Arte sobre rodas (V)
No episódio que passo a narrar, não há dúvidas sobrepairando como
de outras vezes, o município era Campos Belos, lá no nordeste do (preciso me acostumar com esse “do”) Goiás, proximidades da divisa com o estado de Tocantins, que, antes do desmembramento, amalgamado, era terra do pequi.
Executávamos um grande contrato no bojo do Pronac/Lei Rouanet
(a bem da verdade, nunca cobramos um centavo de ingresso do público), parceiros na empreitada de uma empresa de telefonia celular provinda da península ibérica e tornada grande aqui no Brasil também
por consequência de incorporações e fusões várias, num processo reverso ao do que ocorrera no território goiano original.
A praxe consistia em que, ao chegar à cidade, escolhida geralmente
de comum acordo entre patrocinadora e patrocinada, o(a) representante da companhia nos procurava para articular, no local, a encenação
da peça com as promoções de vendas de linhas telefônicas
e difusão da marca.
O ano, provavelmente 2005, feira agropecuária, ambiente pouco afeito
a apresentações teatrais pelo vozerio misturado dos locutores inúmeros e dispersão das pessoas de chapéus, botas e cinturões embaladas pela música sertaneja. O homem que nos recebera para os preparativos andava (mais para frente, ele vai cambalear) pelos 50/60 anos de idade
e era proprietário de duas lojas de comercialização de telefones
na localidade. Enquanto nossa equipe (inclusive o carregador que vos fala) ia montando o caminhão-palco do Mapati no dia anterior
ao da abertura das festividades, o cicerone sorvia repetidas, generosas doses de scotch do bom, rótulo preto. (De notar que não poucas regiões do interior do Brasil eram endinheiradas havia tempos, hoje mais ainda, e os intelectuais dos centros urbanos demoraram muito a perceber isso).
Na minha função de estiva, eu era interrompido pelo empresário para conversê ora curioso, ora enfadonho e cansativo. Depois de uma três horas (período de resistência de nosso herói), a voz dele começava
a ficar pastosa. O uísque, cachorro engarrafado, melhor amigo
do homem segundo Vinicius de Moraes, empolgava em todas as acepções
do termo aquele ser já um pouco trôpego que, mesmo assim, não tirava os olhos da Tereza (os que têm mulher bonita ficam com os bônus
e os ônus do desfrute). Essa atitude do pinguço emergente pelos ouros
e anéis e submergente pelo malte escocês foi-me irritando dum tanto,
ruim demais, gente… (vejam meu linguajar goiano/mineiro aí).
Mas o melhor, ou o pior, estava por vir.
Utiliza-se a parte de cima do caminhão como recurso cênico. Em muitas peças teatrais nossas, é o lugar onde atores, atrizes, cantores e cantoras fazem suas brejeirices e sapequices (os dois termos evocam musicais
do cinema nacional de séculos idos), verdadeiro cercadinho de bebês coalhado de bons profissionais. Pois era (e ainda é, o Mapati pontifica vivinho da silva) ali, na grade levantada à guisa de parapeito, que nosso personagem cogitou de esticar uma faixa com propagandas
da companhia da qual era preposto.
Não, essa não, nem morta!
De que maneira poderíamos admitir aquele véu publicitário afixado
de ponta a ponta toldando a plena encenação da turma exaustivamente ensaiada? Como sonegar ao público lá embaixo, no espetáculo do dia seguinte, a visão dos pés, das pernas e da barriga daqueles agitados performáticos atrás da mureta gradeada? Discussão, põe-a-faixa/não-põe-a-faixa, carteiradas de lado a lado, contendores aguerridos e o motorista travestido de paladino da excelência do fazer artístico
– “Até hoje, o Mapati nunca fez isso”; “É importantíssimo dar aos atores
e atrizes reais condições de mostrar seu trabalho”; “Não se deve desprezar o público”; “Teatro é uma arte elaborada”;
“Prestigiemos a cultura”.
Foi nesse momento da peroração do montador do veículo e chauffeur (assim diziam meu pai e minha avó, por muitos anos aluna do Colégio Sion) que o liquefeito preposto da empresa “X” (vamos escolher outra letra porque essa ficou complicada – “Y”, por exemplo), deslembrado
da longa parceria comercial e das boas regras de hospitalidade, berrou furibundo após constatar que a faixa iria ficar por todo o sempre enroladinha, enroladinha, como realmente ficou :
“O negócio da ‘Y’ é vender celulares, a cultura que se phôda.”
17 de novembro de 2015
(024)
Viva a descortesia
Meu Velha
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