Fé amolada, faca cega 

Pode até ser impressão minha: a faca já teve (esperança boba?) os seus quinze minutos de fama nesses tenebrosos dias, tanto no manejo por adolescentes homicidas, quanto por alusões justamente indignadas dos nossos contadores de histórias do cotidiano, cronistas da imprensa escrita ou falada. Oxalá, nessa afoiteza por novidades e modismos a qualquer preço, não venhamos a inaugurar o período de culto ao punhal, arma melíflua, com suas linhas apuradas esteticamente pelo cravejamento de pedras, afora a empunhadura de completa sedução.

No ataque covarde e solerte, acontecido não muito distante do Leblon, onde mora o avô das minhas filhas do alto de seus 98 anos de idade, a peixeira do mal fez tombar da bicicleta o homem do bisturi que, no exercício de suas funções profissionais, fazia incisões e desvendava caminhos para a cura cirúrgica, a quem homenageio.

“(…) Não era uma ferramenta como as outras. Era feita de material de qualidade superior e o aprendizado do seu ofício muito mais longo e difícil. Para não falar no uso que dela fazia o seu portador. Ele conhecia todas as técnicas do utensílio, era capaz de executar as manobras mais difíceis – a in-quartata, a passata sotto – com inigualável habilidade, mas usava-o para escrever a letra P, apenas isso, escrever a letra P no rosto de algumas mulheres.(…) Não adiantava imaginar porque fazia aquilo. Era uma perda de tempo especular porque determinadas coisas dão prazer. O P não tinha ressonâncias literárias, nem ele se considerava um psicótico puritano querendo esconjurar a congênita corrupção feminina.”

Pode até ser falha minha: entre uma tragédia percor  e outra não vi referência alguma, não divisei nenhum comentário sobre o grande Rubem Fonseca (das vaidades que me acompanham, destaco a de ter lido toda a obra do nonagenário ex-policial erudito).

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O nosso escritor de letras brutalistas é ora trazido à colação pela beleza, se assim devo me exprimir, e sobretudo pela atualidade de sua ficção(?) – A grande arte, um livraço que se espraiou pelo cinema por virtude do Walter Salles Jr. em sua primeira incursão pelas telas. Por isso, o enredo tecido em exemplar de lombada vem de merecer transcrição de mais um de seus trechos – além daquele acima reproduzido.

“(…) ‘Seu puto’, eu disse. Só percebi o golpe quando a mão do ruivo com a faca recuou. A dor não foi grande, a canelada fora muito pior. Senti o sangue molhando a camisa. Percebi que a luz da sala escurecia. Tenho que ficar de pé, pensei, senão vão chutar a minha cara, mas o sangue já estava sujando o tapete da sala. A mão do barbudo segurou o meu rosto, senti um perfume de sabonete. Parecia um sonho.  A vizinha sentou-se ao piano e começou  seus monótonos exercícios diários. Ada gemeu. ‘Chega, o homem está morto’, um estranho sotaque, o do homem grande. O cordão de ouro foi arrancado com violência do meu pescoço. O som do piano foi aumentando. Ada estava ao meu lado. ‘Telefonei para o Miguel Couto’, ela disse, e deitou-se junto de mim. Fechei os olhos, não ia acordar nunca mais. Como era bom dormir.”

 

13 de junho de 2015

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mmsmarcos1953@hotmail.com

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