Meu oito de dezembro
O dezembro último se iniciava. Minha irmã e afilhada, Mariza, como faz sempre que viaja, deixou o carrão dela com o padrinho. Já no papel de piloto, entro na garagem do meu bloco, Edifício Renato Russo, e aí o quadro fica russo: no momento em que eu fazia a manobra para estacionar na minha vaga, a pilastra matreiramente se desloca e bate na porta traseira da máquina.
Que estrago. Apresso-me em levá-lo para o conserto. Obtenho do Cassiano, dono da oficina no Guará II e um artista da lanternagem, o compromisso de me entregar o veículo no dia 8 de dezembro, data em que se completaria dez anos do embarque do meu pai para o plano que dizem (mas não provam) ser muito melhor do que este daqui.
Chega o dia aprazado. Comecei-o no zebrinha. Desço na W3 Norte, altura da Rede Globo, primeira etapa do meu périplo. Protegido pelo guarda-chuva (eu dizia desde pequeno “morro molhado mas não ando de guarda-chuva.” Tá bom!), voo debaixo do aguaceiro para o Liberty Mall.
Na visita ao dentista, fico sabendo que, após a mordida de um caroço de fruta tempos atrás, o que se desprendera de minha gengiva era dente, inteirão, não era coroa, jaqueta. Como assim? Para a minha modesta pessoa, o que caia era dente de leite. Será que estou prestes a usar Corega?
Almoço na praça da alimentação do shopping. Em seguida, adentro a agência bancária para sacar a grana destinada à lista de Natal dos porteiros do meu prédio. Um gordalhão de uns cento e vinte quilos, com uma porrada de contas e boletos para pagar, empolgava o único caixa eletrônico que permitia saques (por que não foi para os exclusivos de pagamentos e depósitos, vazios quase todos?). Cara de polaco, suarento, bermudão, chinelo de frade uma lancha torpedeira, não estava nem aí pra fila. Entre duas meninas contrafeitas, o galante aqui. Hora de fazer gracinha e buscar cumplicidade. Para a da frente, a primeira da fila, eu portanto o segundo, soltei a língua preconceituosa e vingativa: “Podia ser pior – já pensou se ele fosse seu marido?” Ela riu muito e até se aliviou um pouco da longa espera. Como castigo (para mim e sobretudo para os porteiros), não consegui sacar porque o sistema era de leitura ótica do dedo indicador e eu não havia feito os procedimentos necessários a tal modalidade de acesso à conta corrente.
De posse do orçamento do dentista, decido ir “de a-pé” até o Banco Central para protocolar o laudo com vista ao reembolso (parcial) a cargo do meu plano de saúde; senti que iria voltar àquele prédio em formato de dobrão (a moeda) ainda nesse dia. Próximo à Galeria dos Estados, ouço um repetido, à la maritaca, “capaqui, capaqui, capaqui”. Fiquei em dúvida se o homem (idade entre 45 anos e 75 anos) vendia capas de chuva ou era um castrador. Ele conseguia de fato chamar a atenção dos passantes.
Na recepção da Caixa-Preta, a simpática mocinha atendente ricocheteia: ”Senhor, a identidade”. Saído havia menos de três meses do Bacen por aposentadoria após quarenta e dois anos e tijolada de casa, virei um estranho. Cumpridos os trâmites burocráticos no setor assistencial, transponho a porta giratória e entrevejo a sede da Caixa ali em frente, do outro lado da rua, belos vitrôs encharcados pela torrente que não diminuía.
Termino a caminhada de duzentos metros, atinjo a região em frente à sede regional verde-azul/azul-verde do BB e subo no baú de Sobradinho. Tomo assento e no ponto (parada) seguinte entra um galalau de seus metro e noventa (pobre também cresce), mochilão nas costas. “Tava tardando” (diria meu pai): aquela bolsa viajou um bom trecho a dez centímetros do meu rosto, o girafa (foi lá, no restaurante de mesmo nome, um “f” a mais, onde almocei) de costas pra mim. Se esse treco relar (obrigado, paulistas) meu supercílio, vai ser uma puta sangreira. Eixinho 211N, salto, incólume.
Mais chuva, meu apartamento é o abrigo. Há que tirar a roupa da máquina de lavar, pendurá-la, ler um pouco, fazer uma horinha até a viagem ao Guará 2 para o resgate do Corolla, àquela altura quase pronto o serviço.
16 de janeiro de 2015
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