Viva a descortesia
Publicado no Jornal de Brasília, o artigo abaixo (título “Viva
a descortesia”) foi escrito há quase dezoito anos e tudo ali deduzido
é de inquestionável contemporaneidade. Vejam que lamentavelmente
o quadro resta inalterado até hoje, não fosse o embarque de quase toda a turma de O Pasquim – dos citados, todos geniais, resistem neste plano os oitentões Ziraldo, nascido na mineira Caratinga, vizinha da Carangola do meu pai, e Jaguar, morador de Brasília por um tempo.
“Há pessoas que desesperadamente reivindicam o esquecimento, sem saber que há necessidade de requerer, solicitar, pleitear. Por outro lado, existem aqueles cujo nome jamais deixamos
de invocar e que sempre devemos ter ao nosso lado. Querem
um exemplo: Aurélio.
“Em seu livrão o mestre nos ensina que descortesia significa “ação descortês; grosseria, indelicadeza”. Essa ação
é sistematicamente praticada por todos os que não sabem fazer mais nada do que pedir cortesia. É cortesia, ingresso de cortesia, entrada grátis, convite, bônus. Não me refiro ao penetra, bicão, safo, vaselina, pois esse, bruta performático, tem verve, ginga, demonstradas no ato mesmo de pedir, esgueirar-se, introduzir-se, e que valem um ingresso, às vezes até mais de um. Quero, sim, trazer à cena o politizado, o militante, o remotamente egresso de Mauá, de Alto Paraíso, de Ouro Preto, o vanguarda,
o contra-tudo-isso-que-está-aí, melhor expressando,
o indignado, que se revolta mais ainda quando não consegue assistir a qualquer espetáculo sem pagar nada, “porque
é um absurdo, eu sou amigo do cara do som; eu fiz o primário com a assistente de direção; uma vez, eu almocei com a atriz principal lá em Camboriú…”, e por aí vai. Não se trata
de falta de recursos, não. Ou o papai tem, ou o bom emprego continua a lhe sorrir (apesar do avanço tecnológico, da reforma administrativa em marcha), ou o socorro
do(a) namorado(a) nunca falha.
“Ocorre que esse suporte financeiro não é utilizado para atender a despesas, digamos, culturais e artísticas, salvo se for para dar uma força àqueles rapazes e moças globais que, cansados
de aparecer na televisão, de segunda a sábado, às cinco, às seis, às sete ou às oito e trinta da noite, deliberaram correr o país
no intuito de mostrar que sabem enrodilhar-se no palco
sem a malha de ginástica pespegada de merchandising. A verba colhe utilização nas libações alcoólicas pelos bares da moda – locais onde não raro o nosso ilustre personagem desanca a política governamental para a cultura e enfatiza o célebre descaso dos empresários -, bem assim na compra de roupinhas
de grife e nos bingos da vida. Queima uma notinha boa nessas incursões, por isso é que não sobram cinco ou dez reais para despender no teatro.
“Saudades de outras patotas. Portanto, já que no início se falou sutilmente de lembranças, busquemos nosso tempo perdido, aquele no qual alguns pegaram em armas, por convicção, deslumbramento, entusiasmo, porralouquice, ao passo
que outros, talvez mais sensatos, enveredaram pelas mais diversas formas de luta contra-tudo-aquilo-que-estava-aqui.
A luta por assim dizer se dava no plano cultural (peças, filmes, livros, exposições), pelos meios de comunicação, destacadamente a imprensa, mais destacadamente ainda o O Pasquim, do Jaguar, do Ziraldo, do Tarso de Castro, do Paulo Francis (ele mesmo, garotada), do Millôr, do Henfil, do Ivan Lessa (autor da até então célebre sacada: “Na vida, tudo é passageiro, menos o general,
o almirante e o brigadeiro”. Mister Lessa, eles também caem, principalmente o último), do Newton Carlos, dos leitores… Que turma! Nas fases, incontáveis, em que o hebdomanário entrava em crises de tiragem, era um tal de mudar de formato, chamar novos colaboradores (nunca um vocábulo foi tão apropriado, haja vista o que se pagava, ou não se pagava, pelos artigos),
mas o que sobressaía eram os leitores, carregando piano, brigando, imprecando, dando uma dimensão numérica que
o jornaleco com efeito não tinha. Exortavam parente a fazer assinatura, puxavam uma que outra coluna e comentavam-na
em qualquer rodinha que se formasse, alguns chegando ao belo expediente de compra-lo a cada semana numa banca diferente para que os jornaleiros não desanimassem com o ratinho Sig.
“Perdoem a digressão e uma certa melancolia, o que não significa que nego o moderno. Para provar, em singela homenagem ao suor de todos os artistas, requeiro a pena de morte para todos os incentivos fiscais e um viva aos fiscais de incentivos,
que doravante não deixarão ninguém assistir a mais nada sem pagar ingressinho, ainda que o show seja um animado bate-boca numa das inacabadas estações do metrô de Brasília; um suarento e barrigudo empurra-empurra de parlamentares não detectável pelos taquígrafos; descabeladas e barulhentas (olha os vizinhos, meu Deus do céu!) agressões entre noras e sogras, maridos
e esposas, ex-maridos e ex-esposas; barbados e babados xingamentos em seminários de partidos de esquerda; arregalados e oblíquos impropérios em mesas-redondas de televisão…
(Marcos Martins de Souza é produtor teatral e diretor do Teatro Mapa’ti). ”
– Jornal de Brasília – Caderno de Opinião – Terça-feira, 7/5/96
15 de novembro de 2013
(023)
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