{"id":542,"date":"2015-12-21T21:28:24","date_gmt":"2015-12-21T21:28:24","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=542"},"modified":"2015-12-21T21:28:24","modified_gmt":"2015-12-21T21:28:24","slug":"lady-darbanville-ii-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/lady-darbanville-ii-2\/","title":{"rendered":"Lady D\u2019Arbanville (II)"},"content":{"rendered":"<p>Iniciozinho da d\u00e9cada de 1980, 102 Sul, quadra dos bancarinos, bloco B, apartamento vazado, fundos para a 302 e seu posto de gasolina. Tereza descia todas as manh\u00e3s com a Mariana para que nossa segunda filha \u201cbrincasse debaixo do bloco\u201d com as outras crian\u00e7as da idade dela, 1 e 2 anos. Nesse Baixo Beb\u00ea do Cerrado, achegou-se a uma mo\u00e7a que levava o filho (ou filha, n\u00e3o lembro bem) para curtir o lugar do mesmo modo. Ap\u00f3s um tempo nesse conv\u00edvio, diversamente do que se diz do pessoal de Bras\u00edlia, frieza e distanciamento, Tereza convidou-a para ir, junto com omarido, a nossa casa a fim de que pud\u00e9ssemos n\u00f3s quatro estreitar rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Era dia \u00fatil (termo ir\u00f4nico e cruel, veremos), tocaram a campainha por volta das 20h. Abrimos a porta e no hall do elevador a vis\u00e3o contrastante: um homem aparentando quase cinquenta anos, fisionomia algo detonada, ao lado de mulher bonita paca, pele acobreada, cabelos pretos e olhos azuis, vinte e dois, vinte e tr\u00eas anos, no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Terminadas as apresenta\u00e7\u00f5es \u2013 Leyde o nome dela -, os dois casais acomodam-se, acepipes e bebidas \u00e0 farta, a conversa se desenrola. O homem era bom de papo, jornalista (sou Deus?) rec\u00e9m-sa\u00eddo das Minas Gerais, lembran\u00e7as divertidas, hist\u00f3rias picarescas, clima de intimidade e relaxamento se aprofundando \u00e0 medida que a noite avan\u00e7ava.<\/p>\n<p>O dono da casa (machismo) se desincumbia razoavelmente, orgulhoso da jovem parceira com quem se casara em setembro de 1974 e com quem, perto da temida fase dos sete anos de matrim\u00f4nio, fazia sala. Acrecente-se, no entanto, que Tereza era atraente nos seus vinte e seis anos, o que me compelia a permanecer atento (escoteiro, sempre alerta) a qualquer investida suspeita do visitante mas sem me descurar, noutra ponta, da admira\u00e7\u00e3o da estonteante beleza da anja de curtos cabelos pretos e olhos da cor do c\u00e9u de Bras\u00edlia. Todo homem \u00e9 fdp (feminismo).<\/p>\n<p>No entremeio, aquele senhor e aquela menina nossos convidados d\u00e3o-se ao inc\u00f4modo de relembrar brigas conjugais e a coisa fica um pouquinho mais tensa \u2013 reconhe\u00e7amos que ele bem mais desagrad\u00e1vel do que ela, quem, em realidade, limita-se a retrucar e rebater inj\u00farias. Apaziguados os \u00e2nimos, reencetamos a boa conversa durante cerca de uma hora, depois do que os dois se despedem e v\u00e3o embora. R\u00e1pida ajeitada na casa, anfitri\u00e3o e anfitri\u00e3 deletam os momentos ruins daquele encontro dos quatro e apagam a luz para viver os momentos bons de todo casal com reservas de desejo e atra\u00e7\u00e3o sexual preservadas.<\/p>\n<p>S\u00fabito, toca o interfone, insistentemente, ruidosamente, poluindo a quieta madrugada e assombrando alguns dos habitantes da superquadra de classe m\u00e9dia conservadora (pleonasmo?). Tereza justamente me deixa ao desemparo, s\u00f3, e vai atender campainha mais uma vez na mesma noite.<\/p>\n<p>Grito excruciante: \u201cVoc\u00ea matou minha amiga.\u201d No quarto, transmudado pelo atordoamento, tento me recompor. Agir e agir. Verificar o que acontecia \u2013 embora eu j\u00e1 estivesse naquele momento c\u00f4nscio de alguma desgra\u00e7a concretizada.<\/p>\n<p>Des\u00e7o aos pulos os quatro lances de escada. No t\u00e9rreo, dou com o indiv\u00edduo de quem me despedira havia uma hora. Desesperado e apopl\u00e9tico, ele repetia sem cessar, babando na camisa e me lan\u00e7ando perdigotos: \u201cA Leyde se jogou da janela, a Leyde se jogou da janela.\u201d Corro para a frente do bloco e estarre\u00e7o ao vislumbrar aqueles olhos entreabertos (entrefechados?) que n\u00e3o mais eram azul mutante, eram de colora\u00e7\u00e3o indefinida.<\/p>\n<p>Cena arrepiante \u2013 o corpo, l\u00e1 em cima sedutor, esparramava-se agora pelo gramado de forma desconjuntada, sem apuro est\u00e9tico nenhum.<\/p>\n<figure id=\"attachment_439\" aria-describedby=\"caption-attachment-439\" style=\"width: 473px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44.png\" rel=\"attachment wp-att-439\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-439\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44.png\" alt=\"http:\/\/julianagama.deviantart.com\/art\/Mulher-dormindo-407366873 - julianagama\" width=\"473\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44.png 1024w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-300x214.png 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-768x545.png 768w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-200x142.png 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-400x284.png 400w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-600x425.png 600w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/FIG36apost44-800x567.png 800w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-439\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/julianagama.deviantart.com\/art\/Mulher-dormindo-407366873 &#8211; julianagama<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">08 de fevereiro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(045)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\">mmsmarcos@hotmail.com<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciozinho da d\u00e9cada de 1980, 102 Sul, quadra dos bancarinos, bloco B, apartamento vazado, fundos para a 302 e seu posto de gasolina. Tereza descia todas as manh\u00e3s com a Mariana para que nossa segunda filha \u201cbrincasse debaixo do bloco\u201d com as outras crian\u00e7as da idade dela, 1 e 2 anos. Nesse Baixo Beb\u00ea do Cerrado, achegou-se a uma mo\u00e7a que levava o filho (ou filha, n\u00e3o lembro bem) para curtir o lugar do mesmo modo. Ap\u00f3s um tempo nesse conv\u00edvio, diversamente do que se diz do pessoal de Bras\u00edlia, frieza e distanciamento, Tereza convidou-a para ir, junto com omarido, a nossa casa a fim de que pud\u00e9ssemos n\u00f3s quatro estreitar rela\u00e7\u00f5es. Era dia \u00fatil (termo ir\u00f4nico e cruel, veremos), tocaram a campainha por volta das 20h. Abrimos a porta e no hall do elevador a vis\u00e3o contrastante: um homem aparentando quase cinquenta anos, fisionomia algo detonada, ao lado de mulher bonita paca, pele acobreada, cabelos pretos e olhos azuis, vinte e dois, vinte e tr\u00eas anos, no m\u00e1ximo. Terminadas as apresenta\u00e7\u00f5es \u2013 Leyde o nome dela -, os dois casais acomodam-se, acepipes e bebidas \u00e0 farta, a conversa se desenrola. O homem era bom de papo, jornalista (sou Deus?) rec\u00e9m-sa\u00eddo das Minas Gerais, lembran\u00e7as divertidas, hist\u00f3rias picarescas, clima de intimidade e relaxamento se aprofundando \u00e0 medida que a noite avan\u00e7ava. O dono da casa (machismo) se desincumbia razoavelmente, orgulhoso da jovem parceira com quem se casara em setembro de 1974 e com quem, perto da temida fase dos sete anos de matrim\u00f4nio, fazia sala. Acrecente-se, no entanto, que Tereza era atraente nos seus vinte e seis anos, o que me compelia a permanecer atento (escoteiro, sempre alerta) a qualquer investida suspeita do visitante mas sem me descurar, noutra ponta, da admira\u00e7\u00e3o da estonteante beleza da anja de curtos cabelos pretos e olhos da cor do c\u00e9u de Bras\u00edlia. Todo homem \u00e9 fdp (feminismo). No entremeio, aquele senhor e aquela menina nossos convidados d\u00e3o-se ao inc\u00f4modo de relembrar brigas conjugais e a coisa fica um pouquinho mais tensa \u2013 reconhe\u00e7amos que ele bem mais desagrad\u00e1vel do que ela, quem, em realidade, limita-se a retrucar e rebater inj\u00farias. Apaziguados os \u00e2nimos, reencetamos a boa conversa durante cerca de uma hora, depois do que os dois se despedem e v\u00e3o embora. R\u00e1pida ajeitada na casa, anfitri\u00e3o e anfitri\u00e3 deletam os momentos ruins daquele encontro dos quatro e apagam a luz para viver os momentos bons de todo casal com reservas de desejo e atra\u00e7\u00e3o sexual preservadas. S\u00fabito, toca o interfone, insistentemente, ruidosamente, poluindo a quieta madrugada e assombrando alguns dos habitantes da superquadra de classe m\u00e9dia conservadora (pleonasmo?). Tereza justamente me deixa ao desemparo, s\u00f3, e vai atender campainha mais uma vez na mesma noite. Grito excruciante: \u201cVoc\u00ea matou minha amiga.\u201d No quarto, transmudado pelo atordoamento, tento me recompor. Agir e agir. Verificar o que acontecia \u2013 embora eu j\u00e1 estivesse naquele momento c\u00f4nscio de alguma desgra\u00e7a concretizada. Des\u00e7o aos pulos os quatro lances de escada. No t\u00e9rreo, dou com o indiv\u00edduo de quem me despedira havia uma hora. Desesperado e apopl\u00e9tico, ele repetia sem cessar, babando na camisa e me lan\u00e7ando perdigotos: \u201cA Leyde se jogou da janela, a Leyde se jogou da janela.\u201d Corro para a frente do bloco e estarre\u00e7o ao vislumbrar aqueles olhos entreabertos (entrefechados?) que n\u00e3o mais eram azul mutante, eram de colora\u00e7\u00e3o indefinida. Cena arrepiante \u2013 o corpo, l\u00e1 em cima sedutor, esparramava-se agora pelo gramado de forma desconjuntada, sem apuro est\u00e9tico nenhum. &nbsp; 08 de fevereiro de 2014 (045) mmsmarcos@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-542","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/542","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=542"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/542\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=542"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=542"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=542"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}