Memórias/Memorialistas (XXXIV)
“… Você diz as coisas pelos nomes exatos, não por cincunlóquios. Não enfeita a realidade. Tanto o homem perseguido de 1932 como o garoto da França se manifestam com uma força existencial e uma dimensão humana que seduzem a gente. Que bela, sofrida, generosa e criativa parábola se desenvolve ao longo de sua vida, de que estas páginas nos dão um começo de painel! Pouco importa que a incompreensão e os interesses mesquinhos de grupos lhe barrem o caminho. Você é uma das riquezas maiores do nosso país, pela dignidade, pelo espírito público…”
(Carlos Durmmond de Andrade)
Deixei o Paulo Duarte um pouco exilado nesses últimos meses. Uma heresia abandonar intelectual desse quilate, cujas memórias foram lavradas quando ele ultrapassara em muito a casa dos 70 anos de idade.
Voltei ao segundo volume, saído do prelo há mais de quatro décadas e já reportado aqui com casos pitorescos: “A Inteligência da fome”, aberto por via da mensagem em epígrafe.
O memorialista saudado pelo poeta narra, no início desse livro, episódios de sua vida como residente em Paris a partir do começo dos anos de 1930, portanto mais de oito décadas atrás. E o que lemos nos diminui – a nós, os brasileiros – como povo, como nação, mesmo não sendo esse porventura o intuito do homem travestido de analista político arguto. Desestimulante saber-se que a crise de nossas instituições atualmente, no que tem de similitude com a dos franceses na época remota, era por eles enfrentada não com bonomia, evidentemente, senão que com sabedoria e descortino.
Prestemos atenção no que articulado pelo professor Paulo Duarte no contexto histórico determinado:
“… agitação política em Paris não era a mesma coisa que no Brasil ou mesmo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Não interessa os quartéis…;”
Aqui, uma pausa para frisar que cerca de trinta anos depois, em 1964, interessou. Mas isso em nada empana o brilho da abordagem sociológica feita pelo arqueólogo.
“…a inquietação pública é toda diferente; as famílias não se desassossegam receosas de uma perturbação da ordem, ao prenúncio de uma revolução prestes a estalar. A agitação política em Paris é o interesse que merecem ao povo os debates parlamentares de qualquer projeto, cuja aplicação em lei toque diretamente a população. Por isso, aqui, em lugar das forças federais, é apenas a guarda civil que fica de prontidão para evitar qualquer distúrbio, garantir o direito de reunião ou a palavra a qualquer orador, que teime discursar mesmo com toda assistência contra. (…) aquelas agitações aqui em vez de cavalaria nas ruas ou ondas de sangue nos campos de luta, provoca apenas o derrame de discursos ou de rios de tinta pelas colunas dos diversos órgãos da opinião pública. Palavras e opiniões sempre ouvidas e lidas com respeito pelos orientadores do poder.”
De igual sorte, abstraiamos o maio de 1968, bem assim o pavoroso e recidivo terrorismo com seus atentados fatais, virtualmente de origem externa, distante das fronteiras francesas, apesar de muitos nacionais envolvidos: é difícil imaginar que, em São Paulo e no Rio de janeiro, conjuntamente ou não, eventuais grupos de manifestantes brasileiros organizados em comícios ou passeatas possam ser monitorados e contidos nos seus excessos pela guarda municipal das duas metrópoles brasileiras? Obviamente que não. Sobra-nos a indefectível brutalidade com que não raro as duas polícias militares conduzem suas ações preventivas e repressivas.

28 de janeiro de 2016
(168)
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