Xô, mosquito
Há coisa de dez anos, meu irmão Luiz foi passar uns dias de férias em Pernambuco. Preso aos laços de fraternidade, torci como sói para que tudo desse certo, o que não impedira brotar em mim uma invejazinha saudável(?), visível só em microscópio de última geração, desses que encontramos em laboratórios de renomadas universidades americanas ou europeias e que custam pra mais de milhão de dólares. Vocês queriam o quê?
A viagem era para Olinda – e ainda por cima em época de carnaval.
Não deu outra, “tava tardando” (como dizia meu pai): dois dias na bela cidade histórica, patrimônio universal, e a dengue fez o invejado folião desabar na cama, febre, calafrios, dores pelo corpo todo. Ao primeiro sinal de melhora, frustrante e melancólica volta para Brasília.
Fingindo que esqueci a bobajada que o atual ministro da saúde falou sobre a doença (“… as futuras grávidas…” deixa pra lá), trago a este blog, não raro picado pelo nepotismo, uma situação de vindicta – é inadiável eliminar o aedes aegypti, que não é um mosquito, é uma trindade pois traz na mochila três armas de destruição em massa.

Vingarei o Luiz ainda que tardiamente.
Aconselhado por uma tigresa de unhas negras e iris cor de mel, que nos diz como é bom tocar um instrumento (obrigado, Caetano), vou convocar meu primo Gerardinho, um dos únicos com dotes musicais na família. O virtuose machuca de leve um cavaquinho e integra o Sapeka aí, grupo de samba da Capital Federal.
O Dinho empunhará aquela raquete, vermelha ou azul, chinesa ou paraguaia, vendida nos sinais de trânsito e que dá um puta choque nos insetos. Cheio de repelente – ele não é bobo -, o sapeca cantará esta marchinha dentro do criadouro do maldito aedes:
XÔ, MOSQUITO!
VÊ SE ME ERRA
SEM FOLIA, EU NÃO RESISTO
E O CARNAVAL ME ESPERA
XÔ, MOSQUITO!
NÃO VENHA ME PICAR
CHIKUNGUNYA, ZIKA E DENGUE
NÃO QUERO NEM OUVIR FALAR
ELIMINAR O MOSQUITO
É A PALAVRA DE ORDEM
É O PRIMEIRO REQUISITO
PARA QUE ALVO, AS PESSOAS NÃO SE TORNEM
E NÃO É SÓ NO GRITO
QUE VAMOS NOS LIVRAR DESSE MAL
É COM ATITUDE, EU INSISTO
QUE ELE VAI SUMIR DO NOSSO QUINTAL
(Gerardo Araujo de Lima)
Não nos foi apresentada ainda a melodia de “Xô, mosquito”. Quem quiser conhecê-la deve aguardar a divulgação para breve ou ir a um show que esse conjunto de bambas faz por Brasília e adjacências.
23 de janeiro de 2016
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