Anjos de Barro (VI)

O meu liame com tudo isso: Daniela, personagem do capítulo “Anjos de Barro” e grande especialista em telenovelas.

A terna moça, a quem encontro vez que outra nos aniversários de família, é

a) irmã do Luizinho, melhor amigo do meu irmão caçula, Joel, num estreito e profícuo convívio de mais de trinta anos;

b) irmã do Serginho, meu colega de Bacen e marido de minha irmã Mariza há década e meia.

Na condição de pai de filho que já se foi precocemente (vide homenagem que aqui prestei, “Meu Velha I a V”),  mando meu especial abraço a Sergio Porto e Maria Stela, extremados e amorosos pais da Daniela.

Aproveito ainda para, numa última contravenção, expropriar o início da narrativa do autor da pungente obra, José Maria Mayrynk, que bem nos dá ideia de uma fase marcante da vida desse cultíssimo casal de professores da UnB, numa situação que hoje também é vivida pelo deputado Romário, vascaíno de sempre, e pelo governador Eduardo Campos.

“(…) Jamais imaginaram que pudessem ter um filho excepcional. ‘Desgraça só acontece com os vizinhos’, assim pensava Sérgio Dayrell Porto, professor da Universidade de Brasília, sonhando com a vinda de uma menina – sua paixão depois de três homens, Serginho, André e Luiz Guilherme. Telinha, socióloga e mineira como ele, tinha 28 anos quando Daniela nasceu. Foi uma alegria enorme, afinal uma ‘filha mulher’, como se costuma falar em Minas Gerais. No mesmo dia, 27 de fevereiro de 1974, a médica do berçário chamou Sérgio e disse, sem mais nem menos:

“‘É mongolóide.’

Ele estava desconfiado de que houvesse algo errado: não levavam o bebê para a mãe amamentar e na cabeceira do berço havia uma etiqueta diferente das outras. Sérgio olhou o rosto da filha,triangular, os olhos puxados. Dona Stella, a avó, também reparou e disse ‘parece japonesa’, antes de saber de nada. Foi só dois dias depois que Telinha viu Daniela e, no primeiro instante, estranhou:

Daniela

“‘Essa menina não é minha filha.’

“A enfermeira brincou que o hospital não trocava crianças, mas não contou nada. Os médicos aconselharam esperar mais algumas semanas, alegando que o impacto sobre a mãe poderia prejudicar a amamentação. Dona Stella, a mãe de Telinha, não fez mais comentários, mas um dia Sérgio surpreendeu-a folheando a coleção ‘Nossas Crianças’, em busca de uma explicação. Sérgio suportou sozinho o peso de seu fardo:

“‘Quase caí pra trás, quando a médica me deu a notícia. Eu tinha preconceito contra mongolóide, achava horrível e logo me veio à lembrança o rosto de todos os que conhecia. Vivi um mês de angústia insuportável, vendo as pessoas da família comunicarem-se com os olhos, sem falar nada. Eu sabia, mas não queria acreditar. Discuticom o pediatra. Daniela não tinha o M da mão normal, o dedão do pé era separado dos outros, o pescoço reto e grosso, os movimentos bruscos… mas não seria só porque me puxou? Quando eu era pequeno, tinha o apelido de Chin, parecia um chinezinho. Mostrei até retrato. A conselho de um amigo, procurei o dr. Antônio Márcio Lisboa, o maior pediatra de Brasília. Mas ele não dava diagnóstico antes dos seis meses. Eu teria de reparar se Daniela não deitava de bruços e levantava a cabecinha, como se fosse tirar fotografia. Depois de seis meses, os exames confirmaram aquilo que todo mundo já suspeitava: mongolismo. Tinha certeza que não era hereditário, era uma aberração genética que a Medicina não consegue explicar. Esses seis meses foram terríveis e um dia o médico pediatra do Hospital-Escola da Universidade de Brasília, em Sobradinho, me sentenciou uma frase tétrica: – Nada a fazer. Os médicos, ignorantes a respeito da excepcionalidade, me falavam assim, mas eu fiz um ato de fé: Tudo a fazer. E resolvi lutar pela Daniela’.”

 

28 de fevereiro de 2014

(053)

mmsmarcos1953@hotmail.com

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