
Intimidades
“Pode entrar, amigão”, vibrou a recepcionista. Custei a acreditar que era comigo. Afinal, nunca a tinha visto na vida, sequer no comércio de doces e salgados, e a moça já me abria a porta com a saudação aumentativa, um transbordamento inesperado de calor humano. Era uma funcionária bem treinada segundo as novas ordens do RH. Não mais o contato impessoal-distante, mas um abraço gostoso na alma do cliente, se possível com um beijo surpresa no coração. É preciso customizar o afeto.
– Joaquim Ferreira dos Santos –
O título desta postagem poderia até servir para capturar leitores e leitoras adeptos do Filosofia na alcova. Não servirá. Minha alongada vida é sensaborona, sem nenhum tom de cinza que inspire o Marquês de Sade.

Original em francês publicado clandestinamente em 1795.
Nos tempos de minha infância/adolescência, os pais se fartavam em chamar os filhos de confiados, abusados. Ou melhor, nós é que nos fartávamos de ser folgados, não tanto como os meninos e meninas de hoje, não respeitam ninguém (sou radicalmente contra palmada em criança).
Usava-se também o “Te dei ousadia?”
A propaganda brasileira, havida como uma das melhores do mundo, não tem sido eficaz. Nos e-mails imunes à minha pasta Lixo eletrônico, meritório é o esforço das equipes de profissionais que, crise econômica renitente, forjam campanhas publicitárias voltadas para o aumento das vendas de maneira geral. Minha implicância é com as mensagens eletrônicas das lojas afetando falsa intimidade. Cuido que, em vez de cativar, tais chamados irritam, não têm o condão de empolgar, antes afastam os potenciais consumidores.
Pérolas dos anunciantes secundadas por meus vãos protestos em negrito:
– Oi, Sumido! (sumido continuarei).
– Fome? Você ganhou 50% OFF no seu pedido! (como diria o Ancelmo Gois, “OFF é o cacete.”).
– Marcos, queremos saber a sua opinião. Topa? (não).
– Piscininha Amor, Piscininha amor… (essa é do tempo em que o Fred jogava no Cruzeiro; ele rodou muito… e voltou pra Toca da Raposa).
– Marcos, sentimos sua falta e preparamos uma surpresa. (dispenso).
– A… quer ouvir você. (calado sou um poeta).
– Marcos, estamos há 3 anos juntos! (vejo um divórcio pela frente).
– Olá, Marcos, você tem um sonho, o nosso é realizar o seu. (pesadelo).
– Não durma no Ponto. (em Brasília é parada de ônibus).
– A gerente avisou! O SOL chegou, o preço baixou… E ai já comprou?? (temporal).
– Pula da cama e aproveita o Liquida. (miliciano?).
– O… diz: DES e você: CONTO! (sem comentários).
– Amad@? Vem ver esse e-mail. (entenderam a interrogação?).
– Você ativou o modo avião e nós… (continuaremos sem internet).
– Vem dar uma olhadinha aqui… (é muita insistência).
– Quinta-feira e tamo como? (como na segunda-feira).
– Sua semana começando daquele jeito: Uaaau! (volta, Paulo Francis).
– Psiu, tá precisando viajar? Nós te ajudamos… (quem paga as malas?).
– Você gosta de Cupom? (prefiro boleto).
– Uhuul! 72h Electrolux com FRETE GRÁTIS! (um ex-militar em atividade adora esse “Uhuul!”).
– Ainda dá tempo… mas corre! (preguiiiiiiiça).
– Segundinha com desconto! Todo mundo gosta, né? (na minha idade segundinha é difícil, mesmo com desconto).
– Tá esquentando… (tá esfriando).
– Será que é Bruxaria ou é Déjà vu? (é vodu).
– Não é Black… aqui é Happy Friday! (racismo).
– Incrível! Moto G7… (desisto).
#Joaquim Ferreira dos Santos
# Filosofia na alcova – Marquês de Sade
# Black Friday
25/11/2019
(306)
mmsmarcos1953@hotmail.com

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