Hey Jude (III)
Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim/
Estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim/
Meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste…
(Sentado à Beira do Caminho – Erasmo Carlos)
Não seccionei o desabafo do pai gratuitamente. O intervalo servirá para que todos e todas reflitamos mais acerca da atitude de um produtor internacional (mercenário?) albergado em alvará judicial lacunoso e, no meu sentir, refratário aos postulados do Estatuto da Criança e do Adolescente, o pouco compreendido, mal interpretado e pessimamente aplicado ECA.
Efetuado o teste através da mesa digital sofisticadíssima para checar a qualidade dos microfones e das caixas de som, convoque-se novamente ao palco o zeloso e lúcido pai do garoto que ainda não viu (verá? também é minha dúvida) o Paul McCartney destroçando corações da plateia com músicas (dele e daqueles outros três ingleses) que não irão morrer nunca, asseguro eu, de igual modo um menino, que neste 2017, segundo intriga da oposição (mais leal que a base aliada), restei atingido pela When I’m Sixty-Four do célebre álbum cinquentenário, verdadeira obra prima.
Sai Liverpool e entra uma cidade próxima de São Paulo
“A Vara de Jundiaí, onde eu moro com as crianças, não quis nem olhar meu calhamaço. Disse que a decisão era do juiz de São Paulo e que o juiz da residência não afrontaria uma decisão do magistrado do local do espetáculo, que certamente havia estudado com tanto cuidado as condições do show.
“Refiz todo o meu calhamaço, colhi assinaturas todas de novo e fui para a cidade grande.
“Bem, a Vara da Capital não quis nem olhar meu pedido. Mas o rapaz foi muito esclarecedor, mostrando que a portaria afixada nos cinemas não se aplica a shows, porque, neste caso, a questão não é apenas de conteúdo, mas de estrutura do local.
“‘Mas isso faz menos sentido ainda’ eu argumentei, com espanto legítimo. ‘Por que a classificação para jogos de futebol, no mesmo horário e no mesmo local do show, é livre! Quer dizer que eu posso levar meu filho pra gritar ‘Juiz ladrão, porrada solução’ num Palmeiras x Corinthians e não posso levar para cantar ‘Hey Jude’?
“Só conseguia me lembrar do inesquecível Rogerinho do Ingá, o personagem do ‘Choque de Cultura’:
“O atendente da Vara da Infância encolheu os ombros e me mostrou o artigo 4 da Portaria 1.100 de 14 de julho de 2006: ‘O produtor ou responsável pelas diversões públicas mencionadas neste artigo deverá indicar os limites de idade a que não se recomendem’ os shows e eventos do tipo.
“Voltei à T4F, que continuou insistindo que não poderia abrir uma exceção, por força da lei. Pelo call-center, novamente me vendeu a versão de que o juiz da Vara da Infância estudara minuciosamente o conteúdo e o espaço físico dos shows e que eles nada poderiam fazer a respeito. Mas não soube me responder como, coincidentemente, todos os locais, do Beira Rio ao Allianz, do Mineirão à Fonte Nova, tiveram a mesmíssima avaliação técnica para que se chegasse a classificação etária.
“Àquela altura, já pipocava a polêmica das crianças no Queermuseu e no La Bête, ao mesmo tempo que se multiplicavam as pautas de famílias felizes no Rock in Rio, onde, aparentemente, os produtores ou responsáveis pelas diversões públicas indicaram um limite de idade menor a que não se recomendem.
“Olha que feliz o Bernardo parece (nesta)foto, prestes a curtir um rock’n’roll com seus pais:
“Cheguei a um segundo figurão de dentro da produtora que, novamente, me recomendou que constituísse um advogado e entrasse com uma liminar, como única saída para que eu não fosse barrado na catraca. Foi o que fiz. Minha última curva.
“A resposta do Ministério Público me deu vontade de sentar na calçada e chorar. Basicamente, a promotora de justiça disse que, diante da preocupação tão grande da T4F com meu filho, não seria ela que “obrigaria” a produtora a cometer a imprudência de colocar o garoto para dentro do show.
“Eu não tenho nem palavras para agradecer tanta preocupação.
“‘Expandir a estrutura’ – em que mesa isso foi pedido?
“Minha jornada em busca de esclarecimento terminou na quarta-feira, 11 de outubro, véspera do dia das crianças, quando coloquei duas meia-entradas a venda, com a certeza de que a classificação etária para shows é um misto de arbitrariedade com os interesses dos produtores em limitar ou aumentar o acesso de meio-pagantes.
“Faço votos de que Paul McCartney, 75 anos, se mantenha saudável e impecável por pelo menos mais dois aninhos, e volte ao Brasil assim que meu filho faça 10 anos. E torço ainda mais para que, em 2019, a T4F não meta a mão na cartola e tire de lá uma outra faixa etária que impeça o garoto de assistir ao compositor de algumas de suas músicas favoritas.”
Chega ao seu término o “relato”, feito em 12 de outubro de 2017, pelo jornalista Ricardo Alexandre, pai do feliz/infeliz Bernardo.
#Rogerinho do Ingá (Choque de Cultura) #When I’m Sixty-Four #Queermuseu
#La Bête #Estatuto da criança e do adolescente (ECA)
22/10/2017
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