{"id":947,"date":"2015-12-25T04:41:13","date_gmt":"2015-12-25T04:41:13","guid":{"rendered":"http:\/\/mapati.com.br\/blog\/?p=947"},"modified":"2015-12-25T04:41:13","modified_gmt":"2015-12-25T04:41:13","slug":"quem-cuidara-de-nossos-pais-iv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/quem-cuidara-de-nossos-pais-iv\/","title":{"rendered":"Quem cuidar\u00e1 de nossos pais? (IV)\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Os seres humanos, os masoquistas inclu\u00eddos, relutam em tomar conhecimento de assuntos que resvalem na melancolia, que atualizem dramas ou que sejam essencialmente tr\u00e1gicos. Quem se ocupa de abord\u00e1-los, \u00e9 tachado de depressivo e, mais grave, de chato mesmo. Se fala de doen\u00e7as, ainda que profissionalmente (por exemplo, o Dr. Drauzio Varella), torna-se numa pessoa inc\u00f4moda, a merecer o desterro.<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica destas quatro postagens \u00e9 penosa, \u00e9 dura de enfrentamento e pode me jogar no rol dos insuport\u00e1veis. Alguns se livram do implac\u00e1vel veredicto alicer\u00e7ados apenas no estilo da escrita, o que infelizmente n\u00e3o \u00e9 o meu caso &#8211; sem falsa mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Em que pese a essa situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, prossigo com a reportagem do livro da Marleth (j\u00e1 estou \u00edntimo), que arrola depoimentos singelos mas po\u00e9ticos, como este que, transcrito na \u00edntegra, \u00e9 prestado pela \u00fanica cuidadora <em>candanga<\/em> apresentada na obra (Albiara Silva, 33 anos, hoje uma quarentona, moradora do Guar\u00e1 &#8211; para quem n\u00e3o sabe ou n\u00e3o conhece, trata-se de uma das regi\u00f5es administrativas &#8211; um bairro, digamos &#8211; do Distrito Federal):<\/p>\n<figure id=\"attachment_948\" aria-describedby=\"caption-attachment-948\" style=\"width: 498px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5.jpg\" rel=\"attachment wp-att-948\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-948\" src=\"http:\/\/2017.mapati.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5.jpg\" alt=\"http:\/\/www.baudeemocoes.com.br\/cuide-de-quem-cuidou-de-voce-emocione-se\/\" width=\"498\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5.jpg 744w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5-300x197.jpg 300w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5-200x131.jpg 200w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5-400x263.jpg 400w, https:\/\/mapati.com.br\/blogmapati\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/quemvaicuidarnossospais5-600x394.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-948\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt;\">http:\/\/www.baudeemocoes.com.br\/cuide-de-quem-cuidou-de-voce-emocione-se\/<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMinha m\u00e3e come\u00e7ou a apresentar sintomas de Alzheimer quando eu tinha 15 anos. Como eu era muito nova, \u00e9 dif\u00edcil contar se antes a gente se dava bem ou n\u00e3o. Ela era de brigar muito, fazer esc\u00e2ndalos. Terminei o segundo grau com dificuldade porque \u00e0s vezes n\u00e3o a encontrava em casa quando voltava da escola. Ela sa\u00eda e se perdia. Eu tinha que ir procurar. Cheguei a fugir de casa. Hoje meus irm\u00e3os dizem que eu fui a causa da doen\u00e7a dela. Tamb\u00e9m dizem que eu tenho que cuidar dela porque sou solteira.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cS<\/em><em>\u00f3<\/em><em> h\u00e1 seis anos os m\u00e9dicos me disseram o nome da doen\u00e7a da minha m\u00e3e. Nunca tinha ouvido falar de Alzheimer! Agora ele \u00e9 totalmente dependente. N\u00e3o fala, n\u00e3o anda. Eu cuido dela e da casa. Fico t\u00e3o cansada que \u00e0s vezes n\u00e3o consigo comer e sinto dor em todo o corpo. Como somos s\u00f3 n\u00f3s duas, quando saio deixo minha m\u00e3e com Deus. Tem companhia melhor?<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cN\u00e3o tenho dinheiro para contratar uma faxineira, mas tento manter a casa bem limpa porque os vizinhos falam muito da gente. As pessoas cobram que eu devia fazer isso e aquilo: levar minha m\u00e3e para passear de cadeira de rodas, arranjar um emprego&#8230;<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cMe sustento com a pens\u00e3o que meu pai deixou. Ele era funcion\u00e1rio p\u00fablico. Minha m\u00e3e era copeira e tem uma pens\u00e3o de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Com o dinheiro dela n\u00e3o d\u00e1 para pagar as fraldas, os rem\u00e9dios e o t\u00e1xi para ir ao m\u00e9dico, Passei fome porque a comida que consegjia comprar s\u00f3 dava para ela. Como os outros filhos n\u00e3o queriam ajudar, fui cobrar na Justi\u00e7a. Tr\u00eas j\u00e1 est\u00e3o pagando. As tr\u00eas pens\u00f5es juntas d\u00e3o R$ 400,00.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cAproveito uns cursos gratuitos para aprender alguma coisa. Agora estou fazendo um curso de franc\u00eas e outro que ensina a gente a entrar no mercado de trabalho. Mas n\u00e3o tenho coragem de deixar outra pessoa cuidar da minha m\u00e3e. S\u00f3 uma vez paguei uma vizinha para ficar com ela. A mulher n\u00e3o limpava minha m\u00e3e direito e ela teve feridas. Comigo ela est\u00e1 sempre linda, bem cuidada. Coloco o despertador para me acordar durante a noite para virar a minha m\u00e3e de lado na cama. Ela nunca teve escaras.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEu digo a Deus: \u2018Senhor, permita que eu sinta o que a minha m\u00e3e est\u00e1 sentindo para eu entender o que ela quer dizer.\u2019 Vi l\u00e1grimas de dor caindo dos olhos dela sem saber o que estava errado. Passei maus momentos tentando conseguir que um m\u00e9dico desse aten\u00e7\u00e3o pra ela no pronto-socorro dos hospitais.<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u201cEu acho que n\u00e3o estou mais dando conta de cuidar de minha m\u00e3e. Tive depress\u00e3o mais de uma vez. Cheguei a planejar suic\u00eddio e a sair gritando pela casa. Queria ter algu\u00e9m para fazer a limpeza para eu poder ficar s\u00f3 com ela na cama e conversar. Leio as minhas li\u00e7\u00f5es de franc\u00eas pra ela. Leio livros. O m\u00e9dico diz que ela n\u00e3o entende, mas eu acho que entende. Eu amo minha m\u00e3e.\u201d<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 90px;\"><span style=\"font-family: 'trebuchet ms', geneva, sans-serif;\"><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">23 de novembro de 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(105)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #0000ff;\"><a style=\"color: #0000ff;\" href=\"mailto:mmsmarcos1953@hotmail.com\">mmsmarcos1953@hotmail.com<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os seres humanos, os masoquistas inclu\u00eddos, relutam em tomar conhecimento de assuntos que resvalem na melancolia, que atualizem dramas ou que sejam essencialmente tr\u00e1gicos. Quem se ocupa de abord\u00e1-los, \u00e9 tachado de depressivo e, mais grave, de chato mesmo. Se fala de doen\u00e7as, ainda que profissionalmente (por exemplo, o Dr. Drauzio Varella), torna-se numa pessoa inc\u00f4moda, a merecer o desterro. A tem\u00e1tica destas quatro postagens \u00e9 penosa, \u00e9 dura de enfrentamento e pode me jogar no rol dos insuport\u00e1veis. Alguns se livram do implac\u00e1vel veredicto alicer\u00e7ados apenas no estilo da escrita, o que infelizmente n\u00e3o \u00e9 o meu caso &#8211; sem falsa mod\u00e9stia. Em que pese a essa situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, prossigo com a reportagem do livro da Marleth (j\u00e1 estou \u00edntimo), que arrola depoimentos singelos mas po\u00e9ticos, como este que, transcrito na \u00edntegra, \u00e9 prestado pela \u00fanica cuidadora candanga apresentada na obra (Albiara Silva, 33 anos, hoje uma quarentona, moradora do Guar\u00e1 &#8211; para quem n\u00e3o sabe ou n\u00e3o conhece, trata-se de uma das regi\u00f5es administrativas &#8211; um bairro, digamos &#8211; do Distrito Federal): \u201cMinha m\u00e3e come\u00e7ou a apresentar sintomas de Alzheimer quando eu tinha 15 anos. Como eu era muito nova, \u00e9 dif\u00edcil contar se antes a gente se dava bem ou n\u00e3o. Ela era de brigar muito, fazer esc\u00e2ndalos. Terminei o segundo grau com dificuldade porque \u00e0s vezes n\u00e3o a encontrava em casa quando voltava da escola. Ela sa\u00eda e se perdia. Eu tinha que ir procurar. Cheguei a fugir de casa. Hoje meus irm\u00e3os dizem que eu fui a causa da doen\u00e7a dela. Tamb\u00e9m dizem que eu tenho que cuidar dela porque sou solteira. \u201cS\u00f3 h\u00e1 seis anos os m\u00e9dicos me disseram o nome da doen\u00e7a da minha m\u00e3e. Nunca tinha ouvido falar de Alzheimer! Agora ele \u00e9 totalmente dependente. N\u00e3o fala, n\u00e3o anda. Eu cuido dela e da casa. Fico t\u00e3o cansada que \u00e0s vezes n\u00e3o consigo comer e sinto dor em todo o corpo. Como somos s\u00f3 n\u00f3s duas, quando saio deixo minha m\u00e3e com Deus. Tem companhia melhor? \u201cN\u00e3o tenho dinheiro para contratar uma faxineira, mas tento manter a casa bem limpa porque os vizinhos falam muito da gente. As pessoas cobram que eu devia fazer isso e aquilo: levar minha m\u00e3e para passear de cadeira de rodas, arranjar um emprego&#8230; \u201cMe sustento com a pens\u00e3o que meu pai deixou. Ele era funcion\u00e1rio p\u00fablico. Minha m\u00e3e era copeira e tem uma pens\u00e3o de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Com o dinheiro dela n\u00e3o d\u00e1 para pagar as fraldas, os rem\u00e9dios e o t\u00e1xi para ir ao m\u00e9dico, Passei fome porque a comida que consegjia comprar s\u00f3 dava para ela. Como os outros filhos n\u00e3o queriam ajudar, fui cobrar na Justi\u00e7a. Tr\u00eas j\u00e1 est\u00e3o pagando. As tr\u00eas pens\u00f5es juntas d\u00e3o R$ 400,00. \u201cAproveito uns cursos gratuitos para aprender alguma coisa. Agora estou fazendo um curso de franc\u00eas e outro que ensina a gente a entrar no mercado de trabalho. Mas n\u00e3o tenho coragem de deixar outra pessoa cuidar da minha m\u00e3e. S\u00f3 uma vez paguei uma vizinha para ficar com ela. A mulher n\u00e3o limpava minha m\u00e3e direito e ela teve feridas. Comigo ela est\u00e1 sempre linda, bem cuidada. Coloco o despertador para me acordar durante a noite para virar a minha m\u00e3e de lado na cama. Ela nunca teve escaras. \u201cEu digo a Deus: \u2018Senhor, permita que eu sinta o que a minha m\u00e3e est\u00e1 sentindo para eu entender o que ela quer dizer.\u2019 Vi l\u00e1grimas de dor caindo dos olhos dela sem saber o que estava errado. Passei maus momentos tentando conseguir que um m\u00e9dico desse aten\u00e7\u00e3o pra ela no pronto-socorro dos hospitais. \u201cEu acho que n\u00e3o estou mais dando conta de cuidar de minha m\u00e3e. Tive depress\u00e3o mais de uma vez. Cheguei a planejar suic\u00eddio e a sair gritando pela casa. Queria ter algu\u00e9m para fazer a limpeza para eu poder ficar s\u00f3 com ela na cama e conversar. Leio as minhas li\u00e7\u00f5es de franc\u00eas pra ela. Leio livros. O m\u00e9dico diz que ela n\u00e3o entende, mas eu acho que entende. 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