{"id":801,"date":"2015-12-22T17:32:02","date_gmt":"2015-12-22T17:32:02","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=801"},"modified":"2015-12-22T17:32:02","modified_gmt":"2015-12-22T17:32:02","slug":"memoriasmemorialistas-xiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-xiv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (XIV)"},"content":{"rendered":"<p>Do privilegiado e merecido recanto onde mora no c\u00e9u, o Paulo Duarte nos respondeu que iria permitir expressamente o empr\u00e9stimo, para este modesto\u00a0<em>blog<\/em>, de algumas das passagens de sua hist\u00f3ria de vida. Fez mais: convalidou o uso que aqui fiz\u00e9ramos de outros trechos e ainda autorizou novas postagens, com parcim\u00f4nia, sob pena de violarmos o sagrado direito autoral.<\/p>\n<p>Sem deixar de manter a inflex\u00e3o no campus da USP, o memorialista vez que outra foge dos ambientes cultos, eruditos, se dispersa contudo fertilmente, at\u00e9 chegar \u00e0 zona rural a pretexto de se deter no perfil do Tio Jo\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;(&#8230;) Uma tarde, foi ele visitar um vizinho que estava doente, ao lado do caminho que ia para Ribeir\u00e3o Preto, morador num s\u00edtio distante menos de meia l\u00e9gua. Por isso saiu sozinho na companhia insepar\u00e1vel do Tuf\u00e3o, um cachorro rajado, o preferido de uma matilha de cerca de vinte c\u00e3es, quase todos descendentes da cachorrada de um tio, o capit\u00e3o Mata On\u00e7a, famoso em toda regi\u00e3o, cujo nome verdadeiro era Gabriel Junqueira, grande ca\u00e7ador, valente e atirado, falecido em 1873, depois de haver abatido cerca de cem on\u00e7as, da\u00ed o apelido, deixando uma fazenda de 15 mil alqueires. Foi o centro de todas as atividades sociais da regi\u00e3o compreendidas em terras hoje pertencentes aos Munic\u00edpios de S. Sim\u00e3o e Ribeir\u00e3o Preto.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Esse j\u00e1 long\u00ednquo tio-bisav\u00f4, tio Jo\u00e3o possu\u00eda tamb\u00e9m uma matilha de ca\u00e7a de mais de vinte cachorros, mas entre todos o predileto era esse Tuf\u00e3o, rajado, jaguara\u00edva escarrado (hoje se diria vira-lata) de imensa riqueza \u00e9tnica, como acontece com todos os grandes grupos miscigenados, embora tenham opini\u00e3o contr\u00e1ria os racistas de meia-tijela, como todos os racistas, ricos de soberba mas sem riqueza zool\u00f3gica, principalmente tratando-se de zoologia humana. Todos esses c\u00e3es a cargo de um afamado &#8220;cachorreiro&#8221;, fun\u00e7\u00e3o institu\u00edda pelos Junqueiras, todos, menos o Tuf\u00e3o, que este dormia e comia na casa-grande, ao lado do patr\u00e3o de quem n\u00e3o desgrudava.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Pois o nosso Junqueira permanecera na prosa mais tempo do que desejava, de modo que anoitecia quando deixou a casa do amigo e embrenhou-se de novo pelo peda\u00e7o da floresta que o caminho de Ribeir\u00e3o Preto cortava de l\u00e9s a l\u00e9s. A noite os encontrou ainda dentro da mata, embora j\u00e1 muito pr\u00f3ximo de casa. Foi quando o Tuf\u00e3o se arrepiou todo e p\u00f4s-se de guarda, rosnando. Uns olhos fosforescentes apareceram e atacaram. A luta no escuro foi feroz. De um lado, a on\u00e7a faminta, do outro um cachorro rajado e um Junqueira. Em dado momento, os dois canos da garrucha do \u00faltimo roncaram ao mesmo tempo. O Tuf\u00e3o jazia seriamente ferido. Ferido tamb\u00e9m, mas em melhor situa\u00e7\u00e3o, o Junqueira pegou o amigo nos dois bra\u00e7os.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><a href=\"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Onca.jpg\" rel=\"attachment wp-att-804\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-804\" src=\"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Onca.jpg\" alt=\"Onca\" width=\"973\" height=\"694\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Tr\u00eas quil\u00f4metros de desespero at\u00e9 chegar em casa, exausto. O rijo Junqueira tinto de sangue, sangue de homem e sangue de cachorro. Para um Junqueira, sangue de parente pr\u00f3ximo. Ajudado por pessoas da fam\u00edlia, arrastou-se at\u00e9 o quarto do casal, em cuja cama Tuf\u00e3o foi deitado. S\u00f3 a\u00ed se verificou o estrago feito. O patr\u00e3o com o ombro lanhado, o peito e as m\u00e3os em sangue, o cachorro em m\u00edsero estado. O rabo inteiro e uma orelha ficaram na boca da on\u00e7a, um olho vasado, por pouco, a passagem de uma garra n\u00e3o efetivou uma laparotomia no ventre do cachorro que estrebuchava. Mas a arnica, a pinga canforada, juntas para fazer o que pudesse. Uma semana de repouso na cama do patr\u00e3o cuidou do resto&#8230; E Tuf\u00e3o p\u00f4s-se de p\u00e9 contente da vida, mas sem uma orelha, sem o rabo, decepado t\u00e3o rente que nem podia esconder o que devia e um olho de menos, parecia um lobisomem acuado por um esconjuro. Todas as noites o ferido passara lambido pelos olhos do patr\u00e3o que fazia promessa a N. S. de Lourdes, procurava descobrir como premiar o amigo fiel e corajoso. Uma madrugada, quando este demonstrava haver conservado pelo menos a vida, s\u00f3 ent\u00e3o veio uma ideia digna daquele grande sacrf\u00edcio: Uma viagem \u00e0 Europa! Sim, s\u00f3 mesmo uma viagem \u00e0 Europa seria recompensa digna ao her\u00f3ico sacrificado. Foi assim que os tr\u00eas embarcaram em Santos num vapor franc\u00eas. O comiss\u00e1rio do navio n\u00e3o consentiu que aquele &#8220;gueule-cass\u00e9e de soixante dix&#8221; pudesse ficar na cabina do dono, mas arranjou um canto em qualquer parte em que o Tuf\u00e3o pudesse dormir confortavelmente. Durante o dia ele vinha para cima dormitar ao p\u00e9 do dono e chegou at\u00e9 a brincar com as crian\u00e7as a bordo que se habituaram com aquela assombra\u00e7\u00e3o de cachorro. \u00c9 que Tuf\u00e3o era um bicho bem-humorado. S\u00f3 perdia a calma quando o dono era amea\u00e7ado. A velha on\u00e7a das matas de Ribeir\u00e3o tivera a prova disso&#8230;&#8221;<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">03 de agosto de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(079)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do privilegiado e merecido recanto onde mora no c\u00e9u, o Paulo Duarte nos respondeu que iria permitir expressamente o empr\u00e9stimo, para este modesto\u00a0blog, de algumas das passagens de sua hist\u00f3ria de vida. Fez mais: convalidou o uso que aqui fiz\u00e9ramos de outros trechos e ainda autorizou novas postagens, com parcim\u00f4nia, sob pena de violarmos o sagrado direito autoral. Sem deixar de manter a inflex\u00e3o no campus da USP, o memorialista vez que outra foge dos ambientes cultos, eruditos, se dispersa contudo fertilmente, at\u00e9 chegar \u00e0 zona rural a pretexto de se deter no perfil do Tio Jo\u00e3o. &#8220;(&#8230;) Uma tarde, foi ele visitar um vizinho que estava doente, ao lado do caminho que ia para Ribeir\u00e3o Preto, morador num s\u00edtio distante menos de meia l\u00e9gua. Por isso saiu sozinho na companhia insepar\u00e1vel do Tuf\u00e3o, um cachorro rajado, o preferido de uma matilha de cerca de vinte c\u00e3es, quase todos descendentes da cachorrada de um tio, o capit\u00e3o Mata On\u00e7a, famoso em toda regi\u00e3o, cujo nome verdadeiro era Gabriel Junqueira, grande ca\u00e7ador, valente e atirado, falecido em 1873, depois de haver abatido cerca de cem on\u00e7as, da\u00ed o apelido, deixando uma fazenda de 15 mil alqueires. Foi o centro de todas as atividades sociais da regi\u00e3o compreendidas em terras hoje pertencentes aos Munic\u00edpios de S. Sim\u00e3o e Ribeir\u00e3o Preto. &#8220;Esse j\u00e1 long\u00ednquo tio-bisav\u00f4, tio Jo\u00e3o possu\u00eda tamb\u00e9m uma matilha de ca\u00e7a de mais de vinte cachorros, mas entre todos o predileto era esse Tuf\u00e3o, rajado, jaguara\u00edva escarrado (hoje se diria vira-lata) de imensa riqueza \u00e9tnica, como acontece com todos os grandes grupos miscigenados, embora tenham opini\u00e3o contr\u00e1ria os racistas de meia-tijela, como todos os racistas, ricos de soberba mas sem riqueza zool\u00f3gica, principalmente tratando-se de zoologia humana. Todos esses c\u00e3es a cargo de um afamado &#8220;cachorreiro&#8221;, fun\u00e7\u00e3o institu\u00edda pelos Junqueiras, todos, menos o Tuf\u00e3o, que este dormia e comia na casa-grande, ao lado do patr\u00e3o de quem n\u00e3o desgrudava. &#8220;Pois o nosso Junqueira permanecera na prosa mais tempo do que desejava, de modo que anoitecia quando deixou a casa do amigo e embrenhou-se de novo pelo peda\u00e7o da floresta que o caminho de Ribeir\u00e3o Preto cortava de l\u00e9s a l\u00e9s. A noite os encontrou ainda dentro da mata, embora j\u00e1 muito pr\u00f3ximo de casa. Foi quando o Tuf\u00e3o se arrepiou todo e p\u00f4s-se de guarda, rosnando. Uns olhos fosforescentes apareceram e atacaram. A luta no escuro foi feroz. De um lado, a on\u00e7a faminta, do outro um cachorro rajado e um Junqueira. Em dado momento, os dois canos da garrucha do \u00faltimo roncaram ao mesmo tempo. O Tuf\u00e3o jazia seriamente ferido. Ferido tamb\u00e9m, mas em melhor situa\u00e7\u00e3o, o Junqueira pegou o amigo nos dois bra\u00e7os. &#8220;Tr\u00eas quil\u00f4metros de desespero at\u00e9 chegar em casa, exausto. O rijo Junqueira tinto de sangue, sangue de homem e sangue de cachorro. Para um Junqueira, sangue de parente pr\u00f3ximo. Ajudado por pessoas da fam\u00edlia, arrastou-se at\u00e9 o quarto do casal, em cuja cama Tuf\u00e3o foi deitado. S\u00f3 a\u00ed se verificou o estrago feito. O patr\u00e3o com o ombro lanhado, o peito e as m\u00e3os em sangue, o cachorro em m\u00edsero estado. O rabo inteiro e uma orelha ficaram na boca da on\u00e7a, um olho vasado, por pouco, a passagem de uma garra n\u00e3o efetivou uma laparotomia no ventre do cachorro que estrebuchava. Mas a arnica, a pinga canforada, juntas para fazer o que pudesse. Uma semana de repouso na cama do patr\u00e3o cuidou do resto&#8230; E Tuf\u00e3o p\u00f4s-se de p\u00e9 contente da vida, mas sem uma orelha, sem o rabo, decepado t\u00e3o rente que nem podia esconder o que devia e um olho de menos, parecia um lobisomem acuado por um esconjuro. Todas as noites o ferido passara lambido pelos olhos do patr\u00e3o que fazia promessa a N. S. de Lourdes, procurava descobrir como premiar o amigo fiel e corajoso. Uma madrugada, quando este demonstrava haver conservado pelo menos a vida, s\u00f3 ent\u00e3o veio uma ideia digna daquele grande sacrf\u00edcio: Uma viagem \u00e0 Europa! Sim, s\u00f3 mesmo uma viagem \u00e0 Europa seria recompensa digna ao her\u00f3ico sacrificado. Foi assim que os tr\u00eas embarcaram em Santos num vapor franc\u00eas. O comiss\u00e1rio do navio n\u00e3o consentiu que aquele &#8220;gueule-cass\u00e9e de soixante dix&#8221; pudesse ficar na cabina do dono, mas arranjou um canto em qualquer parte em que o Tuf\u00e3o pudesse dormir confortavelmente. Durante o dia ele vinha para cima dormitar ao p\u00e9 do dono e chegou at\u00e9 a brincar com as crian\u00e7as a bordo que se habituaram com aquela assombra\u00e7\u00e3o de cachorro. \u00c9 que Tuf\u00e3o era um bicho bem-humorado. S\u00f3 perdia a calma quando o dono era amea\u00e7ado. A velha on\u00e7a das matas de Ribeir\u00e3o tivera a prova disso&#8230;&#8221; &nbsp; 03 de agosto de 2014 (079) mmsmarcos1953@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-801","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/801","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=801"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/801\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}