Quem cuidará de nossos pais?
Vimos agora, numa reportagem da última Veja (não esqueço a sutil alfinetada que a revista levou no filmaço O Som ao redor), que as famílias suecas não se ocupam de forma direta dos parentes mais idosos. A tarefa, o encargo, a incumbência são atribuídos ao Estado, alimentado por gordos impostos e não menos magras taxas de custeio, recolhidos de toda a população. Minha irmã Norma, a poeta carioca desgarrada, casada que foi com um sueco durante mais de dez anos, sabe disso, sabe que a turma escandinava, lourinha ou não, da terceira, quarta ou quinta idade é “entregue” para zelosos servidores públicos”tomarem de conta”.
Isso suscitou lembranças (aqui, neste blog, quase tudo é permeado de lembranças). Meu irmão caçula, Joel, me deu ou me emprestou um livro (quem devolve livros tomados por empréstimo?) cujo título é “Quem vai cuidar dos nossos pais?”, tendo como subtítulo “A inversão de papéis quando a idade avança”. A autora, Marleth Silva, é uma jornalista que mora (moraria ainda?) em Curitiba, de onde costuma vir coisa muito boa da literatura (não vale citar Dalton Trevisan. É covardia), da música, do cinema, do teatro (o já célebre festival anual realizado no mês de março), das artes em geral.

Trata-se de depoimentos de filhos e filhas que, por contingências da vida, assumiram papel de cuidadores do pai ou da mãe, às vezes dos dois, conjuntamente. Escrito há cerca de dez anos, provável é que todos os idosos e idosas ali referidos já possam ter embarcado.
Nas famílias brasileiras em geral, ninguém se prepara ou estuda para se investir nessa função. Comumente, os velhotes e as velhotas ficam no banco de reservas (não poucos, até a hora da viagem transcendental) aguardando o momento em que os filhos ou as filhas tornar-se-ão técnico de maneira a escalar os pais para o jogo jogado, para entrar em campo – melhor seria dizer “sair de campo” pois não mais existe fôlego algum para adentrar as quatro linhas.
Vou-me concentrar em boa parte das epígrafes e em alguns trechos dos comoventes registros espalhados pela obra da curitibana, pulando aquele no qual se declara que nós passamos a ser a bola da vez quando o pai e a mãe já foram embora (como é o caso do meu pai, em 2004, e da minha mãe, em 2013. Saudades)
No entanto, farei antes um mix transpondo declaração de Graziela Vianni, psicóloga clínica, em matéria (“Quando a arte supera a idade”) publicada, em 05.09.2014, no Caderno Cidades do Correio Braziliense: “A família tem um papel importante no processo de restruturação do pensamento e na forma como o idoso enxergará a terceira idade. O filho deve suavizar a culpa dos pais e promover a reorganização do estilo de vivência. Se os filhos derem atenção, não ficarem culpando os genitores pelos próprios fracassos e forem compreensivos, ajudarão muito. Eu tenho uma frase que é a seguinte: ‘Os pais são os culpados que não têm culpa’.”
16 de setembro de 2014
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Quem cuidará de nossos pais? (II)
Poemas de uma carioca desgarrada (VII)
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