{"id":930,"date":"2015-12-25T04:31:31","date_gmt":"2015-12-25T04:31:31","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=930"},"modified":"2015-12-25T04:31:31","modified_gmt":"2015-12-25T04:31:31","slug":"cristalina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/cristalina\/","title":{"rendered":"Cristalina"},"content":{"rendered":"<p><em>\u201cPai! O Z\u00e9 matou um homem.\u201d<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito mais corriqueiro do que se pensa pais buscarem em algu\u00e9m o filho que partiu. Comigo n\u00e3o foi diferente. Superado meu\u00a0 trauma &#8211; que a rigor n\u00e3o \u00e9 super\u00e1vel &#8211; da perda do meu <em>Velha<\/em> (vide postagens 25 a 29, de 20 de novembro 2013), dei in\u00edcio a angustiante processo: substituir quem \u00e9 insubstitu\u00edvel,\u00a0 resgatar quem n\u00e3o volta jamais.<\/p>\n<p>Submetida a tr\u00eas cirurgias de cesariana e tendo feito laqueadura na \u00faltima delas, Tereza n\u00e3o mais podia engravidar &#8211; e n\u00f3s dois n\u00e3o cogit\u00e1vamos revers\u00e3o, vi\u00e1vel do ponto de vista t\u00e9cnico-cir\u00fargico mesmo \u00e0quela \u00e9poca (1983). Alucinadamente, dei para percorrer os orfanatos (quase todos) de Bras\u00edlia e, quando em viagem a servi\u00e7o do Bacen ou em car\u00e1ter particular, os de outros estados atr\u00e1s de uma crian\u00e7a que fosse parecida com meu filho, no prop\u00f3sito (quem sabe) de adot\u00e1-la.<\/p>\n<p>Transcorrido algum tempo, limiar dos anos 1990, viaj\u00e1vamos a Cristalina, munic\u00edpio goiano distante cerca de cem quil\u00f4metros do Distrito Federal, onde comprar\u00edamos pedras que a pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o da cidade j\u00e1 o indica. Encontro-me no carro lendo jornais; Tereza, nas lojas t\u00edpicas das cercanias. Dois garotos de dez e doze anos surgem na janela do lado do motorista, assustando o leitor, e lhe formulam o convite: \u201cMo\u00e7o, quer conhecer a mina do meu pai?\u201d Naquele ambiente, descabia infer\u00eancia de se tratar da mulher do pai deles, a mina, g\u00edria ent\u00e3o usada (pensando bem, vogava um pouco antes, 1960\/70) para garota, namorada, menina.<\/p>\n<p>Cuidei que iria deparar cristais brutos, n\u00e3o de todo lapidados, e compr\u00e1-los a pre\u00e7os mais em conta, abaixo pois dos praticados nas lojas, sempre cheias de turistas na desigual concorr\u00eancia dos d\u00f3lares. Tereza sa\u00eda da loja e voltava para a nossa camionete Santana <em>quantum<\/em>. Ao saber da inten\u00e7\u00e3o dos meninos, hesitou e passou a ideia de que a incurs\u00e3o tinha tudo para ser uma fria e, nesse momento, eu tamb\u00e9m fui tomado por um certo temor. A paranoia da popula\u00e7\u00e3o brasileira com seguran\u00e7a vem de longe, anda batendo nos trinta anos ou um pouco mais de exist\u00eancia, e ainda vai perdurar muito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_931\" aria-describedby=\"caption-attachment-931\" style=\"width: 747px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal.jpg\" rel=\"attachment wp-att-931\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-931\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal.jpg\" alt=\"http:\/\/ahau.org\/cristais-e-elixires\/\" width=\"747\" height=\"303\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal.jpg 747w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal-300x122.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal-669x272.jpg 669w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal-200x81.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal-400x162.jpg 400w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Cristal-600x243.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-931\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/ahau.org\/cristais-e-elixires\/<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Resolvemos de qualquer maneira acolher a proposta.<\/p>\n<p>Havia que sair do \u201ccentro nervoso\u201d da cidade e atravessar a estrada, a pista, a \u201cBR 40\u201d. Chegamos pr\u00f3ximo ao local anunciado, faltando s\u00f3 uma ladeira de terra de uns cem metros de comprimento. Numa t\u00e1tica que se nos afigurara a mais recomend\u00e1vel, machismo ou feminismo \u00e0 parte, eu subiria a p\u00e9 com os dois meninos at\u00e9 a casa deles, que apontava solit\u00e1ria l\u00e1 em cima do morrote, e Tereza permaneceria no carro para facilitar a rota de fuga.<\/p>\n<p>Z\u00e9 e Maria, candidamente sentados em pedras \u00e0 guisa de banco, pareciam j\u00e1 aguardar o trio &#8211; o potencial comprador e os dois vendedores mirins despachados pelo casal da minera\u00e7\u00e3o para a labuta di\u00e1ria (senhora candidata, senhor candidato, o Brasil precisa acabar com o trabalho infantil. Urgentemente). Ao me certificar de que ali n\u00e3o se corria perigo algum, gritei para que a Tereza ligasse o carro e subisse ao nosso encontro.<\/p>\n<p>A mina de cristal n\u00e3o era t\u00e3o perto dali. Todavia, o que desde logo nos ofereceram de mercadorias era o suficiente, n\u00e3o carec\u00edamos de mais nada, quartzos de todos os tamanhos, de faces l\u00edmpidas e fascinantes. Nossa conversa flu\u00eda, brincadeiras e gargalhadas eram ouvidas enquanto separ\u00e1vamos as pedras que ir\u00edamos levar. Prenunciava-se neg\u00f3cio interessante \u00e0s partes, sendo impens\u00e1vel enganar aquela gente simples e cordata. N\u00e3o sei o que acontecera comigo mas lembro que me levantei, dirigi-me \u00e0 porta do casebre escuro, dois ambientes apenas, paredes manchadas. Impressionado com o vulto est\u00e1tico naquela saleta penumbrosa, olhei para a Tereza e disse:<\/p>\n<p>\u201cVem ver uma coisa aqui!!!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Marcos Martins<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(100)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPai! O Z\u00e9 matou um homem.\u201d \u00c9 muito mais corriqueiro do que se pensa pais buscarem em algu\u00e9m o filho que partiu. Comigo n\u00e3o foi diferente. Superado meu\u00a0 trauma &#8211; que a rigor n\u00e3o \u00e9 super\u00e1vel &#8211; da perda do meu Velha (vide postagens 25 a 29, de 20 de novembro 2013), dei in\u00edcio a angustiante processo: substituir quem \u00e9 insubstitu\u00edvel,\u00a0 resgatar quem n\u00e3o volta jamais. Submetida a tr\u00eas cirurgias de cesariana e tendo feito laqueadura na \u00faltima delas, Tereza n\u00e3o mais podia engravidar &#8211; e n\u00f3s dois n\u00e3o cogit\u00e1vamos revers\u00e3o, vi\u00e1vel do ponto de vista t\u00e9cnico-cir\u00fargico mesmo \u00e0quela \u00e9poca (1983). Alucinadamente, dei para percorrer os orfanatos (quase todos) de Bras\u00edlia e, quando em viagem a servi\u00e7o do Bacen ou em car\u00e1ter particular, os de outros estados atr\u00e1s de uma crian\u00e7a que fosse parecida com meu filho, no prop\u00f3sito (quem sabe) de adot\u00e1-la. Transcorrido algum tempo, limiar dos anos 1990, viaj\u00e1vamos a Cristalina, munic\u00edpio goiano distante cerca de cem quil\u00f4metros do Distrito Federal, onde comprar\u00edamos pedras que a pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o da cidade j\u00e1 o indica. Encontro-me no carro lendo jornais; Tereza, nas lojas t\u00edpicas das cercanias. Dois garotos de dez e doze anos surgem na janela do lado do motorista, assustando o leitor, e lhe formulam o convite: \u201cMo\u00e7o, quer conhecer a mina do meu pai?\u201d Naquele ambiente, descabia infer\u00eancia de se tratar da mulher do pai deles, a mina, g\u00edria ent\u00e3o usada (pensando bem, vogava um pouco antes, 1960\/70) para garota, namorada, menina. Cuidei que iria deparar cristais brutos, n\u00e3o de todo lapidados, e compr\u00e1-los a pre\u00e7os mais em conta, abaixo pois dos praticados nas lojas, sempre cheias de turistas na desigual concorr\u00eancia dos d\u00f3lares. Tereza sa\u00eda da loja e voltava para a nossa camionete Santana quantum. Ao saber da inten\u00e7\u00e3o dos meninos, hesitou e passou a ideia de que a incurs\u00e3o tinha tudo para ser uma fria e, nesse momento, eu tamb\u00e9m fui tomado por um certo temor. A paranoia da popula\u00e7\u00e3o brasileira com seguran\u00e7a vem de longe, anda batendo nos trinta anos ou um pouco mais de exist\u00eancia, e ainda vai perdurar muito. Resolvemos de qualquer maneira acolher a proposta. Havia que sair do \u201ccentro nervoso\u201d da cidade e atravessar a estrada, a pista, a \u201cBR 40\u201d. Chegamos pr\u00f3ximo ao local anunciado, faltando s\u00f3 uma ladeira de terra de uns cem metros de comprimento. Numa t\u00e1tica que se nos afigurara a mais recomend\u00e1vel, machismo ou feminismo \u00e0 parte, eu subiria a p\u00e9 com os dois meninos at\u00e9 a casa deles, que apontava solit\u00e1ria l\u00e1 em cima do morrote, e Tereza permaneceria no carro para facilitar a rota de fuga. Z\u00e9 e Maria, candidamente sentados em pedras \u00e0 guisa de banco, pareciam j\u00e1 aguardar o trio &#8211; o potencial comprador e os dois vendedores mirins despachados pelo casal da minera\u00e7\u00e3o para a labuta di\u00e1ria (senhora candidata, senhor candidato, o Brasil precisa acabar com o trabalho infantil. Urgentemente). Ao me certificar de que ali n\u00e3o se corria perigo algum, gritei para que a Tereza ligasse o carro e subisse ao nosso encontro. A mina de cristal n\u00e3o era t\u00e3o perto dali. Todavia, o que desde logo nos ofereceram de mercadorias era o suficiente, n\u00e3o carec\u00edamos de mais nada, quartzos de todos os tamanhos, de faces l\u00edmpidas e fascinantes. Nossa conversa flu\u00eda, brincadeiras e gargalhadas eram ouvidas enquanto separ\u00e1vamos as pedras que ir\u00edamos levar. Prenunciava-se neg\u00f3cio interessante \u00e0s partes, sendo impens\u00e1vel enganar aquela gente simples e cordata. 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