apertei imediatamente<br \/>\no freio e desci do carro. Horror. O clar\u00e3o dos rel\u00e2mpagos destacava o corpo no caminho do aguaceiro. Quando corri,<br \/>\nno intuito de retir\u00e1-lo dali, daquele banho macabro, Tereza, minha mulher, saiu do\u00a0 carro e desmaiou, tamb\u00e9m no meio<br \/>\nda rua, um pouco abaixo. Sem saber,\u00a0 <\/em>avant la lettre<em>,<br \/>\neu protagonizava a &#8220;Escolha de Sofia&#8221;. A quem socorrer?<br \/>\nNa d\u00favida e no desespero, veio meu grito de socorro. O barulho do c\u00e9u atrapalhava; a fraca ilumina\u00e7\u00e3o dos postes daquela \u00e9poca, aprimorada tantas vezes de l\u00e1 pr\u00e1 c\u00e1, n\u00e3o favorecia divisar<br \/>\nos personagens. At\u00e9 que dois rapazes aproximaram-se<br \/>\ne foram acudir a minha mulher, enquanto que, ajudado<br \/>\npor um soldado do ex\u00e9rcito \u00e0 paisana, eu j\u00e1 cuidava no outro polo de levar o corpo para o meu carro a fim de empreender<br \/>\na terr\u00edvel viagem ao pronto-socorro.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>A not\u00edcia do traumatismo craniano, dada\u00a0 de maneira g\u00e9lida<br \/>\ne burocr\u00e1tica pelo funcion\u00e1rio de plant\u00e3o, derrubou-me.<br \/>\nO fusca, um carro amigo\u00a0de todo mundo, avultava como circunst\u00e2ncia agravante, na medida\u00a0em que sua frente arredondada servira para projetar o corpo de encontro \u00e0 coluna do vidro dianteiro, parte contundente na qual bateu a cabe\u00e7a<br \/>\nda v\u00edtima. Iniciava-se, ali, uma trajet\u00f3ria de luta contra a morte<br \/>\nde uma pessoa num funesto epis\u00f3dio em que eu fora escalado<br \/>\npara participar como agente ativo. Depois de cinco dias<br \/>\nno Distrital,\u00a0hoje Hospital de Base, j\u00e1 na enfermaria, Alice, menina desprotegida,\u00a0com o rosto ainda muito inchado, come\u00e7ou\u00a0a apresentar alguns progressos e at\u00e9 j\u00e1 se sentava. Mesmo assim, decidimos, eu e a fam\u00edlia dela, que\u00a0 aconselh\u00e1vel\u00a0 era tir\u00e1-la dali, removendo-a para onde pudesse ter mais cuidados m\u00e9dicos, e conseguimos intern\u00e1-la no Hospital<br \/>\ndas For\u00e7as Armadas. O estado de sa\u00fade continuou a ter significativas melhoras, at\u00e9 que, por telefonema<br \/>\nde uma enfermeira que n\u00e3o quis se identificar, soubemos<br \/>\nque Alice havia ca\u00eddo da cama, vindo a falecer dias depois,<br \/>\nem 25 de novembro de 1975.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Esse tombo malfadado jamais me trouxe a convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que sem ele Alice teria sobrevivido para completar 19 anos<br \/>\nde uma vida simples e decente que at\u00e9 hoje pulsaria.<br \/>\nConsidero-o, antes, um aspecto incidental de todo esse enredo.<br \/>\nO fato maior, preponderante e decisivo foi o atropelamento,<br \/>\nque em definitivo interrompera uma volta para casa depois<br \/>\nda aula noturna.\u00a0 A partir da\u00ed, o m\u00eas de novembro passou<br \/>\na significar para mim tristeza, saudade, perda.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Com a denominada\u00a0 justi\u00e7a dos homens j\u00e1 me resolvi,<br \/>\npela declara\u00e7\u00e3o formal de inoc\u00eancia. \u00c9 o bastante? Talvez, n\u00e3o.<br \/>\nA que existiria l\u00e1 em cima ainda est\u00e1 me esperando.<br \/>\nPor enquanto, tento dialogar com minha consci\u00eancia.<br \/>\nO papo \u00e0s vezes \u00e9 muito dif\u00edcil, n\u00e3o exatamente devido a culpa, que, acho, n\u00e3o tenho. Era virtualmente imposs\u00edvel enxergar aquele vulto que, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da aula noturna na Escola Classe 106 Sul (onde conclu\u00ed meu prim\u00e1rio), atravessava a rua alagada e quase deserta ou no meio dela se postava no aguardo da passagem de algum carro que vinha da parte de baixo<br \/>\nda rua. N\u00e3o vi, n\u00e3o vi e n\u00e3o vi nada, nem ningu\u00e9m, tampouco<br \/>\na per\u00edcia ao depois conseguiu chegar a alguma conclus\u00e3o sobre<br \/>\na real posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da infeliz pedestre. Mas mesmo assim n\u00e3o me conformo, n\u00e3o me conformarei nunca. Por que n\u00e3o vi antes? Ou melhor: por que n\u00e3o me foi permitido ver? Alice,<br \/>\neu teria freado, desviado o carro meio metro para a\u00a0 direita,<br \/>\ne ent\u00e3o o p\u00e1ra-lama esquerdo n\u00e3o a teria atingido. Oxal\u00e1<br \/>\na gente se encontre um dia, no pa\u00eds das maravilhas. At\u00e9 l\u00e1. Marcos&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">5 de outubro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(011)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa postagem anterior, referi uma Alice &#8211; que n\u00e3o a minha adorada netinha ca\u00e7ula -, acerca de quem apresento o registro abaixo, dolorosamente, na esteira da semana da tr\u00e2nsito, realizada nesse setembro \u00faltimo, campanha que j\u00e1 contou com participa\u00e7\u00f5es do Mapati. Ali\u00e1s, um de meus ex-cunhados, m\u00e9dico, trabalhou muitos anos no projeto chamado Anjos do Asfalto\u00a0(salvamento de v\u00edtimas de acidentes nas estradas), \u00a0tendo sido seguido por um dos filhos dele, meu sobrinho (tamb\u00e9m m\u00e9dico), o que me causa muito orgulho. A licen\u00e7a e a toler\u00e2ncia de voc\u00eas para o compartilhamento, intitulado &#8220;Tempos depois&#8221;. &#8220;13 de novembro de 1975, \u00e0s 21h50. Voltava do aeroporto, onde fora deixar minha irm\u00e3. Na 306 Sul, desembarcou uma amiga nossa, o que me obrigara a descer pelo com\u00e9rcio 105\/106, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Asa Norte. Afligia-me a perspectiva de perder o jogo Botafogo x Corinthians, j\u00e1 ent\u00e3o televisado, mas a chuva torrencial daquela noite n\u00e3o autorizava qualquer extravag\u00e2ncia ao volante. Fiz o bal\u00e3o, comecei a descer a rua, &#8220;Casa das Cortinas&#8221; \u00e0 direita, &#8220;Maria Chiquinha&#8221; \u00e0 esquerda. Antes de chegar \u00e0 padaria e bem antes de transpor o local onde hoje est\u00e1 instalado o sinal, ouvi o baque surdo. Em terceira marcha e em velocidade crescente, apertei imediatamente o freio e desci do carro. Horror. O clar\u00e3o dos rel\u00e2mpagos destacava o corpo no caminho do aguaceiro. Quando corri, no intuito de retir\u00e1-lo dali, daquele banho macabro, Tereza, minha mulher, saiu do\u00a0 carro e desmaiou, tamb\u00e9m no meio da rua, um pouco abaixo. Sem saber,\u00a0 avant la lettre, eu protagonizava a &#8220;Escolha de Sofia&#8221;. A quem socorrer? Na d\u00favida e no desespero, veio meu grito de socorro. O barulho do c\u00e9u atrapalhava; a fraca ilumina\u00e7\u00e3o dos postes daquela \u00e9poca, aprimorada tantas vezes de l\u00e1 pr\u00e1 c\u00e1, n\u00e3o favorecia divisar os personagens. At\u00e9 que dois rapazes aproximaram-se e foram acudir a minha mulher, enquanto que, ajudado por um soldado do ex\u00e9rcito \u00e0 paisana, eu j\u00e1 cuidava no outro polo de levar o corpo para o meu carro a fim de empreender a terr\u00edvel viagem ao pronto-socorro.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A not\u00edcia do traumatismo craniano, dada\u00a0 de maneira g\u00e9lida e burocr\u00e1tica pelo funcion\u00e1rio de plant\u00e3o, derrubou-me. O fusca, um carro amigo\u00a0de todo mundo, avultava como circunst\u00e2ncia agravante, na medida\u00a0em que sua frente arredondada servira para projetar o corpo de encontro \u00e0 coluna do vidro dianteiro, parte contundente na qual bateu a cabe\u00e7a da v\u00edtima. Iniciava-se, ali, uma trajet\u00f3ria de luta contra a morte de uma pessoa num funesto epis\u00f3dio em que eu fora escalado para participar como agente ativo. Depois de cinco dias no Distrital,\u00a0hoje Hospital de Base, j\u00e1 na enfermaria, Alice, menina desprotegida,\u00a0com o rosto ainda muito inchado, come\u00e7ou\u00a0a apresentar alguns progressos e at\u00e9 j\u00e1 se sentava. Mesmo assim, decidimos, eu e a fam\u00edlia dela, que\u00a0 aconselh\u00e1vel\u00a0 era tir\u00e1-la dali, removendo-a para onde pudesse ter mais cuidados m\u00e9dicos, e conseguimos intern\u00e1-la no Hospital das For\u00e7as Armadas. O estado de sa\u00fade continuou a ter significativas melhoras, at\u00e9 que, por telefonema de uma enfermeira que n\u00e3o quis se identificar, soubemos que Alice havia ca\u00eddo da cama, vindo a falecer dias depois, em 25 de novembro de 1975. Esse tombo malfadado jamais me trouxe a convic\u00e7\u00e3o de que sem ele Alice teria sobrevivido para completar 19 anos de uma vida simples e decente que at\u00e9 hoje pulsaria. Considero-o, antes, um aspecto incidental de todo esse enredo. O fato maior, preponderante e decisivo foi o atropelamento, que em definitivo interrompera uma volta para casa depois da aula noturna.\u00a0 A partir da\u00ed, o m\u00eas de novembro passou a significar para mim tristeza, saudade, perda. Com a denominada\u00a0 justi\u00e7a dos homens j\u00e1 me resolvi, pela declara\u00e7\u00e3o formal de inoc\u00eancia. \u00c9 o bastante? Talvez, n\u00e3o. A que existiria l\u00e1 em cima ainda est\u00e1 me esperando. Por enquanto, tento dialogar com minha consci\u00eancia. O papo \u00e0s vezes \u00e9 muito dif\u00edcil, n\u00e3o exatamente devido a culpa, que, acho, n\u00e3o tenho. Era virtualmente imposs\u00edvel enxergar aquele vulto que, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da aula noturna na Escola Classe 106 Sul (onde conclu\u00ed meu prim\u00e1rio), atravessava a rua alagada e quase deserta ou no meio dela se postava no aguardo da passagem de algum carro que vinha da parte de baixo da rua. N\u00e3o vi, n\u00e3o vi e n\u00e3o vi nada, nem ningu\u00e9m, tampouco a per\u00edcia ao depois conseguiu chegar a alguma conclus\u00e3o sobre a real posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da infeliz pedestre. Mas mesmo assim n\u00e3o me conformo, n\u00e3o me conformarei nunca. Por que n\u00e3o vi antes? Ou melhor: por que n\u00e3o me foi permitido ver? Alice, eu teria freado, desviado o carro meio metro para a\u00a0 direita, e ent\u00e3o o p\u00e1ra-lama esquerdo n\u00e3o a teria atingido. Oxal\u00e1 a gente se encontre um dia, no pa\u00eds das maravilhas. At\u00e9 l\u00e1. Marcos&#8221; \u00a0 5 de outubro de 2013 (011) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-46","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}