{"id":639,"date":"2015-12-21T22:59:36","date_gmt":"2015-12-21T22:59:36","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=639"},"modified":"2015-12-21T22:59:36","modified_gmt":"2015-12-21T22:59:36","slug":"anjos-de-barro-vi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/anjos-de-barro-vi\/","title":{"rendered":"Anjos de Barro (VI)"},"content":{"rendered":"<p>O meu liame com tudo isso: Daniela, personagem do cap\u00edtulo &#8220;Anjos de Barro&#8221; e grande especialista em telenovelas.<\/p>\n<p>A terna mo\u00e7a, a quem encontro vez que outra nos anivers\u00e1rios de fam\u00edlia, \u00e9<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">a) irm\u00e3 do Luizinho, melhor amigo do meu irm\u00e3o ca\u00e7ula, Joel, num estreito e prof\u00edcuo conv\u00edvio de mais de trinta anos;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">b) irm\u00e3 do Serginho, meu colega de Bacen e marido de minha irm\u00e3 Mariza h\u00e1 d\u00e9cada e meia.<\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de pai de filho que j\u00e1 se foi precocemente (vide homenagem que aqui prestei, &#8220;Meu Velha I a V&#8221;), \u00a0mando meu especial abra\u00e7o a Sergio Porto e Maria Stela, extremados e amorosos pais da Daniela.<\/p>\n<p>Aproveito ainda para, numa \u00faltima contraven\u00e7\u00e3o, expropriar o in\u00edcio da narrativa do autor da pungente obra, Jos\u00e9 Maria Mayrynk, que bem nos d\u00e1 ideia de uma fase marcante da vida desse cult\u00edssimo casal de professores da UnB, numa situa\u00e7\u00e3o que hoje tamb\u00e9m \u00e9 vivida pelo deputado Rom\u00e1rio, vasca\u00edno de sempre, e pelo governador Eduardo Campos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) Jamais imaginaram que pudessem ter um filho excepcional. &#8216;Desgra\u00e7a s\u00f3 acontece com os vizinhos&#8217;, assim pensava S\u00e9rgio Dayrell Porto, professor da Universidade de Bras\u00edlia, sonhando com a vinda de uma menina \u2013 sua paix\u00e3o depois de tr\u00eas homens, Serginho, Andr\u00e9 e Luiz Guilherme. Telinha, soci\u00f3loga e mineira como ele, tinha 28 anos quando Daniela nasceu. Foi uma alegria enorme, afinal uma &#8216;filha mulher&#8217;, como se costuma falar em Minas Gerais. No mesmo dia, 27 de fevereiro de 1974, a m\u00e9dica do ber\u00e7\u00e1rio chamou S\u00e9rgio e disse, sem mais nem menos:<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;&#8216;\u00c9 mongol\u00f3ide.&#8217;<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>Ele estava desconfiado de que houvesse algo errado: n\u00e3o levavam o beb\u00ea para a m\u00e3e amamentar e na cabeceira do ber\u00e7o\u00a0<\/em><\/span><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>havia uma etiqueta diferente das outras. S\u00e9rgio olhou o rosto da filha,triangular, os olhos puxados. Dona Stella, a av\u00f3, tamb\u00e9m reparou e disse &#8216;parece japonesa&#8217;, antes de saber de nada. Foi s\u00f3 dois dias depois que Telinha viu Daniela e, no primeiro instante, estranhou:<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela.jpg\" rel=\"attachment wp-att-640\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-640 aligncenter\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela.jpg\" alt=\"Daniela\" width=\"445\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela.jpg 567w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela-300x225.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela-200x150.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Daniela-400x300.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;&#8216;Essa menina n\u00e3o \u00e9 minha filha.&#8217;<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;A enfermeira brincou que o hospital n\u00e3o trocava crian\u00e7as, mas n\u00e3o contou nada. Os m\u00e9dicos aconselharam esperar mais algumas semanas, alegando que o impacto sobre a m\u00e3e poderia prejudicar a amamenta\u00e7\u00e3o. Dona Stella, a m\u00e3e de Telinha, n\u00e3o fez mais coment\u00e1rios, mas um dia S\u00e9rgio surpreendeu-a folheando a cole\u00e7\u00e3o &#8216;Nossas Crian\u00e7as&#8217;, em busca de uma explica\u00e7\u00e3o. S\u00e9rgio suportou sozinho o peso de seu fardo:<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;&#8216;Quase ca\u00ed pra tr\u00e1s, quando a m\u00e9dica me deu a not\u00edcia. Eu tinha preconceito contra mongol\u00f3ide, achava horr\u00edvel e logo me veio \u00e0 lembran\u00e7a o rosto de todos os que conhecia. Vivi um m\u00eas de ang\u00fastia insuport\u00e1vel, vendo as pessoas da fam\u00edlia comunicarem-se com os olhos, sem falar nada. Eu sabia, mas n\u00e3o queria acreditar. Discuticom o pediatra. Daniela n\u00e3o tinha o M da m\u00e3o normal, o ded\u00e3o do p\u00e9 era separado dos outros, o pesco\u00e7o reto e grosso, os movimentos bruscos&#8230; mas n\u00e3o seria s\u00f3 porque me puxou? Quando eu era pequeno, tinha o apelido de Chin, parecia um chinezinho. Mostrei at\u00e9 retrato. A conselho de um amigo, procurei o dr. Ant\u00f4nio M\u00e1rcio Lisboa, o maior pediatra de Bras\u00edlia. Mas ele n\u00e3o dava diagn\u00f3stico antes dos seis meses. Eu teria de reparar se Daniela n\u00e3o deitava de bru\u00e7os e levantava a cabecinha, como se fosse tirar fotografia. Depois de seis meses, os exames confirmaram aquilo que todo mundo j\u00e1 suspeitava: mongolismo. Tinha certeza que n\u00e3o era heredit\u00e1rio, era uma aberra\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que a Medicina n\u00e3o consegue explicar. Esses seis meses foram terr\u00edveis e um dia o m\u00e9dico pediatra do Hospital-Escola da Universidade de Bras\u00edlia, em Sobradinho, me sentenciou uma frase t\u00e9trica: &#8211; Nada a fazer. Os m\u00e9dicos, ignorantes a respeito da excepcionalidade, me falavam assim, mas eu fiz um ato de f\u00e9: Tudo a fazer. E resolvi lutar pela Daniela&#8217;.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">28 de fevereiro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(053)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu liame com tudo isso: Daniela, personagem do cap\u00edtulo &#8220;Anjos de Barro&#8221; e grande especialista em telenovelas. 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Aproveito ainda para, numa \u00faltima contraven\u00e7\u00e3o, expropriar o in\u00edcio da narrativa do autor da pungente obra, Jos\u00e9 Maria Mayrynk, que bem nos d\u00e1 ideia de uma fase marcante da vida desse cult\u00edssimo casal de professores da UnB, numa situa\u00e7\u00e3o que hoje tamb\u00e9m \u00e9 vivida pelo deputado Rom\u00e1rio, vasca\u00edno de sempre, e pelo governador Eduardo Campos. &#8220;(&#8230;) Jamais imaginaram que pudessem ter um filho excepcional. &#8216;Desgra\u00e7a s\u00f3 acontece com os vizinhos&#8217;, assim pensava S\u00e9rgio Dayrell Porto, professor da Universidade de Bras\u00edlia, sonhando com a vinda de uma menina \u2013 sua paix\u00e3o depois de tr\u00eas homens, Serginho, Andr\u00e9 e Luiz Guilherme. Telinha, soci\u00f3loga e mineira como ele, tinha 28 anos quando Daniela nasceu. Foi uma alegria enorme, afinal uma &#8216;filha mulher&#8217;, como se costuma falar em Minas Gerais. No mesmo dia, 27 de fevereiro de 1974, a m\u00e9dica do ber\u00e7\u00e1rio chamou S\u00e9rgio e disse, sem mais nem menos: &#8220;&#8216;\u00c9 mongol\u00f3ide.&#8217; Ele estava desconfiado de que houvesse algo errado: n\u00e3o levavam o beb\u00ea para a m\u00e3e amamentar e na cabeceira do ber\u00e7o\u00a0havia uma etiqueta diferente das outras. S\u00e9rgio olhou o rosto da filha,triangular, os olhos puxados. Dona Stella, a av\u00f3, tamb\u00e9m reparou e disse &#8216;parece japonesa&#8217;, antes de saber de nada. Foi s\u00f3 dois dias depois que Telinha viu Daniela e, no primeiro instante, estranhou: &#8220;&#8216;Essa menina n\u00e3o \u00e9 minha filha.&#8217; &#8220;A enfermeira brincou que o hospital n\u00e3o trocava crian\u00e7as, mas n\u00e3o contou nada. Os m\u00e9dicos aconselharam esperar mais algumas semanas, alegando que o impacto sobre a m\u00e3e poderia prejudicar a amamenta\u00e7\u00e3o. Dona Stella, a m\u00e3e de Telinha, n\u00e3o fez mais coment\u00e1rios, mas um dia S\u00e9rgio surpreendeu-a folheando a cole\u00e7\u00e3o &#8216;Nossas Crian\u00e7as&#8217;, em busca de uma explica\u00e7\u00e3o. S\u00e9rgio suportou sozinho o peso de seu fardo: &#8220;&#8216;Quase ca\u00ed pra tr\u00e1s, quando a m\u00e9dica me deu a not\u00edcia. Eu tinha preconceito contra mongol\u00f3ide, achava horr\u00edvel e logo me veio \u00e0 lembran\u00e7a o rosto de todos os que conhecia. Vivi um m\u00eas de ang\u00fastia insuport\u00e1vel, vendo as pessoas da fam\u00edlia comunicarem-se com os olhos, sem falar nada. Eu sabia, mas n\u00e3o queria acreditar. Discuticom o pediatra. Daniela n\u00e3o tinha o M da m\u00e3o normal, o ded\u00e3o do p\u00e9 era separado dos outros, o pesco\u00e7o reto e grosso, os movimentos bruscos&#8230; mas n\u00e3o seria s\u00f3 porque me puxou? Quando eu era pequeno, tinha o apelido de Chin, parecia um chinezinho. Mostrei at\u00e9 retrato. A conselho de um amigo, procurei o dr. Ant\u00f4nio M\u00e1rcio Lisboa, o maior pediatra de Bras\u00edlia. Mas ele n\u00e3o dava diagn\u00f3stico antes dos seis meses. Eu teria de reparar se Daniela n\u00e3o deitava de bru\u00e7os e levantava a cabecinha, como se fosse tirar fotografia. Depois de seis meses, os exames confirmaram aquilo que todo mundo j\u00e1 suspeitava: mongolismo. Tinha certeza que n\u00e3o era heredit\u00e1rio, era uma aberra\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que a Medicina n\u00e3o consegue explicar. Esses seis meses foram terr\u00edveis e um dia o m\u00e9dico pediatra do Hospital-Escola da Universidade de Bras\u00edlia, em Sobradinho, me sentenciou uma frase t\u00e9trica: &#8211; Nada a fazer. Os m\u00e9dicos, ignorantes a respeito da excepcionalidade, me falavam assim, mas eu fiz um ato de f\u00e9: Tudo a fazer. 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