Poemas de um piauiense desgarrado (IV)

De nada adianta reclamar com o bispo: o nosso piauiense é avis rara, esnoba sem constrangimento este blog. Para consolo de vocês, informo que na calada da noite, já sem minha tornozeleira eletrônica, adentrei o sótão de uma mansão abandonada e vi, lá no canto, atrás do pilar de concreto, enorme baú cheio de pergaminhos manuscritos por dezenas de poetas brasileiros.
Sou afeiçoado à prosa, mas gostei da maioria dos versos que li naquele ambiente nimbado de histórias formidáveis. Uma delas poema que atualizou os horrores da escravidão e, em compensação, me transportou para o iluminado mundo do espiritismo, das reencarnações, das vidas que somem.
O NEGRO DO SONHO
No sonho que tive ontem à noite,
vi um negro num tronco amarrado,
com fome e sede, maltratado
pelo chicote… pelo açoite.
Observando-o com mais vagar
vi, naquele rosto caído
e na pele negra escondido,
um belo homem, ali, a se abrigar.
Por força daqueles segredos,
que se alojam no mundo onírico,
soube eu tudo – e de modo atípico –,
sobre aquele homem em desespero.
Tal se sonho no sonho fora,
vi-o em sua África, inda menino…
livre… era Zózer, brincando e indo
rumo ao mar, ao encontro das ondas.
Nem de longe ele suspeitava,
que aquela coisa no horizonte,
de amarguras seria a fonte…
era o mal que se aproximava.
P’rá seu azar, gostou do que viu…
e esperou que a estranha baleia
mais se achegasse… ou era u’a sereia
gigante, que seu olho anteviu?
Não sabia ele que seus pais
– a quem, como qualquer garoto,
muito amava e eram seu colosso –
não mais os veria… jamais!
Pois, na praia, aquilo chegou}
e, de sua enorme barriga,
saíram homens em corrida…
prisão foi o que aquilo legou!
Nada entendeu… era só u’a criança;
levado foi ao porão… ao navio
que tanto o atraíra e o pavio,
do ser livre, fez-se lembrança!
Pobre d’África e seus rebentos
pois, se em ti se originou a vida,
também sobre ti se abateu a ira
da escravidão, de amor isento!
Na baia de Guanabara,
tempos depois a embarcação
chegou e o inocente coração
pensou: “onde e por que ali aportara”?
Não mais os verdes campos d’África;
não mais cavalgar seu corcel;
não mais deitar em seu dossel…
não mais seus amigos… que lástima!
Só a voz daquele feitor, áspera;
só a fome e o trabalho forçado;
só a chibata, a dor e o cansaço;
só o banzo, as saudades e as lágrimas!
Ah, quantas vezes não pensara
em pular nas águas do Atlântico
e, tal num poema romântico,
nadar e alcançar o Saara…
Mas sabia que era impossível.
Nada tinha… nem ombro amigo.
Foram dez anos… só e, por isso,
se atava a um banzo imperecível.
Até que a filha do patrão
– que estudava lá na cidade –,
chegou em férias e, na verdade,
inflou seu pobre coração.
Viu – co’a respiração ofegante,
e com o olhar embasbacado –
u’a deusa passando ao seu lado…
era de u’a beleza ofuscante!
Jamais vira mulher tão linda!
talvez a iara não fosse tanto…
mesmo com seus dotes e encantos,
não barrava a moça menina!
Para sorte sua – ou seu azar –,
também klódi olhou-o diferente…
também ela, de amor carente,
sentiu o coração palpitar.
Nunca vira homem tão bonito,
nem lá, no paço imperial;
nem lá, na bela capital,
sentira olhar tão compassivo.
Deu, aquela donzela, seu jeito
p’ra que, logo, os dois se encontrassem
e seus corpos quentes se amassem,
numa paixão louca e sem eito!
Ele, em anos de solidão,
não conhecera, é certo, o amor
já que só o sofrimento e a dor
moravam em seu coração.
Semanas de felicidade
viveram os dois enamorados
até que, em dia malsinado,
os viu olhos sem cumplicidade.
P’ra azar deles, o olhar de Zaira
– negra por ele apaixonada –
mostrou raiva desenfreada
e, na ira, tudo trouxe à baila.
Oh, que dor atroz, que amargura…
por que assim tem que ser a vida…
p’ra alguns tão cruel, tão sofrida…
p’ra outros, tão cheia de venturas?
Klódi, já no dia seguinte,
mandada foi p’ra capital
e Zózer – mais que natural –
foi para o tronco… pelo acinte!
Klódi, após nove meses… longos…
deu à luz belo filho moreno
mas, num orfanato, o rebento
foi obrigada a deixar, aos prantos.
Como eu quis ver qual seu destino
mas tal não me foi permitido.
Sinto que foi muito sofrido…
por que me atei tanto ao menino?
Por u’a teia misteriosa,
Fui içado daquele futuro
e, para aquele pátio escuro,
voltei mi’a atenção curiosa.
A poça de sangue aumentara…
Se, antes, grave era seu gemido,
lhe era leve, agora, o suspiro…
era uma morte anunciada!
Pobre Zózer: menino ainda,
tirada lhe foi a liberdade…
tornou-se troféu da maldade,
dona que foi de sua sina.
Pobre Zózer: já adolescente,
bonito e com corpo de atleta
– buscando, embora, ser u’asceta –,
cobrado era, em assédio demente.
Pobre Zózer: era um homem triste;
seus dias eram só saudades;
sozinho e sem cumplicidade,
vivia co’os nervos em riste…
… e foi ficar apaixonado
pela filha do fazendeiro!
Ah… se o amor fosse seu parceiro,
teria aquele encontro evitado!
Mas não… o amor é mui caprichoso
pois, ao ego, não possibilita
a escolha para quem, na vida,
dará seu coração zeloso.
Pois bem… por um desses mistérios,
que apenas possuem os sonhos,
ficamos ali, eu e o negro, insones,
naquele pátio deletério.
Não sei o porquê mas cada arfada
que ele dava eu, cá do meu lado,
sentia mi’a visão em mormaço,
e mi’a respiração abafada.
Tem, a vida, elos insondáveis…
quando ele deu o último suspiro,
veio-me à boca um enorme grito
de dor… de alívio… inigualáveis!
Acordara… enfim, eu acordara…
senti o que ele sentiu, em verdade!
Vi toda aquela atrocidade
por mim jamais imaginada!
Meu Deus… no sonho que tive ontem,
vendo aquele negro amarrado,
ao acordar soube que ele, o escravo,
fui eu… lá atrás, nas vidas que somem!
José Rodrigues – BsB, 12/25out2015 – 4×10/8
10.08.2016
(203)

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