{"id":743,"date":"2015-12-22T02:44:08","date_gmt":"2015-12-22T02:44:08","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=743"},"modified":"2015-12-22T02:44:08","modified_gmt":"2015-12-22T02:44:08","slug":"o-perfume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/o-perfume\/","title":{"rendered":"O perfume"},"content":{"rendered":"<p>Na <em>Playboy<\/em> \u00a0de mar\u00e7o p.p., o Mario Prata, n\u00e3o bastasse ser escritor dos bons e ter trazido ao mundo um filho que \u00e9 do ramo e bate um bol\u00e3o aos domingos na Folha de S\u00e3o Paulo, presenteia-nos com uma deliciosa cr\u00f4nica. Nela, lemos a historieta de um homem, ele mesmo, situado em gera\u00e7\u00e3o pouco acima da minha, apegado \u00e0 macheza, cujos sinais nos dias de hoje se esfuma\u00e7am cada vez mais.<\/p>\n<p>Lembro que, \u00e0 \u00e9poca sobre a qual ele se det\u00e9m na revista (l\u00e1 se v\u00e3o cinquenta anos e tijolada), n\u00e3o se admitiam atitudes e gestos, digamos, afrescalhados. Era muito evocado na minha fam\u00edlia um epis\u00f3dio, de dura\u00e7\u00e3o curt\u00edssima mas com alta carga de homofobia.<\/p>\n<p>Viagem de Bras\u00edlia a Goi\u00e2nia, ou de l\u00e1 para a Capital Federal, n\u00e3o importa. Tr\u00eas no carro. E que carro!<\/p>\n<figure id=\"attachment_744\" aria-describedby=\"caption-attachment-744\" style=\"width: 530px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/karmann_ghia.jpg\" rel=\"attachment wp-att-744\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-744\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/karmann_ghia.jpg\" alt=\"http:\/\/cartype.com\/pics\/3826\/full\/vw_karmann_ghia_fs1.jpg\" width=\"530\" height=\"273\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-744\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/cartype.com\/pics\/3826\/full\/vw_karmann_ghia_fs1.jpg<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">Na realidade, o ve\u00edculo \u00e9 mero figurante nesta postagem. Por\u00e9m, \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o homenagear esse carango (mais um termo da era Antes de Cristo) que nos fascinou durante toda a inf\u00e2ncia e juventude. Incontida \u00e9 minha inveja tanto do sereno e af\u00e1vel Paulinho da Viola, dono de um Karmann Ghia quase todo reformado por ele mesmo na garagem de casa, quanto daquela personagem ninfoman\u00edaca, mo\u00e7a de franja a desfilar com um KG vermelho &#8211; e ainda por cima (sem trocadilho) convers\u00edvel &#8211; nos cap\u00edtulos finais da \u00faltima novela global das nove que acabou por a\u00ed.<br \/>\nTr\u00eas viajantes. Um tio meu (paterno) de copiloto; ao volante, um grande amigo da fam\u00edlia (que anos depois namorou uma bela tia materna minha, j\u00e1 falecida), e no banco traseiro, duro paca, nada \u00e9 perfeito, o nerd sobrinho do motorista. O cerrado ressequido passava como um filme mudo na janela fechada quando esse passageiro do banco de igreja, com a inoc\u00eancia de seus doze anos, exclama: &#8220;Que cavalinho bonitinho!&#8221; O tempo, n\u00e3o l\u00e1 fora e sim no interior da &#8220;m\u00e1quina&#8221;, fechou, e fechou feio. N\u00e3o sei se o tio do garoto abominou os dois diminutivos xif\u00f3pagos, ou a voz que teria sa\u00eddo um pouco fina, ou ainda a admira\u00e7\u00e3o do menino pela anim\u00e1lia, ou mais exatamente o conjunto da obra. O fato \u00e9 que o chaufer ( de chofer; no Brasil, at\u00e9 ao meio do Sec. XX, predominava o franc\u00eas) teve a pachorra de parar o carro, olhar para tr\u00e1s e disparar com voz aterradora: &#8220;Fala como homem, porra.&#8221;<br \/>\nOs costumes eram assim: azul de um lado, rosa do outro: futebol pra menino, boneca pra menina; Bolinha pra c\u00e1, Luluzinha pra l\u00e1. O machismo tamb\u00e9m permeava a intelectualidade. N\u00e3o sei se a frase \u00e9 do Mill\u00f4r Fernandes (que infelizmente j\u00e1 se foi) ou do Jaguar (que felizmente ainda est\u00e1 por aqui): &#8220;Quem escreve &#8216;veado&#8217; com &#8220;e&#8221; \u00e9 viado.&#8221; Para al\u00e9m do debate sobre morfologia, o que aflora \u00e9 a homofobia. Tem mais. O g\u00eanio da ra\u00e7a, nascido, como todos sabem, na Zona Norte do Rio de Janeiro (bairro do Meier), vendo muitos e muitos homens sistematicamente saindo do arm\u00e1rio, soltou esta outra p\u00e9rola homof\u00f3bica: &#8220;Sou a favor do homossexualismo masculino, desde que n\u00e3o seja obrigat\u00f3rio para todos.&#8221;<br \/>\nTempos dif\u00edceis nesse particular. Nos meus 8, 9 anos de idade, sand\u00e1lia de borracha (Havaiana, Ipanema, Rider) era coisa de mulher. Homem de brinquinho? S\u00f3 muitos anos depois.<\/p>\n<p>E o perfume com isso tudo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">09 de junho de 2014<br \/>\n(068)<br \/>\n<span style=\"text-decoration: underline;\"><span style=\"color: #0000ff; text-decoration: underline;\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Playboy \u00a0de mar\u00e7o p.p., o Mario Prata, n\u00e3o bastasse ser escritor dos bons e ter trazido ao mundo um filho que \u00e9 do ramo e bate um bol\u00e3o aos domingos na Folha de S\u00e3o Paulo, presenteia-nos com uma deliciosa cr\u00f4nica. Nela, lemos a historieta de um homem, ele mesmo, situado em gera\u00e7\u00e3o pouco acima da minha, apegado \u00e0 macheza, cujos sinais nos dias de hoje se esfuma\u00e7am cada vez mais. Lembro que, \u00e0 \u00e9poca sobre a qual ele se det\u00e9m na revista (l\u00e1 se v\u00e3o cinquenta anos e tijolada), n\u00e3o se admitiam atitudes e gestos, digamos, afrescalhados. Era muito evocado na minha fam\u00edlia um epis\u00f3dio, de dura\u00e7\u00e3o curt\u00edssima mas com alta carga de homofobia. Viagem de Bras\u00edlia a Goi\u00e2nia, ou de l\u00e1 para a Capital Federal, n\u00e3o importa. Tr\u00eas no carro. E que carro! Na realidade, o ve\u00edculo \u00e9 mero figurante nesta postagem. Por\u00e9m, \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o homenagear esse carango (mais um termo da era Antes de Cristo) que nos fascinou durante toda a inf\u00e2ncia e juventude. Incontida \u00e9 minha inveja tanto do sereno e af\u00e1vel Paulinho da Viola, dono de um Karmann Ghia quase todo reformado por ele mesmo na garagem de casa, quanto daquela personagem ninfoman\u00edaca, mo\u00e7a de franja a desfilar com um KG vermelho &#8211; e ainda por cima (sem trocadilho) convers\u00edvel &#8211; nos cap\u00edtulos finais da \u00faltima novela global das nove que acabou por a\u00ed. Tr\u00eas viajantes. Um tio meu (paterno) de copiloto; ao volante, um grande amigo da fam\u00edlia (que anos depois namorou uma bela tia materna minha, j\u00e1 falecida), e no banco traseiro, duro paca, nada \u00e9 perfeito, o nerd sobrinho do motorista. O cerrado ressequido passava como um filme mudo na janela fechada quando esse passageiro do banco de igreja, com a inoc\u00eancia de seus doze anos, exclama: &#8220;Que cavalinho bonitinho!&#8221; O tempo, n\u00e3o l\u00e1 fora e sim no interior da &#8220;m\u00e1quina&#8221;, fechou, e fechou feio. N\u00e3o sei se o tio do garoto abominou os dois diminutivos xif\u00f3pagos, ou a voz que teria sa\u00eddo um pouco fina, ou ainda a admira\u00e7\u00e3o do menino pela anim\u00e1lia, ou mais exatamente o conjunto da obra. O fato \u00e9 que o chaufer ( de chofer; no Brasil, at\u00e9 ao meio do Sec. XX, predominava o franc\u00eas) teve a pachorra de parar o carro, olhar para tr\u00e1s e disparar com voz aterradora: &#8220;Fala como homem, porra.&#8221; Os costumes eram assim: azul de um lado, rosa do outro: futebol pra menino, boneca pra menina; Bolinha pra c\u00e1, Luluzinha pra l\u00e1. O machismo tamb\u00e9m permeava a intelectualidade. N\u00e3o sei se a frase \u00e9 do Mill\u00f4r Fernandes (que infelizmente j\u00e1 se foi) ou do Jaguar (que felizmente ainda est\u00e1 por aqui): &#8220;Quem escreve &#8216;veado&#8217; com &#8220;e&#8221; \u00e9 viado.&#8221; Para al\u00e9m do debate sobre morfologia, o que aflora \u00e9 a homofobia. Tem mais. O g\u00eanio da ra\u00e7a, nascido, como todos sabem, na Zona Norte do Rio de Janeiro (bairro do Meier), vendo muitos e muitos homens sistematicamente saindo do arm\u00e1rio, soltou esta outra p\u00e9rola homof\u00f3bica: &#8220;Sou a favor do homossexualismo masculino, desde que n\u00e3o seja obrigat\u00f3rio para todos.&#8221; Tempos dif\u00edceis nesse particular. Nos meus 8, 9 anos de idade, sand\u00e1lia de borracha (Havaiana, Ipanema, Rider) era coisa de mulher. Homem de brinquinho? S\u00f3 muitos anos depois. E o perfume com isso tudo? &nbsp; 09 de junho de 2014 (068) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-743","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/743","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=743"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/743\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=743"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=743"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=743"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}