
A História é amarela 2 (Pelé)
Para onde vão os dias que passam? Será que desaparecem como a mulher do mágico, no circo? Contudo, a mulher do mágico não desaparece, apenas muda de lugar. (…). Talvez o tempo, em vez de se parecer com uma seta, avançando de um território conhecido para a escuridão do futuro, seja, afinal, circular e repetido.
– José Eduardo Agualusa –
Jornal do Brasil, primeira metade dos anos 1980, se bem me recordo. Confessava o Millôr Fernandes que, ao chegar à seção dos(as) colunistas, lia a página, não todo o conteúdo, pulava um padre aqui, um outro ali. Fosse hoje, o humorista iria caprichar no salto dos artigos assinados por pastores e pastoras, neopentecostais ou não.
Nesta nossa incursão ainda em fase larvar na História é amarela, não secundaremos a VEJA nos apropriando de todas as entrevistas reproduzidas no livro que intitula esta postagem. Iremos, isto sim, transpor os obstáculos erigidos pela organização do evento hípico nos quais também se aboletam… economistas, deixando que fiquem ao vento e sem documento, numa preparação processual de rito sumário que culminará em cancelamento dos seus mandatos de entrevistado(s) das Páginas Amarelas da revista semanal.
Um alívio não ser constrangido(a) a ler determinados jargões. Por exemplo: tiro no pé, metas de inflação, dever de casa, grau de investimento, reforma administrativa, déficit previdenciário, precificação, crescimento sustentado, voo de galinha (quando o crescimento não está vinculado às causas que o mercado professa), bancarização, os juros devem subir ainda mais (rola sempre às vésperas das reuniões do Copom para legitimar engorda da Selic), orçamento das estatais, barreiras à entrada, teto de gastos, piso salarial, âncora cambial, demanda aquecida, superávit primário, expectativas do mercado.
Alcancemos a segunda camada. Observação: vocês notaram como “camada” nos últimos meses não sai dos artigos veiculados na imprensa? Os dicionários dão, como sinônimos, classe, categoria, nível, esfera, status, posição, casta. Renitente, o vocábulo se presta à antropologia, à política, ao esporte, à sociologia. Em suma, a qualquer narrativa (essa é campeã absoluta, reinado longo).
Já estamos, pois, no segundo degrau, passou da hora de escalar uma das principais estrelas do rol de entrevistados(as) do livro em tela: Edson Arantes do Nascimento.

De modo diverso ao da primeira postagem desta série, não haverá referência às palavras do entrevistador. Na sua introdução da matéria, Oswaldo Amorim limitou-se a descrever o extenso, insuperável currículo do entrevistado, revelando ao depois suas qualidades de bom repórter na formulação das perguntas.
O Rei era um docinho de coco, mas quando achava justo reagia em campo, no conforto da inexistência do VAR, distribuindo caneladas no agressor. Ouçamos os dois entrevistados, o Edson, pai duma menina, e o Pelé, dos dribles, das arrancadas, do gol de bicicleta, do pênalti indefensável.
- Ser famoso não cansa. Mas cria muitos problemas. Por exemplo, dificilmente posso escolher lugar em avião, porque sempre aparecem pessoas pedindo autógrafos antes mesmo de eu entrar. Resultado: na maioria das vezes, sou o último a me sentar;
- Se eu tiver um filho, vou procurar encaminhá-lo e ajudá-lo ao máximo na carreira que ele mesmo escolher (desilusão com seu filho Edinho, goleiro do Santos, preso por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro);
- Nunca houve nada disso comigo (racismo). Em parte alguma. Certa vez, num hotel de Dacar, no Senegal, várias pessoas juntaram-se na porta para me ver. A dona do hotel disse que elas pareciam selvagens e um policial negro a prendeu. Mais tarde, pediram-me que intercedesse pela libertação da mulher. Eu disse que não faria isso, pois ela ofendera gente da minha cor, que apenas queria me ver;
- … acredito, realmente, que nenhuma pessoa deveria abandonar o seu lar. Talvez eu pense assim porque a coisa que mais adoro é a minha família (três casamentos e sete filhos/as, fora os namoricos com famosas);}
- Qualquer jogador precisa saber qual o adversário que está enfrentando. Se o marcador é maldoso, devemos usar maldade contra ele. Se o marcador é duro, mas leal, também devemos usar a lealdade. Se ele é apenas violento, quando surgem as bolas divididas eu entro preparado para ganhar o lance. O revide, porém, acontece numa hora de descontrole. Além disso, dá expulsão de campo;
- Eu rezo normalmente todos os dias. Mas rezo também antes de entrar em campo. Sou católico, e a minha fé serve para me estimular nos momentos mais difíceis;
- Estou certo de que o jogador brasileiro já vê o futebol como profissão. Ele sente tudo o que pode ganhar com o esporte. Hoje (lembremos, novembro de 1969) o jogador já se dedica muito mais ao seu trabalho de futebolista. Além disso, sabe como agir fora do esporte. Eu, por exemplo, lucro muito mais com a publicidade do que com a bola;
- Eu já fui pobre e bastante feliz, graças a Deus. A felicidade não depende da riqueza. O dinheiro é apenas uma parte da vida;
- Sempre evitei que comentassem isso (caridade). Aqueles que precisam de ajuda ficariam chocados se eu me aproveitasse deles para fazer publicidade;
- O gol, para mim, é um momento de explosão. Eu sinto isso desde garoto;
- Eu sempre quis ser aviador. Mas já estou cansado de tantas viagens. Prefiro ser ator. Eu me sinto muito bem trabalhando na TV;
- Eu quero ser pai de um menino.
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29/10/2024
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