{"id":88,"date":"2015-12-18T15:49:26","date_gmt":"2015-12-18T15:49:26","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=88"},"modified":"2015-12-18T15:49:26","modified_gmt":"2015-12-18T15:49:26","slug":"memoriasmemorialistas-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/memoriasmemorialistas-iv\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias\/Memorialistas (IV),"},"content":{"rendered":"<p>Retornemos ao Paulo Duarte.<\/p>\n<p>Entre os seus oito livros de mem\u00f3ria (j\u00e1 admiti n\u00e3o saber quantos foram exatamente), tem um com este t\u00edtulo: &#8220;Apagada e vil mediocridade&#8221;.<br \/>\nO volume (quinto) poderia ter vindo a p\u00fablico somente assim, sem mais nada alinhavado, todas as p\u00e1ginas em branco. O ledor as percorreria por in\u00e9rcia, impulsionado por essas palavras da capa, consignadas h\u00e1 quase quarenta anos e t\u00e3o atuais.<\/p>\n<p>A mediocridade \u00e9 penumbrosa, \u00e9 desanimadora, campeia<br \/>\npor a\u00ed sedimentada por &#8220;doutrinadores&#8221;, &#8220;mestres&#8221;, &#8220;multiplicadores&#8221;<br \/>\ne tamb\u00e9m pelos que assumem com muita honra<br \/>\nser indiferentes ao que existe nas bibliotecas, nos museus, nas galerias, nos centros art\u00edsticos, ao que acontece nos teatros.<\/p>\n<p>Dito isso, abordemos &#8220;biografias&#8221;, &#8220;mem\u00f3rias&#8221; escritas por terceiros.<br \/>\nO debate sobre o tema, importante mas sacal (de quando \u00e9 essa express\u00e3o?), atualizou-se a partir do momento em que cantores expressivos articularam preocupa\u00e7\u00e3o com latentes<br \/>\nviola\u00e7\u00f5es de privacidade e livres redesenhos da vida de cada um deles, numa conta\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios sem compromissos com a realidade f\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nosso intelectual antecipou-se aos cantores e aos narradores de vidas alheias, profissionais (esses \u00faltimos) que, quando s\u00e9rios, ocupam a meu ver papel relevant\u00edssimo na cena cultural. Desassombrado, sem margem para a vilania (at\u00e9 por n\u00e3o poucos <em>mea culpa<\/em> espalhados pela obra), jogou quase toda a sua hist\u00f3ria para cr\u00edticas gerais, para ataques<br \/>\nde partes adversas.<\/p>\n<p>Ressalve-se, entretanto, que o fez devidamente municiado, numa \u00e9poca distante, muito distante dos computadores, dos registros eletr\u00f4nicos. Ocasionais bi\u00f3grafos do professor restam brindados com fartos elementos de pesquisa, o que, depois de posto, como que afasta<br \/>\no contradit\u00f3rio, j\u00e1 pavimentado o caminho da verdade material.<\/p>\n<p>Sai o blogueiro inzoneiro e assume o tim\u00e3o o comandante<br \/>\nque na singradura tem muito a dizer.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>&#8220;Possuo um arquivo de mais de cem mil comprovantes, embora mutilado pelas invas\u00f5es repetidas mais de uma vez do meu domic\u00edlio pela pol\u00edcia e ainda de pap\u00e9is desaparecidos pela vida n\u00f4made que me condenaram a cerca de dez anos de ex\u00edlio<br \/>\ne alguns anos mais de pris\u00f5es, somadas todas as que cumpri<br \/>\numas \u00e0s outras, isso sem contar fugas e coutos quando acossado pelos beleguins da pol\u00edtica e das revolu\u00e7\u00f5es. Assim mesmo,<br \/>\nos milhares que me ficaram escapados dessas invas\u00f5es<br \/>\ne sobressaltos s\u00e3o suficientes para validar qualquer prova civil, criminal\u00a0ou hist\u00f3rica. Ainda que com os vazios de alguma prova testemunhal que j\u00e1 me vai faltando, pois testemunhas que podem falar, id\u00f4neas, corajosas, incorrupt\u00edveis, escasseiam cada vez mais, em maioria sempre cada vez mais se esquivam, j\u00e1 por comodismo, j\u00e1 por medo, j\u00e1 por mera covardia. De outro lado, outras mais infelizes ou talvez mais felizes, sonegadas pela morte, n\u00e3o mais podem afirmar ou informar fatos para os quais me faltam documentos escritos, sumidos pela forma descrita, muitos deles talvez, hoje, em poder de quem n\u00e3o tem interesse em exibi-los ou com interesse em soneg\u00e1-los. Sem contar epis\u00f3dios que, por sua pr\u00f3pria natureza, s\u00f3 acontecem<br \/>\nsem testemunhas. Mas h\u00e1 o que ateste sua veracidade:<br \/>\no meu passado veraz notoriamente comprovado de lutas<br \/>\ne ren\u00fancias, de coer\u00eancia e tenacidade, transes ferozes<br \/>\nde viol\u00eancias grosseiras. Durante esses embates, fui levado<br \/>\na fazer, oralmente e por escrito, acusa\u00e7\u00f5es grav\u00edssimas que,<br \/>\nse falsas, provocariam pelos menos desmentidos solenes ou, mais concretamente, processos dos quais eu sa\u00edsse condenado. Tive-os, esses processos, numerosos, mas deles sempre voltei ileso e at\u00e9 purificado. Algu\u00e9m levou-me a mim e a Julio de Mesquita Filho<br \/>\na um j\u00fari popular, acusados de tr\u00eas crimes: inj\u00faria, difama\u00e7\u00e3o<br \/>\ne cal\u00fania. Fomos absolvidos por unanimidade e sa\u00edmos do tribunal, n\u00f3s ambos, mais limpos ainda e a autoria do epis\u00f3dio mais maculada do que nunca, n\u00e3o por n\u00f3s, mas pela sua vida pret\u00e9rita entretecida de indignidades. Numerosos outros processos iniciados contra mim foram abandonados,<br \/>\nantes dos sum\u00e1rios de culpa.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">09 de novembro de 2013<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\">(021)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px; text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retornemos ao Paulo Duarte. Entre os seus oito livros de mem\u00f3ria (j\u00e1 admiti n\u00e3o saber quantos foram exatamente), tem um com este t\u00edtulo: &#8220;Apagada e vil mediocridade&#8221;. O volume (quinto) poderia ter vindo a p\u00fablico somente assim, sem mais nada alinhavado, todas as p\u00e1ginas em branco. O ledor as percorreria por in\u00e9rcia, impulsionado por essas palavras da capa, consignadas h\u00e1 quase quarenta anos e t\u00e3o atuais. A mediocridade \u00e9 penumbrosa, \u00e9 desanimadora, campeia por a\u00ed sedimentada por &#8220;doutrinadores&#8221;, &#8220;mestres&#8221;, &#8220;multiplicadores&#8221; e tamb\u00e9m pelos que assumem com muita honra ser indiferentes ao que existe nas bibliotecas, nos museus, nas galerias, nos centros art\u00edsticos, ao que acontece nos teatros. Dito isso, abordemos &#8220;biografias&#8221;, &#8220;mem\u00f3rias&#8221; escritas por terceiros. O debate sobre o tema, importante mas sacal (de quando \u00e9 essa express\u00e3o?), atualizou-se a partir do momento em que cantores expressivos articularam preocupa\u00e7\u00e3o com latentes viola\u00e7\u00f5es de privacidade e livres redesenhos da vida de cada um deles, numa conta\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios sem compromissos com a realidade f\u00e1tica. Nosso intelectual antecipou-se aos cantores e aos narradores de vidas alheias, profissionais (esses \u00faltimos) que, quando s\u00e9rios, ocupam a meu ver papel relevant\u00edssimo na cena cultural. Desassombrado, sem margem para a vilania (at\u00e9 por n\u00e3o poucos mea culpa espalhados pela obra), jogou quase toda a sua hist\u00f3ria para cr\u00edticas gerais, para ataques de partes adversas. Ressalve-se, entretanto, que o fez devidamente municiado, numa \u00e9poca distante, muito distante dos computadores, dos registros eletr\u00f4nicos. Ocasionais bi\u00f3grafos do professor restam brindados com fartos elementos de pesquisa, o que, depois de posto, como que afasta o contradit\u00f3rio, j\u00e1 pavimentado o caminho da verdade material. Sai o blogueiro inzoneiro e assume o tim\u00e3o o comandante que na singradura tem muito a dizer. &#8220;Possuo um arquivo de mais de cem mil comprovantes, embora mutilado pelas invas\u00f5es repetidas mais de uma vez do meu domic\u00edlio pela pol\u00edcia e ainda de pap\u00e9is desaparecidos pela vida n\u00f4made que me condenaram a cerca de dez anos de ex\u00edlio e alguns anos mais de pris\u00f5es, somadas todas as que cumpri umas \u00e0s outras, isso sem contar fugas e coutos quando acossado pelos beleguins da pol\u00edtica e das revolu\u00e7\u00f5es. Assim mesmo, os milhares que me ficaram escapados dessas invas\u00f5es e sobressaltos s\u00e3o suficientes para validar qualquer prova civil, criminal\u00a0ou hist\u00f3rica. Ainda que com os vazios de alguma prova testemunhal que j\u00e1 me vai faltando, pois testemunhas que podem falar, id\u00f4neas, corajosas, incorrupt\u00edveis, escasseiam cada vez mais, em maioria sempre cada vez mais se esquivam, j\u00e1 por comodismo, j\u00e1 por medo, j\u00e1 por mera covardia. De outro lado, outras mais infelizes ou talvez mais felizes, sonegadas pela morte, n\u00e3o mais podem afirmar ou informar fatos para os quais me faltam documentos escritos, sumidos pela forma descrita, muitos deles talvez, hoje, em poder de quem n\u00e3o tem interesse em exibi-los ou com interesse em soneg\u00e1-los. Sem contar epis\u00f3dios que, por sua pr\u00f3pria natureza, s\u00f3 acontecem sem testemunhas. Mas h\u00e1 o que ateste sua veracidade: o meu passado veraz notoriamente comprovado de lutas e ren\u00fancias, de coer\u00eancia e tenacidade, transes ferozes de viol\u00eancias grosseiras. Durante esses embates, fui levado a fazer, oralmente e por escrito, acusa\u00e7\u00f5es grav\u00edssimas que, se falsas, provocariam pelos menos desmentidos solenes ou, mais concretamente, processos dos quais eu sa\u00edsse condenado. Tive-os, esses processos, numerosos, mas deles sempre voltei ileso e at\u00e9 purificado. Algu\u00e9m levou-me a mim e a Julio de Mesquita Filho a um j\u00fari popular, acusados de tr\u00eas crimes: inj\u00faria, difama\u00e7\u00e3o e cal\u00fania. Fomos absolvidos por unanimidade e sa\u00edmos do tribunal, n\u00f3s ambos, mais limpos ainda e a autoria do epis\u00f3dio mais maculada do que nunca, n\u00e3o por n\u00f3s, mas pela sua vida pret\u00e9rita entretecida de indignidades. 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