Poemas de uma paulista desgarrada (III)
Madrugada. Súbito, pulo da cama, extasiado.

Um chamamento, voz que provinha não sei bem de onde, nem suave, nem gutural: “Acorda, poeta”.
Delírio meu.
A exortação não era para mim, avisaram-me não tão sutilmente no ensejo. Eu não era poeta, tampouco o poeta; não poderia ser o destinatário instigado.
Tempinho transcorrido, ainda me recuperando do baque frustrante, tomo ciência de que o nome do indivíduo no convite, aflorado com aumentativo, apresentava-se autor de obra sinalizadora de doces inquietações.
CANÇÃO DE ACORDAR POETA
p/ Felipão Vitelli
Acorda, poeta.
Porque o esmaecido retoma sua forma
e se desfaz da antiga nitidez,
o mundo ganha cores e corpos outra vez.
Você tem que sair desse estado letárgico
e reanimar seu braço para esculpir no muro frio com que nos cercam angústias.
Traga-nos sua leve pena
para quebrar lógicas sedimentadas em nossas frágeis estruturas.
Se entrega de novo ao ofício diário de matar a sede de almas aflitas
carentes de luz que as façam suportar novamente
outra noite de existência.
Acorda, poeta.
A infinita monotonia dos ruídos da cidade
aguarda seu canto, seu sonho, sua viagem aos ares do imponderável.
Todos precisam voar, a rua não pode acabar logo ali,
na esquina…
(Dazi Antunes – 17/06/15)
30 de junho de 2015
(136)
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