{"id":55,"date":"2015-12-18T14:36:24","date_gmt":"2015-12-18T14:36:24","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=55"},"modified":"2015-12-18T14:36:24","modified_gmt":"2015-12-18T14:36:24","slug":"memoriasmemorialistas-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-iii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (III)"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de duas semanas, a se\u00e7\u00e3o (era caderno) <em>Pensar<\/em> do Correio Braziliense estampava mat\u00e9ria na qual um mestrando em Letras (se n\u00e3o me engano) reportava visita que, depois de intrincado e lacunoso telefonema, conseguira fazer ao recolhido Raduan Nassar, da turma dos inacess\u00edveis, geniais escritores &#8211; Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, por exemplo.<\/p>\n<p>Do relato do estudante, desprendia-se entusiasmo. Confesso que n\u00e3o senti inveja (nem da boa. Existe isso?) nem me apequenei (como diria o falecido Sergio Motta, que embarcou com a mesma e pavorosa doen\u00e7a que levou meu pai &#8211; enfisema pulmonar). Antes, senti verdadeiro orgulho pelo feito do menino de 25 anos pois isso evocava uma proeza minha da mesma natureza, da mesma magnitude.<\/p>\n<p>O m\u00eas era janeiro e o ano, 1984. Nessa \u00e9poca, o nem t\u00e3o menino aqui curtia a for\u00e7a dos 31 anos (ainda bem que sou ruim de aritm\u00e9tica e n\u00e3o sei calcular minha atual idade). Botei na cabe\u00e7a que iria visitar o homem de qualquer jeito. De que maneira faz\u00ea-lo? O \u00fanico tra\u00e7o em \u00a0comum, ele mineiro e eu filho de mineiro. N\u00e3o era pouco mas n\u00e3o era muito. Minas tem gente, muita gente nativa espalhada por mais de 800 munic\u00edpios, sem contar a mineirada que pipoca (e fofoca) por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Reuni coragem, \u00f3leo de peroba no rosto, e embiquei (cad\u00ea o Agamenon?) na dire\u00e7\u00e3o da Gloria. Chego ao simp\u00e1tico bairro carioca &#8211; rel\u00f3gio no poste, enviesadamente o monumento dos pracinhas (um dos her\u00f3is da Segunda Guerra, Lelio Martins de Souza, \u00e9 hom\u00f4nimo do meu pai), o tradicional hotel (ainda \u00e9 do Eike Batista?) ainda em reformas, o Catete ali atr\u00e1s, o centro da Cidade Maravilhosa mais adiante. Paro defronte ao pr\u00e9dio do &#8220;conterr\u00e2neo&#8221;, falo com o porteiro (\u00e0quela \u00e9poca, abordagem direta e tranquila; hoje, imposs\u00edvel), que me indica o elevador (tinha porta pantogr\u00e1fica?).<\/p>\n<p>Pouco convicto subo pelos andares daquele edif\u00edcio antigo e, com certeza, nimbado de lembran\u00e7as e recorda\u00e7\u00f5es. Toco a campanhia esperando &#8220;n\u00e3o est\u00e1&#8221;, &#8220;viajou&#8221;, &#8220;foi dar uma palestra&#8221; ou coisa parecida. Secret\u00e1ria abre a porta do ap\u00ea, digo-lhe que desejo falar com o dono da casa. Pergunta-me educadamente quem sou. Ocorreu-me s\u00f3 isso: &#8220;sou um leitor&#8221;. Passado um tempinho, uma eternidade, quem assoma \u00e0 porta? Ele mesmo, o grande Pedro Nava. Convidou-me a entrar. Sentamo-nos no sof\u00e1 da sala e foi dada a partida.<\/p>\n<p>Guardei bem, a conversa transcorreu agradabil\u00edssima (para\u00a0 mim, obviamente), da qual extraio duas passagens. Tietagem \u00e0 parte, consignei que achava <em>Ba\u00fa de Ossos<\/em>, <em>Bal\u00e3o Cativo<\/em>,<em>Ch\u00e3o de Ferro<\/em>, <em>Beira-Mar<\/em>, <em>Galo-das-Trevas<\/em> \u00a0livros superiores em boa parte ao <em>Em busca do tempo perdido <\/em>e aos seis tomos que o seguiram, obra fant\u00e1stica. Fui severamente repreendido. Com honestidade intelectual, o anfitri\u00e3o me deu um sacode, &#8220;Proust \u00e9 insuper\u00e1vel&#8221;. Sinceramente, num &#8220;duelo&#8221; entre os dois virtuoses, d\u00e1 empate. Recuperado da chinelada, indaguei ao poeta, ao maior memorialista brasileiro, se, ao tempo em que o m\u00e9dico de tudo e de todos ia vivendo os fatos, os epis\u00f3dios, os descaminhos, a mente dele j\u00e1 n\u00e3o ia &#8220;catalogando e lavrando&#8221; as mem\u00f3rias, como num document\u00e1rio <em>pari passu<\/em>. O simp\u00e1tico velhinho do clube dos octogen\u00e1rios: &#8220;N\u00e3o, de jeito nenhum&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/PedroNava_post14.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-56 aligncenter\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/PedroNava_post14.png\" alt=\"PedroNava_post14\" width=\"573\" height=\"884\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cinco meses depois desse emocionante (para mim, repito) encontro, debaixo de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima a esse pr\u00e9dio dos anos 1950, para tristeza dos amigos, das amigas, da turma das letras, dos milhares de leitores e leitoras, Pedro Nava enfia cirurgicamente um bala\u00e7o na cabe\u00e7a e &#8220;sai da vida para entrar na hist\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">16 de outubro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(014)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de duas semanas, a se\u00e7\u00e3o (era caderno) Pensar do Correio Braziliense estampava mat\u00e9ria na qual um mestrando em Letras (se n\u00e3o me engano) reportava visita que, depois de intrincado e lacunoso telefonema, conseguira fazer ao recolhido Raduan Nassar, da turma dos inacess\u00edveis, geniais escritores &#8211; Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, por exemplo. Do relato do estudante, desprendia-se entusiasmo. Confesso que n\u00e3o senti inveja (nem da boa. Existe isso?) nem me apequenei (como diria o falecido Sergio Motta, que embarcou com a mesma e pavorosa doen\u00e7a que levou meu pai &#8211; enfisema pulmonar). Antes, senti verdadeiro orgulho pelo feito do menino de 25 anos pois isso evocava uma proeza minha da mesma natureza, da mesma magnitude. O m\u00eas era janeiro e o ano, 1984. Nessa \u00e9poca, o nem t\u00e3o menino aqui curtia a for\u00e7a dos 31 anos (ainda bem que sou ruim de aritm\u00e9tica e n\u00e3o sei calcular minha atual idade). Botei na cabe\u00e7a que iria visitar o homem de qualquer jeito. De que maneira faz\u00ea-lo? O \u00fanico tra\u00e7o em \u00a0comum, ele mineiro e eu filho de mineiro. N\u00e3o era pouco mas n\u00e3o era muito. Minas tem gente, muita gente nativa espalhada por mais de 800 munic\u00edpios, sem contar a mineirada que pipoca (e fofoca) por todo o pa\u00eds. Reuni coragem, \u00f3leo de peroba no rosto, e embiquei (cad\u00ea o Agamenon?) na dire\u00e7\u00e3o da Gloria. Chego ao simp\u00e1tico bairro carioca &#8211; rel\u00f3gio no poste, enviesadamente o monumento dos pracinhas (um dos her\u00f3is da Segunda Guerra, Lelio Martins de Souza, \u00e9 hom\u00f4nimo do meu pai), o tradicional hotel (ainda \u00e9 do Eike Batista?) ainda em reformas, o Catete ali atr\u00e1s, o centro da Cidade Maravilhosa mais adiante. Paro defronte ao pr\u00e9dio do &#8220;conterr\u00e2neo&#8221;, falo com o porteiro (\u00e0quela \u00e9poca, abordagem direta e tranquila; hoje, imposs\u00edvel), que me indica o elevador (tinha porta pantogr\u00e1fica?). Pouco convicto subo pelos andares daquele edif\u00edcio antigo e, com certeza, nimbado de lembran\u00e7as e recorda\u00e7\u00f5es. Toco a campanhia esperando &#8220;n\u00e3o est\u00e1&#8221;, &#8220;viajou&#8221;, &#8220;foi dar uma palestra&#8221; ou coisa parecida. Secret\u00e1ria abre a porta do ap\u00ea, digo-lhe que desejo falar com o dono da casa. Pergunta-me educadamente quem sou. Ocorreu-me s\u00f3 isso: &#8220;sou um leitor&#8221;. Passado um tempinho, uma eternidade, quem assoma \u00e0 porta? Ele mesmo, o grande Pedro Nava. Convidou-me a entrar. Sentamo-nos no sof\u00e1 da sala e foi dada a partida. Guardei bem, a conversa transcorreu agradabil\u00edssima (para\u00a0 mim, obviamente), da qual extraio duas passagens. Tietagem \u00e0 parte, consignei que achava Ba\u00fa de Ossos, Bal\u00e3o Cativo,Ch\u00e3o de Ferro, Beira-Mar, Galo-das-Trevas \u00a0livros superiores em boa parte ao Em busca do tempo perdido e aos seis tomos que o seguiram, obra fant\u00e1stica. Fui severamente repreendido. Com honestidade intelectual, o anfitri\u00e3o me deu um sacode, &#8220;Proust \u00e9 insuper\u00e1vel&#8221;. Sinceramente, num &#8220;duelo&#8221; entre os dois virtuoses, d\u00e1 empate. Recuperado da chinelada, indaguei ao poeta, ao maior memorialista brasileiro, se, ao tempo em que o m\u00e9dico de tudo e de todos ia vivendo os fatos, os epis\u00f3dios, os descaminhos, a mente dele j\u00e1 n\u00e3o ia &#8220;catalogando e lavrando&#8221; as mem\u00f3rias, como num document\u00e1rio pari passu. O simp\u00e1tico velhinho do clube dos octogen\u00e1rios: &#8220;N\u00e3o, de jeito nenhum&#8221;. Cinco meses depois desse emocionante (para mim, repito) encontro, debaixo de uma \u00e1rvore pr\u00f3xima a esse pr\u00e9dio dos anos 1950, para tristeza dos amigos, das amigas, da turma das letras, dos milhares de leitores e leitoras, Pedro Nava enfia cirurgicamente um bala\u00e7o na cabe\u00e7a e &#8220;sai da vida para entrar na hist\u00f3ria&#8221;. &nbsp; 16 de outubro de 2013 (014) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-55","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}